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Infraestrutura como destino: o plano que propõe reconectar o Amazonas como estratégia territorial 

O Amazonas é, ao mesmo tempo, um dos territórios mais ricos do planeta e um dos mais isolados dentro de suas próprias fronteiras. Cortado por uma das maiores redes hidrográficas do mundo, o Estado ainda convive com a dificuldade básica de se deslocar, produzir e integrar suas próprias regiões.

A questão da infraestrutura provavelmente é o principal gargalho do desenvolvimento.

Esse é o ponto de partida da análise do professor Augusto Rocha, integrante das comissões de Logística do CIEAM e da FIEAM e estudioso dedicado do tema. Aqui estão algumas de suas contribuições ao PED Plano Estratégico de Desenvolvimento, do senador Omar Aziz, oferecido ao debate.

A partir de um diagnóstico direto, o professor Augusto sustenta que o Amazonas opera hoje com a pior infraestrutura logística do país, resultado de décadas de ausência de coordenação, investimento e prioridade política.

Enquanto o debate nacional avança sobre crescimento, transição energética e competitividade global, a Amazônia ainda enfrenta um desafio mais elementar: conectar pessoas, territórios e oportunidades. Sem isso, qualquer projeto de futuro nasce limitado.

É nesse contexto que a logística deixa de ser um tema técnico e passa a ocupar o centro da estratégia. O Plano Estratégico de Desenvolvimento propõe uma ruptura com a inércia histórica, ao tratar a infraestrutura como eixo estruturante da economia, da coesão social e da sustentabilidade.

Coluna Follow-Up


BRASIL AMAZÔNIA AGORA – Por que a logística deixou de ser um problema técnico e passou a ser a fronteira decisiva do desenvolvimento amazônico?

Augusto Rocha – O Amazonas vive um paradoxo silencioso. Detentor de uma das geografias mais estratégicas do planeta, com uma malha hídrica que poderia sustentar um dos sistemas logísticos mais eficientes do mundo, o Estado permanece isolado dentro de si mesmo.

Não se trata de percepção. Trata-se de evidência empírica reiterada ao longo dos anos por estudos técnicos, rankings nacionais e, sobretudo, pela experiência cotidiana de quem tenta circular pelo interior.

É nesse ponto que o diagnóstico apresentado no Plano Estadual de Desenvolvimento (PED) ganha densidade política: o Amazonas não enfrenta apenas um déficit de infraestrutura. Enfrenta uma ausência histórica de projeto logístico. A consequência é direta. Um território desconectado, uma economia concentrada e uma sociedade fragmentada.

O isolamento como política não declarada

Augusto Rocha – A afirmação de que o Amazonas possui a pior infraestrutura logística do país pode soar exagerada à primeira vista. Não é.

A desconexão do interior, a precariedade dos modais e a inexistência de um sistema integrado compõem um quadro estrutural. Rankings da Confederação Nacional do Transporte e análises independentes vêm apontando essa condição há anos, sem alteração relevante no cenário.

O que se observa não é apenas carência de investimento. É ausência de coordenação. E isso se torna ainda mais crítico diante da reforma tributária. Ao deslocar a arrecadação do produto para o consumo, o novo modelo exige dinamização econômica no interior. Sem isso, o Estado perde capacidade fiscal e amplia sua vulnerabilidade. A logística, nesse contexto, passa a ser condição de sobrevivência econômica.

Quando a logística organiza o território

Augusto Rocha – O plano propõe uma inversão de lógica. Em vez de tratar a logística como gargalo, coloca-a como vetor estruturante do desenvolvimento. O efeito esperado é sistêmico.

Ao reduzir custos de deslocamento e integrar regiões, a infraestrutura ativa cadeias produtivas, estimula a formação de mão de obra, atrai novos agentes econômicos e amplia o acesso a serviços. O território passa a funcionar como sistema, e não como um conjunto de ilhas isoladas.

Não se trata de uma transformação instantânea. Trata-se de um processo cumulativo, cujo impacto cresce à medida que as conexões se consolidam. O problema é o tempo. Cada ano de inação amplia o distanciamento relativo do Amazonas em relação ao restante do país.

Infraestrutura e floresta: um falso dilema

Augusto Rocha – A expansão logística na Amazônia costuma esbarrar em um debate polarizado. De um lado, a necessidade de integração. De outro, o risco de degradação ambiental. O plano tenta reposicionar essa discussão.

A proposta não ignora o conflito. Ao contrário, parte dele para sugerir uma abordagem de conciliação. A infraestrutura, especialmente em projetos sensíveis como a BR-319, deve ser planejada com mecanismos de proteção territorial, escuta social e governança ambiental.

O problema, segundo o diagnóstico apresentado, não está apenas na divergência de posições, mas na incapacidade de diálogo entre elas. Sem escuta real, não há solução sustentável.

O gargalo invisível: governança

Augusto Rocha – Entre todas as lacunas identificadas, uma se destaca por sua natureza estrutural: a ausência de uma instância institucional dedicada à logística. Hoje, não existe no Amazonas uma estrutura capaz de planejar, integrar e executar políticas de transporte de forma sistêmica.

A proposta de criação de uma Secretaria de Transportes e Logística não é apenas administrativa. É estratégica. Sem coordenação, os investimentos se dispersam. Sem prioridade política, os projetos não avançam. Sem gestão, não há transformação.

