Bioenergia na Amazônia aponta novo futuro energético, mas ainda esbarra no diesel

Entre oportunidades e desafios, a bioenergia na Amazônia desponta como estratégia para fortalecer a segurança energética, reduzir impactos ambientais e impulsionar a bioeconomia no Brasil.

Apesar da abundância de recursos renováveis, a realidade energética amazônica ainda é marcada por contradições. Nos sistemas isolados da Amazônia Legal, 96% da energia consumida provém de combustíveis fósseis, principalmente o óleo diesel. Cerca de 1,9 milhão de pessoas dependem quase exclusivamente de geradores movidos a esse combustível.

Nesse contexto, a bioenergia na Amazônia começa a ganhar espaço como alternativa estratégica, com potencial para reposicionar a região na transição energética global.

Ribeirinhos em comunidade da Amazônia utilizam gerador a diesel para garantir acesso à energia elétrica em região isolada.
Ribeirinhos ainda dependem de geradores a diesel para acesso à energia em áreas isoladas da Amazônia, evidenciando os desafios da transição energética na região.

O potencial energético do bioma está diretamente ligado à sua diversidade. Resíduos de serrarias, caroços de açaí, cachos de dendê e outros subprodutos agrícolas apresentam alto poder calorífico e podem ser convertidos em eletricidade por meio da biomassa. O caroço do açaí, por exemplo, representa cerca de 70% do peso do fruto processado, o que o torna uma fonte relevante de energia despachável. Assim, a expansão da bioenergia na Amazônia depende do aproveitamento eficiente desses resíduos.

Outra alternativa é a produção de biogás a partir de resíduos sólidos urbanos, oferecendo uma solução integrada para o destino do lixo e a geração de energia. Um estudo do Instituto Escolhas aponta que somente o Pará tem potencial para produzir 527 milhões de m³ normais de biogás por ano apenas com resíduos sólidos urbanos. 

Já os óleos vegetais regionais despontam como matéria-prima para biocombustíveis, como biodiesel e Diesel Verde (HVO), com capacidade de substituir parcialmente o diesel utilizado em comunidades isoladas, sem exigir grandes adaptações na infraestrutura existente.

No cenário global, marcado pela crescente demanda por fontes renováveis e pela busca por segurança energética, a bioenergia na Amazônia surge como uma vantagem estratégica para o Brasil. A capacidade de produzir energia a partir da floresta em pé coloca o país em posição relevante na transição energética.

No entanto, desafios persistem. A falta de infraestrutura, o acesso limitado a financiamento e a necessidade de uma governança que evite modelos insustentáveis ainda restringem o avanço do setor. Como resposta, o governo federal lançou o Programa de Energias da Amazônia, que prevê novos leilões para sistemas isolados com obrigatoriedade de 22% de fontes renováveis. O número, entretanto, é considerado ainda pouco ambicioso para o cenário atual.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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