“Direito social sem cálculo, sem transição e sem responsabilidade pode virar frustração. E frustração, no Brasil, quase sempre tem CPF, salário apertado e carteira de trabalho em risco”.
Ninguém de bom senso é contra a discussão sobre a mudança na escala 6×1. O mundo, em diferentes ritmos, tem caminhado para ampliar o tempo de descanso, convivência, lazer e recomposição física dos trabalhadores. Há razoável consenso de que pessoas menos exaustas tendem a produzir melhor, adoecer menos e participar com mais qualidade da vida familiar e social.
O problema começa quando uma pauta legítima, carregada de sentido civilizatório, é empurrada no afogadilho da temporada eleitoral, sem debate profundo sobre suas premissas, condições, custos, impactos e formas de transição. Transformar um direito desejável em instrumento de barganha política é, no mínimo, uma leviandade. O aplauso imediato pode render votos. A conta mal calculada, porém, costuma chegar depois, quase sempre ao endereço de quem se pretendia proteger: o trabalhador.

Toda atividade humana é, em alguma medida, política. Organizar interesses, harmonizar conflitos, ajustar direitos e deveres, tudo isso pertence à vida pública. Mas há uma distância considerável entre fazer política e capturar uma demanda social para servir de palanque. Quando esse limite se rompe, a promessa deixa de ser pacto e vira espetáculo.
A situação faz lembrar a célebre pergunta atribuída a Garrincha, diante da estratégia traçada pelo treinador: esqueceram de combinar com os russos? No caso da escala 6×1, parece faltar exatamente isso. Combinar com a realidade. Com os pequenos negócios. Com a indústria. Com o comércio. Com os serviços. Com os custos de contratação. Com a produtividade. Com a informalidade. Com o país concreto que existe fora dos discursos.
E aqui há outro vício antigo, quase naturalizado. Assim como os russos da anedota entram na história como adversários duros, implacáveis e ameaçadores, os empresários costumam ser tratados, em parte do debate público, como uma categoria suspeita por definição. É um preconceito tosco e contraproducente. A sociedade que despreza quem gera emprego, investimento, produção e renda empobrece sua própria capacidade de construir soluções.
Cabe ao empresário cumprir a lei, respeitar direitos, remunerar com justiça e compreender que o trabalho não pode ser reduzido a exaustão. Mas cabe também ao poder público tratar a economia real com seriedade. Direito social sem cálculo, sem transição e sem responsabilidade pode virar frustração. E frustração, no Brasil, quase sempre tem CPF, salário apertado e carteira de trabalho em risco.