Operarios trabalhando na montagem de uma torre de linha de transmissao de energia no Amazonas Lalo de Almeida 12.jun .25 Folhapress
Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

Um sistema que ainda não existe

Augusto Rocha – Quando se fala em integração multimodal, a tendência é discutir qual modal deve ser priorizado. No caso do Amazonas, essa pergunta parte de um pressuposto equivocado. Não há sistema a ser priorizado porque o sistema, na prática, não existe.

Rodovias, hidrovias, portos e aeródromos operam de forma fragmentada, sem articulação estratégica. O desafio, portanto, não é escolher o elo mais importante, mas construir a cadeia.

Nesse desenho, os rios assumem papel central. Transformá-los em hidrovias reguladas, com infraestrutura adequada e operação eficiente, pode redefinir a lógica de circulação no Estado. Mas isso exige duas condições que hoje são escassas: conhecimento técnico aprofundado e decisão política.

Interiorizar para existir

Augusto Rocha – A concentração econômica em Manaus não é apenas um fenômeno urbano. É resultado direto da ausência de infraestrutura no interior. O plano propõe inverter essa lógica.

Ao alinhar investimentos logísticos às vocações produtivas de cada região, busca-se ativar economias locais, reduzir desigualdades territoriais e ampliar a base de consumo do Estado. Essa estratégia não é apenas econômica. É fiscal, social e política. Sem interiorização, o Amazonas se torna dependente de um único polo. Com interiorização, amplia sua resiliência.

Infraestrutura como política social

Augusto Rocha – Um dos pontos mais relevantes do plano está na incorporação explícita da dimensão social à logística. Segurança fluvial, acesso a serviços públicos e conectividade territorial deixam de ser efeitos indiretos e passam a ser objetivos centrais.

Isso redefine o conceito de infraestrutura. Ela deixa de ser apenas um instrumento econômico e passa a operar como ferramenta de cidadania. Na prática, significa garantir que o deslocamento no território amazônico não seja um privilégio, mas um direito.

O risco não é político

Augusto Rocha – O plano é ambicioso, abrangente e, em grande medida, viável. O maior risco não está na engenharia, no financiamento ou na complexidade operacional. Está na execução.

A história recente do país é marcada por descontinuidade, fragmentação e ausência de compromisso de longo prazo. Sem uma estrutura de gestão dedicada e sem prioridade política, propostas estruturantes tendem a se diluir. Ainda assim, há um ponto relevante.

Mesmo uma implementação parcial já seria capaz de produzir efeitos significativos. Diante do nível de atraso acumulado, qualquer avanço consistente tem potencial transformador.

Reconectar o Amazonas é redefinir seu futuro

Augusto Rocha – A discussão sobre logística no Amazonas não pode mais ser tratada como agenda setorial. Ela atravessa a economia, a sustentabilidade, a governança e a própria ideia de desenvolvimento regional. Reconectar o território não é apenas reduzir distâncias físicas. É integrar oportunidades, distribuir riqueza e reposicionar o Estado no mapa econômico do país.

A questão, portanto, não é se o Amazonas precisa de infraestrutura. A questão é se haverá decisão para construí-la.


AUGUSTO

Augusto Rocha é Professor Associado da UFAM, com docência na graduação, Mestrado e Doutorado e é Coordenador da Comissão CIEAM de Logística e Sustentabilidade


Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br.

Quando os Estados Unidos se retiram de si mesmos


Os avanços ou retrocessos da história nem sempre se dão por ruptura externa, mas por deslocamento interno. Os Estados Unidos atravessam um desses momentos. E todos estamos sobressaltados. 

A questão já não é apenas Donald Trump, suas decisões ou seu estilo de poder. O que se observa é uma inflexão mais profunda. Um país que ajudou a estruturar a ordem internacional moderna começa a se afastar das bases que lhe deram centralidade.

Ao sair do Acordo de Paris, reduzir seu engajamento em organismos como a OMS e a OMC e esvaziar sua presença em fóruns como a COP30, Washington não apenas se descola de agendas específicas. Reposiciona-se diante do próprio sistema de um país que anunciou ser MAGA e se transformou numa megalópoles em protesto.

Esse movimento tem implicações que vão além da diplomacia tradicional. Ele atinge o núcleo da coordenação global.

No século XX, após duas guerras globais, o mundo ainda busca seu eixo na expectativa de um equilíbrio pacífico que se move aos solavancos. Um movimento imperfeito onde as instituições ajudam a evoluir no diapasão do multilateralismo diplomático. Avançamos na tecnologia mas tropeçamos na cidadania que padece a distribuição capenga das oportunidades e direitos. 

Mas o ponto central não é simplesmente a perda de uma liderança. É o fato de que o mundo já não comporta mais uma liderança concentrada nos moldes do pós-guerra. O que está em curso é uma transição ainda incompleta para um modelo de liderança compartilhada. 

A liderança compartilhada não surge automaticamente quando uma potência recua. Ela exige coordenação, densidade institucional e disposição política para construir consensos entre atores distintos. Sem isso, o que emerge não é compartilhamento, mas fragmentação.

