O valor da floresta em pé e o colapso de uma lógica ultrapassada

Dia Mundial das Florestas


Há momentos em que uma proposta ultrapassa o campo da política pública e se projeta como um marco civilizacional. A iniciativa brasileira de criar um fundo global para florestas tropicais se insere exatamente nesse território. Ela não apenas responde à urgência climática. Ela reorganiza o próprio conceito de valor na economia contemporânea.

Durante décadas, a floresta foi tratada como obstáculo. Um vazio a ser ocupado, uma fronteira a ser vencida, um ativo inerte à espera de conversão em pasto, madeira ou monocultura. Essa visão, ainda hoje defendida por setores que resistem à transição, sustenta uma equação simples e equivocada: derrubar para crescer.

Ao propor um mecanismo financeiro que remunera países pela manutenção de suas florestas, o país introduz uma lógica que até então permanecia marginal. A de que conservar não pode ser um custo. Precisa ser uma fonte contínua de receita, previsível, mensurável e integrada ao sistema econômico global.

Esse movimento desloca o eixo da discussão. A floresta deixa de ser um tema ambiental periférico e passa a ocupar o centro da infraestrutura climática do planeta. Como qualquer infraestrutura estratégica, ela exige investimento, governança e retorno.

FLORESTA EM PÉ
© PREFEITURA DE SÃO JOSÉ DO XINGU (MT)

O fundo, nesse sentido, atua como instrumento de correção histórica. Ele reconhece que os serviços ambientais prestados pelas florestas tropicais, especialmente a regulação do clima e do ciclo hidrológico, sustentam cadeias produtivas inteiras, inclusive aquelas que operam a milhares de quilômetros de distância.

Parte do agronegócio que ainda aposta na expansão predatória sustenta sua atividade sobre bases ecológicas que ele próprio contribui para fragilizar. A regularidade das chuvas, a estabilidade térmica e a fertilidade dos sistemas naturais não são variáveis externas. São condições estruturais da produtividade.

Area desmatada em Juara em Mato Grosso o estado que teve a maior de floresta amazonica destruida em fevereiro de 2022 Foto Christian BragaGreenpeace2020.jpg
Imagem de reprodução

O fundo proposto pelo Brasil expõe essa incoerência com clareza. Ao atribuir valor econômico direto à floresta em pé, ele demonstra que o verdadeiro atraso não está na preservação, mas na insistência em modelos que já não se sustentam diante da crise climática.

A COP30 surgiu, assim, como um ponto de inflexão. Depois de anos marcados por compromissos difusos e metas frequentemente descumpridas, o debate começa a se deslocar para instrumentos concretos, capazes de alinhar incentivos econômicos com a estabilidade ambiental.

O fundo de florestas tropicais sintetiza esse novo momento. Ele oferece escala, previsibilidade e racionalidade a uma agenda que, até aqui, foi fragmentada e insuficiente.

Ao invés de reagir às pressões externas, o país assume protagonismo ao propor uma arquitetura financeira que dialoga com o interesse global. Não como concessão, mas como liderança. Não como defesa de um patrimônio isolado, mas como contribuição direta à estabilidade do sistema climático.

Ela sinaliza que a floresta pode, enfim, deixar de ser vista como limite e passar a ser reconhecida como fundamento. Que o futuro não será construído apesar dela, mas a partir dela.

E, sobretudo, que o tempo das justificativas para a destruição começa a se esgotar.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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