Ouro, mercúrio, armas e drogas: operação revela avanço do crime organizado em área protegida do Amazonas

 

A ofensiva da Polícia Federal e do ICMBio contra o garimpo ilegal na Estação Ecológica Juami-Japurá, no noroeste do Amazonas, expõe muito mais do que um crime ambiental isolado. O que se encontrou na região, entre dragas, mercúrio, ouro, armas, drogas e equipamentos de comunicação, revela a consolidação de uma economia clandestina que mistura mineração ilegal, narcotráfico, lavagem de dinheiro e ocupação territorial na Amazônia profunda.

A operação realizada nesta terça-feira (26) inutilizou estruturas estimadas em R$ 8 milhões e aplicou mais de R$ 1 milhão em multas. Também foram apreendidos cerca de 70 gramas de ouro, 2,1 quilos de mercúrio, munições, armamentos e pequenas quantidades de cocaína e maconha. A ação contou ainda com apoio do Censipam e identificou um modelo de exploração conhecido como “garimpo de baixão”, modalidade menos comum na região e considerada altamente destrutiva pela capacidade de devastação das áreas de mata e cursos d’água.

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Foto de arquivo. Vista aérea de uma draga ilegal usada para extrair ouro perto de Puerto Maldonado, província de Tambopata, região de Madre de Dios, na floresta amazônica do sudeste do Peru, (Foto: Lidia Pedro/AFP)

Operação apreendeu ouro, mercúrio, drogas e armamentos

A área atingida fica dentro da Estação Ecológica Juami-Japurá, unidade federal de proteção integral criada justamente para preservar a bacia hidrográfica do Rio Juami e seus ecossistemas associados. O avanço do garimpo sobre esse território acompanha um padrão já observado em outras regiões da Amazônia brasileira, onde organizações criminosas passaram a tratar áreas protegidas e terras indígenas como corredores estratégicos para atividades ilícitas.

Relatórios recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Igarapé mostram que o garimpo ilegal deixou de ser apenas uma atividade predatória dispersa para se transformar em eixo financeiro do crime organizado amazônico. Em muitos casos, facções passaram a controlar logística, fornecimento de combustível, compra de ouro, proteção armada e rotas fluviais utilizadas tanto para mineração quanto para tráfico de drogas.

O Amazonas tornou-se peça central desse tabuleiro. O estado possui extensas áreas de fronteira com Colômbia, Peru e Venezuela, combinação que favorece o fluxo clandestino de ouro, armas, cocaína e mercúrio. Estudos do MapBiomas apontam que a área afetada pelo garimpo na Amazônia cresceu mais de seis vezes nas últimas décadas, com forte aceleração a partir de 2018. Boa parte dessa expansão ocorreu próxima a unidades de conservação e territórios indígenas.

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Centenas de balsas e dragas bloqueiam trecho do Rio Madeira (AM) para garimpo ilegal | Crédito: Bruno Kelly / Greenpeace

Especialistas alertam para avanço de facções sobre áreas protegidas

Dados do Instituto Escolhas indicam que cerca de metade do ouro comercializado no Brasil apresenta algum nível de irregularidade ou suspeita de origem ilegal. A cadeia clandestina movimenta bilhões de reais por ano e se beneficia de fragilidades históricas na rastreabilidade do minério. O ouro ilegal extraído na Amazônia frequentemente ingressa no mercado formal com documentação fraudada, alcançando inclusive cadeias internacionais.

A presença de mercúrio apreendido na operação reforça outro problema silencioso. O metal pesado utilizado na separação do ouro contamina rios, peixes e populações humanas. Pesquisas da Fiocruz e do Instituto Evandro Chagas vêm identificando níveis preocupantes de contaminação por mercúrio em comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia, especialmente em regiões pressionadas pelo garimpo.

Nos últimos anos, órgãos ambientais e forças de segurança passaram a tratar o garimpo ilegal menos como infração ambiental clássica e mais como atividade estruturante de redes criminosas complexas. A apreensão simultânea de drogas, armas e ouro na operação desta terça reforça essa leitura.

A destruição das estruturas ilegais na Juami-Japurá representa um golpe operacional importante, mas especialistas em segurança e conservação ambiental alertam que a pressão tende a migrar para novas áreas da floresta. O ciclo se repete em diferentes pontos da Amazônia, impulsionado pela alta internacional do ouro, pela fragilidade do controle territorial e pela capacidade de adaptação logística das organizações criminosas.

Na prática, o que está em disputa já ultrapassa a questão mineral. Trata-se do controle econômico e político de partes significativas da Amazônia

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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