União Europeia tenta sustentar protagonismo climático, mas enfrenta limitações internas. A China amplia sua presença global com pragmatismo estratégico. Blocos como os BRICS buscam reequilibrar o eixo de poder, ainda que carreguem assimetrias relevantes.

Estados Unidos
 Foto: Ricardo Stuckert/PR

E nesse mosaico, a ausência de um articulador consistente pesa mais do que a presença de múltiplos protagonistas.

É nesse contexto que a Amazônia deixa de ser apenas um tema ambiental e passa a ocupar uma posição geopolítica central.

A floresta depende de uma engrenagem internacional sofisticada. Financiamento climático, mercados de carbono, compromissos de descarbonização, padrões ESG e pressão diplomática coordenada. Tudo isso requer alinhamento entre Estados, instituições e mercado.

A ausência na COP30, realizada em Belém, simboliza mais do que um gesto diplomático. Representa a retirada de um vetor histórico de articulação em um momento em que a governança climática exige maior, e não menor, densidade política.

Em um cenário de liderança compartilhada estruturada, a Amazônia poderia se beneficiar. Diversificação de parceiros, ampliação de fontes de financiamento, maior autonomia estratégica do Brasil, valorização de ativos ambientais em diferentes mercados.

O que se observa é uma transição desordenada, na qual compromissos são relativizados, padrões são tensionados e interesses imediatos ganham espaço sobre estratégias de longo prazo.

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(Foto: Bruno Cecim / Agência Pará).

Projetos de bioeconomia tornam-se mais vulneráveis. Investimentos em conservação perdem previsibilidade. A pressão internacional por redução do desmatamento oscila. E a narrativa da sustentabilidade como vantagem competitiva enfrenta um ambiente menos favorável.

Os Estados Unidos sempre exerceram influência não apenas por seu poder econômico ou militar, mas por sua institucionalidade. A ideia de que regras funcionam, mesmo sob tensão, foi um dos pilares de sua legitimidade global.

Movimentos recentes de aproximação e sinalização política em relação ao Brasil, com indícios de tentativa de interferência no ambiente político-eleitoral, indicam uma mudança qualitativa. A política externa passa a operar menos por instituições e mais por alinhamentos diretos.

É nesse ponto que a lógica do poder pessoal ganha espaço sobre a lógica republicana.

A ideia de que o Estado se confunde com a vontade do líder deixa de ser uma figura de linguagem histórica e passa a encontrar ressonância no presente.

Outras democracias passam a conviver com pressões externas mais explícitas. A soberania torna-se mais permeável. E o próprio conceito de democracia se desloca, deixando de ser um método institucional para se tornar campo de disputa permanente.

Perdem os Estados Unidos, que deixam de exercer liderança articuladora e passam a operar de forma mais isolada. Perde a diplomacia, substituída por relações mais transacionais. Perde o multilateralismo, esvaziado em sua capacidade de coordenação.

Perde o clima, diante da fragmentação das respostas globais. Perde a agenda ESG, que depende de sinalização política consistente para orientar decisões de investimento.

Perde a democracia, tensionada por dentro e pressionada por fora. E perde, sobretudo, a possibilidade de construção de uma ordem internacional baseada em cooperação.

Os Estados Unidos não estão apenas se retirando de acordos. Estão se afastando de um papel histórico que ajudaram a construir. Estão se retirando de si mesmos.  E o mundo que emerge dessa retirada ainda não encontrou sua forma e eixo à luz  da desestruturação institucional diplomática, civilizacional em curso.

Entre a liderança que se dissolve e o compartilhamento que ainda não se organiza, abre-se um intervalo de incerteza.

É nesse intervalo que se concentram os maiores riscos. E também, paradoxalmente, as maiores responsabilidades. Para países como o Brasil, esse não é apenas um momento de reação. É um momento de definição.

A Amazônia, nesse cenário, deixa de ser periferia e assume condição de eixo. Não apenas ambiental, mas político, econômico e civilizatório. O desafio já não é escolher entre liderar ou seguir.

É saber se o país será capaz de operar em um mundo onde liderar significa, antes de tudo, construir saídas, ou sucumbir ao caos.

O futuro econômico do Amazonas em discussão nas eleições

A pauta para a indústria amazonense é relativamente simples. Precisamos melhorar ainda mais as condições para o Estado ser mais competitivo. Para isso, a principal questão é se os candidatos que se apresentam são completamente favoráveis com a Zona Franca de Manaus e seu Polo Industrial. A partir desta base comum, será necessário observar se há uma real preocupação com as pessoas do Amazonas, a partir do reconhecimento do patrimônio natural e antropológico que possuímos. Estes são os aspectos inegociáveis de uma pauta mínima.

A partir disto, é necessário um compromisso intransigente com o investimento nas correções das deficiências históricas de infraestrutura, na ordem de 2,5% do PIB, que poderá ser construído a partir do orçamento público e de Parcerias Público Privadas (PPP). Sem uma pauta robusta de investimentos jamais faremos a transição para uma economia próspera. A transformação social e econômica não surge espontaneamente. Ações no presente fazem a transformação.

