ONG está transformando biodiversidade amazônica em inovação alimentar

A partir da ciência e da tecnologia, o Idesam impulsiona soluções que agregam valor a frutos da Amazônia e abrem novos mercados sustentáveis.

Frutos tradicionais da Amazônia, como castanha-da-Amazônia, cupuaçu, açaí, buriti e tucumã, vêm ganhando novas formas de uso por meio da tecnologia. Transformados em pó, lascas ou outros formatos desidratados, esses ingredientes passam a ter maior durabilidade, facilidade de transporte e mais possibilidades de aplicação na indústria de alimentos, na gastronomia e no consumo cotidiano.

A inovação está associada à liofilização, técnica que retira a água dos alimentos por meio de congelamento e desidratação a frio. Diferente de processos que usam altas temperaturas, esse método ajuda a preservar características importantes dos frutos, como cor, sabor, aroma e parte de seus nutrientes. Isso permite que ingredientes regionais sejam armazenados por mais tempo e usados em receitas variadas, sem a necessidade de conservantes químicos.

Entre os exemplos estão o buriti em pó, usado em massas e pães; o cupuaçu na preparações doces; a castanha-da-Amazônia em cremes e proteínas vegetais e o tucumã em lascas liofilizadas, ingrediente conhecido na culinária amazonense, especialmente no tradicional X-Caboquinho. Ao serem reidratados ou incorporados às receitas, esses produtos recuperam parte da textura e das propriedades do alimento original.

PPBio conecta ciência, floresta e mercado

As soluções fazem parte de iniciativas ligadas ao Programa Prioritário de Bioeconomia, o PPBio, idealizado pela Suframa e coordenado pelo Idesam. O programa busca conectar pesquisa, tecnologia, empresas, startups e comunidades locais para desenvolver novos produtos, processos e serviços ligados à sociobiodiversidade amazônica.

Segundo dados do programa, os investimentos já somam cerca de R$ 196 milhões. A iniciativa reúne 51 negócios incentivados, 19 Instituições de Ciência e Tecnologia e já apoiou mais de 240 soluções inovadoras. Além disso, contribuiu para a geração de mais de 800 empregos em cadeias produtivas da Amazônia Ocidental e do Amapá.

A proposta, apoiada pelo Idesam, é agregar valor aos produtos da floresta, ampliando oportunidades de renda e fortalecendo modelos econômicos baseados no uso sustentável da biodiversidade. Em vez de comercializar apenas matérias-primas in natura, a bioeconomia passa a investir em processamento, inovação e desenvolvimento de produtos com maior valor agregado.

Durante a Expopim 4.0, realizada em março, em Manaus, o público conheceu aplicações práticas desses ingredientes. As receitas foram preparadas pela chef Renata Peixe-boi. Entre as preparações estavam crepioca de buriti com creme de castanha-da-Amazônia, pãozinho de buriti com queijo coalho, biscoitinho de cupuaçu e buriti, creme de macaxeira com tucumã e chips crocantes, além de iogurte de macaxeira com proteína de castanha, geleia de araçá-boi e nibs de cacau.

“A ideia foi mostrar, na prática, como esses ingredientes podem fazer parte do dia a dia, de forma simples e inovadora”, afirma Expedito Moura, do Idesam, que participou da organização da atividade.

Além da culinária regional, os ingredientes amazônicos liofilizados têm potencial para alcançar outros mercados, como panificação, alimentação saudável, produtos plant-based e alta gastronomia. A facilidade de armazenamento e transporte também pode ampliar o acesso a esses insumos fora da região amazônica.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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