Precisamos ampliar o espaço para o Distrito Industrial, dentro da área da Zona Franca de Manaus. Com a implantação da reforma tributária, há a oportunidade de crescer expressivamente a indústria local. Salvo fenômenos macroeconômicos e geopolíticos muito adversos, poderemos dobrar a produção industrial local. Se houver investimento expressivo em educação e na criação de plataformas logísticas complexas, poderemos transformar a região também em polo concentrador para desenvolvimento de tecnologias e, no futuro, para exportações a partir da biotecnologia.

AMAZONAS EM DISCUSSAO
Zona Franca de Manaus (Reprodução/Eletros)

As infraestruturas de transporte não podem criar pedágios. Os estudos concessivos das hidrovias, que foram revertidos, precisam ser transformados em estudos efetivos dos rios. Precisamos adensar a ciência na Amazônia e atrair mais cérebros, em uma estratégia mais focada no uso dos recursos naturais, sem destruição de grandes áreas. Não podemos cair na armadilha que destruiu outras regiões da Amazônia. Precisamos cometer erros distintos aos que foram feitos na rodovia transamazônica. Como exemplo, a BR-319 precisa ser recuperada com proteção atenta de seu entorno.

Decorrente do continuado declínio da Ordem Internacional Liberal e um risco de colapso da estrutura de paz global, a soberania nacional é um dos aspectos mais importantes para termos atenção no momento delicado em que o mundo se encontra. O reforço de uma Base Industrial de Defesa é muito importante. Precisamos nos concentrar na proteção da Amazônia, com armamentos e estruturas tecnológicas que o nosso orçamento permita, na linha da dissuasão e com os aprendizados dos eventos mais recentes na Ucrânia e no Irã. A soberania nacional é inegociável e, para isso, precisamos focar em tecnologias para além das riquezas naturais, para assegurar a integridade territorial.

As hiper-elites econômicas brasileiras precisarão ter muita atenção, pois elas não possuem relevância em magnitude frente as hiper-elites globais. Sendo assim, para não serem engolidas, não convém o alinhamento com o estrangeiro. O mundo de hoje precisa considerar que as conexões que nos protegerão serão antes de tudo internas, pois as estruturas externas seguem com os interesses de sempre: subordinar e extrais recursos das colônias. Precisamos ter a leitura acertada da realidade, para não sermos vitimados pela desatenção ou o descuido. A Amazônia é frágil e, ao mesmo tempo, forte. Depende da forma como nos percebamos e nos imponhamos. O nome Amazonas já diz muito.

Economia brasileira ainda escolhe desmatamento a floresta em pé

Dados mostram que a floresta em pé oferece mais valor climático e produtivo, mas políticas públicas e mercado ainda favorecem a conversão de áreas naturais em pasto e commodities. 

Quanto vale, no Brasil, uma árvore em pé? No mercado, uma árvore derrubada pode se transformar em madeira, carvão ou área aberta para pasto, gerando lucro imediato. Já uma árvore em pé regula o clima, armazena carbono, sustenta os ciclos de chuva, pode dar origem a diversas cadeias produtivas da bioeconomia e abriga uma biodiversidade imensa. Ainda assim, esse segundo valor raramente é incorporado à lógica econômica.

Um estudo do Climate Policy Initiative (CPI), em parceria com a PUC-Rio, identificou que quase R$ 206 bilhões em crédito rural subsidiado foram concedidos a propriedades com histórico de desmatamento no Brasil entre 2020 e 2024. O levantamento também aponta que os bancos públicos estão entre os principais financiadores dessas áreas.

Os dados ajudam a explicar por que, mesmo diante da crise climática, uma floresta pode valer mais depois de desmatada do que preservada dentro do sistema econômico brasileiro. É nesse desequilíbrio que se sustenta uma das principais engrenagens do desmatamento no país e que evidencia a urgência de repensar como o valor das florestas é reconhecido.

Imagem aérea mostra caminhões carregados com toras de madeira em área de desmatamento na Amazônia, evidenciando a exploração ilegal e a perda de floresta em pé.
Foto: Polícia Federal/AM

Expansão do setor florestal não se traduz em valorização da floresta em pé

O mercado brasileiro, em sua maioria, ainda recompensa mais a derrubada do que a preservação das florestas. Em 2024, a produção econômica ligada ao setor florestal, que inclui tanto áreas naturais quanto plantadas, movimentou R$ 44,3 bilhões, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O setor teve um crescimento de 140% em 5 anos. 

Apesar da relevância econômica, a maior parte dessa produção não vem das florestas nativas. O levantamento mostra que cerca de 84% do valor gerado é proveniente da silvicultura, ou seja, do cultivo de árvores em áreas plantadas. Já o extrativismo vegetal, realizado em florestas naturais, responde por apenas 15,9% (R$ 7 bilhões). Desde o fim da década de 1990, a produção oriunda de florestas plantadas supera a extração em áreas nativas.

A silvicultura funciona como uma espécie de agricultura de árvores. Nesse modelo, espécies como eucalipto e pinus são cultivadas de forma planejada, geralmente em larga escala, com objetivos econômicos bem definidos, como a produção de madeira, papel e celulose, carvão vegetal, biomassa para energia e insumos para a construção civil. Já o extrativismo vegetal refere-se à retirada de produtos diretamente de ecossistemas naturais, como florestas e matas, podendo incluir desde madeira até frutos, óleos e outros recursos.

Plantação de eucalipto em sistema de silvicultura no Brasil, com árvores alinhadas para produção de madeira, contrastando com a floresta em pé nativa.
Área de silvicultura com cultivo de eucalipto destinada à produção de madeira; modelo produtivo difere da floresta em pé, que oferece serviços ambientais mais complexos. Foto: Estadão

Nem toda extração em áreas naturais é ilegal, existem formas regulamentadas de exploração florestal, baseadas em manejo sustentável. No entanto, a atividade ilegal ainda representa uma parcela significativa do setor, especialmente em regiões como a Amazônia, onde a fiscalização enfrenta desafios estruturais.

Além da exploração madeireira, a derrubada de árvores também está fortemente associada à expansão da agropecuária. Na Amazônia, mais de 90% das áreas desmatadas têm como primeiro uso a formação de pastagens, evidenciando a pressão exercida pela pecuária sobre o bioma. Esse processo reforça uma lógica econômica em que a floresta em pé tem menor valor.

Área de pasto com gado em região desmatada da Amazônia, mostrando a substituição da floresta em pé pela pecuária.
Foto: Christian Braga/Greenpeace

Nesse contexto, a dinâmica do setor florestal brasileiro expõe um desequilíbrio estrutural: embora as florestas gerem bilhões em riqueza, o sistema econômico continua privilegiando modelos que dependem da substituição da vegetação nativa, em vez de valorizar sua conservação. É importante reforçar que apesar da relevância econômica da silvicultura, a prática não substitui os serviços ecossistêmicos complexos fornecidos pelas florestas naturais.

O “concreto do futuro” já existe e vem das árvores

Uma das principais inovações que permite agregar valor às florestas sem depender da sua destruição é a madeira engenheirada, com destaque para o Cross Laminated Timber (CLT), ou madeira lamelada colada cruzada.

Essa tecnologia surge como alternativa mais sustentável para a construção civil, um setor intensivo em emissões de carbono. Diferente de materiais como concreto e aço, a madeira captura carbono durante o crescimento da árvore e o mantém armazenado na estrutura das edificações, contribuindo para um balanço climático mais favorável.

Conhecido como o “concreto do futuro”, o CLT combina alta resistência com bom desempenho em situações de fogo e umidade, desafiando antigos preconceitos sobre construções em madeira. No Brasil, o Edifício Amata, ainda em projeto em São Paulo, é um dos exemplos que demonstram a viabilidade da tecnologia.

Projeto do Edifício Amata em São Paulo, construção em madeira engenheirada (CLT), exemplo de uso sustentável de recursos florestais sem substituir a floresta em pé.
Foto: ARQA – AMATA

Embora o custo direto da madeira engenheirada possa ser superior ao do concreto, a análise completa mostra vantagens relevantes. Construções em CLT podem ser até duas vezes mais rápidas, reduzindo custos indiretos com mão de obra, tempo de obra e financiamento, o que torna o modelo competitivo no longo prazo.

Crédito, lei e terra: a engrenagem que sustenta o desmatamento

As florestas prestam serviços ecossistêmicos essenciais, elas regulam o clima, mantêm o ciclo das chuvas e sustentam a produtividade agrícola, mas esse valor segue pouco refletido nas decisões econômicas.

No Brasil, a própria estrutura de governança ajuda a reforçar esse desequilíbrio. Bilhões em crédito rural são destinados a propriedades com histórico de desmatamento, operando em muitos casos como capital para expandir a conversão de áreas naturais. Entre 2020 e 2024, bancos públicos lideraram esse financiamento, a instituição que teve maior porcentagem de crédito subsidiado a propriedades com desmate foi o Banco da Amazônia (BASA), com 71%. 

O monitoramento também apresenta fragilidades. Embora o Cadastro Ambiental Rural (CAR) seja a principal ferramenta de controle, seu caráter autodeclaratório e a lentidão na validação permitem distorções. Na prática, uma parcela mínima das áreas desmatadas é efetivamente embargada, o que mantém propriedades irregulares aptas a acessar recursos públicos.

Na Amazônia, o desmatamento vai além da produção agropecuária e se insere em uma lógica de valorização fundiária. Áreas públicas são ocupadas, desmatadas para comprovar uso e, posteriormente, regularizadas e revendidas por valores mais altos. As chamadas Florestas Públicas Não Destinadas, que somam cerca de 56 milhões de hectares, tornaram-se o principal alvo dessa dinâmica.

O sistema tributário também contribui para esse cenário. O Imposto Territorial Rural (ITR), ao mesmo tempo em que busca penalizar terras improdutivas, apresenta brechas que permitem classificar áreas recém-desmatadas como produtivas, reduzindo a carga tributária. Além disso, atividades de conservação ambiental seguem pouco reconhecidas como uso econômico da terra. 

Fachada do Banco da Amazônia (BASA), instituição financeira pública ligada ao financiamento na região amazônica, com impacto sobre a floresta em pé.
Fachada do Banco da Amazônia (BASA). Foto: Associação dos Empregados do Banco da Amazônia

Bioeconomia: o caminho para valorizar a floresta em pé

Se o modelo econômico dominante ainda trata a floresta derrubada como ativo estratégico, a bioeconomia propõe inverter essa lógica: gerar valor a partir da floresta em pé. Baseada no uso sustentável da biodiversidade, a bioeconomia articula conhecimento tradicional e inovação para desenvolver cadeias produtivas que dependem da integridade do bioma. 

Diferentemente da monocultura e da pecuária extensiva, esse modelo se apoia na diversidade de produtos e na regeneração dos recursos naturais. Na prática, isso inclui alimentos como açaí, castanha-do-Pará e cupuaçu, além de insumos para as indústrias cosmética e farmacêutica, como óleos de andiroba, buriti e patauá. Ao contrário da madeira, que exige décadas para reposição, muitos desses produtos permitem colheitas regulares sem a derrubada das árvores, mantendo a floresta funcional.

Os dados indicam que esse modelo é economicamente competitivo. Sistemas baseados na floresta em pé podem gerar até 7 vezes mais lucro que a pecuária e empregar quarenta vezes mais pessoas do que a soja. Além disso, os investimentos em bioeconomia têm efeito multiplicador, impulsionando diferentes setores da economia. Estima-se que para cada cada R$ 1,00 investido, há o retorno de R$ 1,14 em produção, R$ 1,27 para a indústria e R$ 1,40 para o comércio.

Outro elemento central é a bioindustrialização local, ou seja, o processamento de ativos dentro das próprias comunidades. Essa estratégia amplia o valor agregado dos produtos, reduz a dependência da exportação de matéria-prima bruta e fortalece economias regionais.

Trabalhador coleta castanha-do-pará em área de floresta em pé na Amazônia, atividade ligada à bioeconomia e ao uso sustentável dos recursos naturais.
Coleta de castanha-do-pará na Amazônia mostra como a bioeconomia pode gerar renda mantendo a floresta em pé e valorizando produtos da sociobiodiversidade. Foto: Maurício Paiva.

Tecnologias emergentes também começam a integrar essa cadeia. Sistemas de rastreabilidade, como o uso de blockchain, permitem garantir a origem sustentável dos produtos, enquanto avanços em biotecnologia ampliam o potencial de uso da biodiversidade, ainda pouco explorada. 

Apesar do potencial, a bioeconomia ainda enfrenta barreiras importantes. Gargalos logísticos, falta de infraestrutura, acesso limitado a mercados e um ambiente regulatório que favorece atividades tradicionais dificultam sua expansão. O Brasil, por exemplo, segue exportando majoritariamente commodities de baixo valor agregado, enquanto importa produtos biotecnológicos de maior valor.

Ainda assim, a Amazônia reúne uma das maiores biodiversidades do planeta e, com ela, uma oportunidade estratégica. Mais do que uma alternativa ambiental, a bioeconomia se apresenta como um caminho econômico capaz de alinhar geração de renda e desenvolvimento regional, enquanto mantém a floresta em pé. 

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Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A disputa em torno das árvores revela escolhas econômicas fundamentais. Enquanto o sistema de governança e economia continuar premiando a conversão da floresta em ativos de curto prazo, o desmatamento seguirá sendo uma opção competitiva. Reverter essa lógica exige incorporar o valor real dos serviços ecossistêmicos, redirecionar incentivos e consolidar modelos como a bioeconomia, capazes de transformar a floresta em pé em fonte de riqueza. Mais do que preservar as árvores, trata-se de redefinir o que a economia reconhece como valor.

ESG sob pressão global: por que a Amazônia insiste em liderar o debate

Em um cenário internacional marcado por instabilidade geopolítica crescente, a agenda ESG atravessa um momento de tensão silenciosa. Conflitos armados, insegurança energética e disputas por recursos estratégicos recolocaram na mesa prioridades que muitos julgavam superadas. Em diversas economias, observa-se um reposicionamento corporativo que, na prática, relativiza compromissos ambientais e sociais diante de urgências imediatas.

Esse movimento não é trivial. Ele revela uma fragilidade estrutural na incorporação dos princípios ESG como eixo permanente de governança. Quando a pressão aumenta, parte do mercado recua. E é justamente nesse ponto que iniciativas consistentes fazem diferença.

A AMAZONIA

Os dois primeiros fóruns já haviam estabelecido um padrão elevado de reflexão e articulação. Agora, o terceiro encontro se realiza sob circunstâncias ainda mais desafiadoras, o que amplia sua relevância. Manter o tema vivo, qualificado e conectado às decisões empresariais e públicas exige mais do que discurso. Exige mobilização contínua.

O Polo Industrial de Manaus, com sua base tecnológica e compromisso crescente com padrões internacionais, é parte ativa dessa construção. Sua capacidade de articulação, sua presença ativa e o acompanhamento permanente das pautas demonstram que não se trata de um esforço episódico. Há método, há estratégia e há compromisso de longo prazo.

Um elemento que merece destaque é a liderança feminina nesse processo. Em um momento em que o mundo assiste à persistência de conflitos e à dificuldade de superação de lógicas de poder baseadas na força, a emergência de lideranças femininas em espaços estratégicos não é um detalhe. É um sinal de mudança.

A possível indicação de Michelle Bachelet para a liderança das Nações Unidas, em meio a esse ambiente de instabilidade, dialoga com essa percepção global de que novos paradigmas de governança são necessários. A Amazônia, ao incorporar essa presença em sua agenda ESG, alinha-se a essa transição.

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Foto divulgação

O Fórum, portanto, não apenas acompanha o debate internacional. Ele o tensiona. Ao insistir na centralidade da agenda ESG, mesmo diante de pressões contrárias, reforça a ideia de que sustentabilidade, responsabilidade social e governança não são acessórios de tempos estáveis. São fundamentos para atravessar períodos de crise.

A Amazônia conhece como poucos os efeitos da ausência de governança consistente. Por isso, também reúne condições únicas para contribuir com soluções. O Polo Industrial de Manaus, com sua base tecnológica e compromisso crescente com padrões internacionais, é parte ativa dessa construção.

Manter esse movimento aquecido não é uma escolha circunstancial. É uma necessidade estratégica. O III Fórum Amazônia de ESG reafirma que, mesmo em tempos de incerteza, há espaços que optam por avançar.

Zona Franca de Manaus: compromisso com o Brasil real


Ao longo de décadas de atuação na indústria do Amazonas, aprendi que a Zona Franca de Manaus não pode ser compreendida a partir de simplificações. Trata-se de um projeto de país, construído com esforço contínuo, resiliência e compromisso com o desenvolvimento equilibrado do Brasil, demonstrando a viabilidade 

Vi de perto momentos de expansão, mas também enfrentei períodos de incompreensão e ataques recorrentes ao modelo. Em muitos desses episódios, a crítica partia de uma leitura distante da realidade amazônica, incapaz de perceber que aqui se estruturou uma das mais bem-sucedidas políticas de desenvolvimento regional do país.

A Zona Franca não é apenas um polo industrial. Ela representa uma estratégia concreta de ocupação econômica sustentável, que preserva a floresta ao mesmo tempo em que gera emprego, renda e arrecadação.

Evoluir para permanecer relevante

Defender esse modelo nunca significou preservar o passado. Ao contrário, sempre entendi que sua força depende da capacidade de evoluir. Por isso, ao longo dos anos, insisti na necessidade de diversificação da base produtiva, no adensamento das cadeias industriais e na incorporação de inovação como elemento estruturante.

Hoje, essa agenda se amplia. A discussão global sobre clima, transição energética e responsabilidade socioambiental reposiciona a Amazônia no centro das decisões estratégicas.

Um novo padrão de presença institucional

Há momentos em que a história institucional registra inflexões importantes. Vivemos um desses momentos recentemente.

A presença de um ministro da Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, como jamais se observou na história da Zona Franca de Manaus, com interlocução direta e atuação colaborativa no cotidiano da Suframa, criou um ambiente de coordenação e confiança institucional que impactou diretamente o desempenho da equipe responsável pelo Polo Industrial de Manaus.

Geraldo Alckmin Suframa foto Cadu Gomes VPR
Foto: Cadu Gomes

Esse alinhamento permitiu ganhos de eficiência, maior previsibilidade e, como consequência, contribuiu para um ciclo de crescimento extraordinário do polo.

Não se trata apenas de presença formal, mas de engajamento efetivo na construção de soluções.

Superar narrativas e afirmar resultados

Esse contexto reforça a necessidade de superar uma leitura equivocada ainda presente no debate nacional. A ideia de que a Zona Franca representa um custo para o país não resiste à análise dos dados.

O modelo gera arrecadação expressiva, existe para reduzir desigualdades regionais e contribuir para a estabilidade social de uma área estratégica do território brasileiro.

O que está em jogo já não é apenas um arranjo econômico regional. Trata-se da capacidade de o Brasil demonstrar que desenvolvimento e conservação podem caminhar juntos.

O futuro exige integração e visão estratégica

Tenho convicção de que o futuro da Zona Franca passa por sua integração a uma agenda mais ampla, que inclua bioeconomia, tecnologia, indústria de baixo carbono e novas cadeias de valor baseadas no conhecimento da floresta.

Esse movimento já está em curso e precisa ser fortalecido com inteligência institucional, segurança jurídica e visão de longo prazo.

Ao longo da minha trajetória, procurei atuar com um princípio simples: dialogar sempre, mas sem abrir mão do essencial.

E o essencial é reconhecer que o desenvolvimento da Amazônia interessa ao Brasil como um todo. A Zona Franca de Manaus não é um privilégio regional. É uma solução nacional que precisa ser compreendida, valorizada e continuamente aprimorada.

Entre a floresta e a atmosfera: a ciência que colocou a Amazônia no centro do planeta


Uma homenagem a Paulo Artaxo não se sustenta apenas pelo reconhecimento institucional ou pela projeção de sua trajetória. Ela se justifica, sobretudo, pela densidade e pela consequência de uma obra científica que ajudou a redesenhar o lugar da Amazônia no sistema climático global.

Pioneiro do Experimento LBA, Artaxo liderou pesquisas que conectam floresta, aerossóis e formação de nuvens, reposicionando a Amazônia no centro do debate climático internacional. 

Paulo

Artaxo foi um dos responsáveis por retirar a floresta do campo das narrativas periféricas e colocá-la no centro da física do clima. Sua produção acadêmica, fortemente ancorada na física atmosférica, demonstrou com rigor empírico como a Amazônia opera como um sistema biofísico ativo, capaz de influenciar a formação de nuvens, os ciclos hidrológicos e o balanço radiativo do planeta.

Ao estudar aerossóis atmosféricos – partículas emitidas tanto por processos naturais quanto por queimadas e atividades humanas – ele revelou como esses elementos afetam diretamente a dinâmica das chuvas e a estabilidade climática regional e global.

Com mais de duas décadas de atuação em estudos sobre aerossóis e mudanças climáticas, sua produção científica sustenta parte relevante dos modelos utilizados pelo IPCC.  

Esse é um ponto-chave. Antes de contribuições como as de Artaxo, a floresta era frequentemente percebida como um estoque passivo de carbono. Sua pesquisa ajudou a consolidar a compreensão de que a Amazônia é um sistema de interação contínua entre biosfera e atmosfera, onde a evapotranspiração, a emissão de compostos orgânicos voláteis e a formação de partículas influenciam padrões climáticos que extrapolam fronteiras nacionais. Em termos técnicos, ele ajudou a qualificar o papel da floresta como componente ativo no acoplamento biosfera-atmosfera.

Seu trabalho revelou como o desmatamento e as queimadas alteram a química da atmosfera e comprometem o equilíbrio climático regional e global. 

Outro eixo central de sua contribuição está na quantificação dos impactos das queimadas e do desmatamento. Ao medir, com precisão instrumental, a alteração na composição química da atmosfera amazônica, Paulo Artaxo forneceu evidências robustas sobre como a degradação florestal compromete não apenas a qualidade do ar, mas também o regime de chuvas e a resiliência climática. Esses dados foram fundamentais para alimentar modelos climáticos globais e relatórios do IPCC, ampliando a credibilidade da ciência produzida no Brasil no debate internacional.

Sua atuação também se destaca pela capacidade de articulação entre ciência e política pública. Ao participar de estruturas como o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e a Rede CLIMA, Artaxo contribuiu para traduzir conhecimento científico em subsídios concretos para formulação de políticas. Trata-se de um perfil raro, que transita entre a produção acadêmica de alta complexidade e a incidência institucional qualificada, sem perder rigor.

Ao liderar o LBA, Artaxo ajudou a transformar a Amazônia em um laboratório estratégico para compreender as interações entre biosfera e atmosfera. 

Há ainda um aspecto estratégico pouco destacado, mas decisivo. Ao liderar e integrar programas como o LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia), ele ajudou a estruturar uma agenda científica internacional em torno da Amazônia, colocando o Brasil como produtor de conhecimento e não apenas como objeto de estudo. Isso reposiciona o país no campo da geopolítica do clima, onde ciência e soberania caminham juntas.

Portanto, a homenagem da Câmara dos Deputados ganha substância quando entendida nesse contexto mais amplo. 

Não se trata apenas de reconhecer um pesquisador de excelência, mas de valorizar uma linha de pensamento que afirma a centralidade da Amazônia na estabilidade climática do planeta e a necessidade de decisões públicas ancoradas em evidência científica.

Em um momento em que o debate climático frequentemente oscila entre simplificações e disputas ideológicas, a trajetória de Paulo Artaxo representa algo mais sólido: a construção paciente de conhecimento que conecta floresta, atmosfera e futuro. É isso que, em última instância, justifica a homenagem.

Danos à infraestrutura de petróleo no Oriente Médio superam US$ 25 bi

Ataques a infraestruturas estratégicas interrompem produção e expõem fragilidades na cadeia de energia, ampliando riscos econômicos e ambientais ligados ao petróleo no Oriente Médio por anos.

A reconstrução das infraestruturas de petróleo e gás no Oriente Médio após os recentes ataques envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel deve se estender por anos e custar bilhões de dólares, com impactos diretos no abastecimento global de energia e no cenário do petróleo no Oriente Médio.

O levantamento da consultoria Rystad Energy estima que os danos já somam cerca de US$ 25 bilhões (R$ 131 bilhões), valor que pode crescer à medida que novas avaliações forem realizadas. As estruturas afetadas incluem unidades de gás natural liquefeito (GNL), refinarias, terminais de combustíveis e instalações de conversão de gás em líquidos, espalhadas principalmente pelo Golfo Pérsico.

O conflito provocou interrupções relevantes na oferta global de combustíveis fósseis, elevando os preços internacionais do petróleo e do gás e pressionando cadeias de abastecimento dependentes desses insumos, com efeitos diretos sobre o petróleo no Oriente Médio e sua relevância estratégica.

Refinaria offshore em operação no mar destaca a importância do petróleo no Oriente Médio para o abastecimento global
Foto: Pexels

Entre os casos mais críticos está a cidade industrial de Ras Laffan, no Catar, considerada um dos maiores polos de GNL do mundo. Danos em duas unidades reduziram cerca de 17% da capacidade produtiva do país, o equivalente a aproximadamente 12,8 milhões de toneladas por ano. A retomada total das operações pode levar até cinco anos, principalmente devido à escassez global de turbinas a gás e ao longo prazo de entrega desses equipamentos.

No Irã, o campo de gás de South Pars também enfrenta dificuldades significativas. Sanções e restrições comerciais limitam o acesso a fornecedores ocidentais, obrigando o país a depender de empresas locais e chinesas, alternativa viável, mas mais lenta e onerosa.

Outros países da região também registraram prejuízos. No Bahrein, a refinaria de Sitra sofreu danos em unidades essenciais e precisou interromper operações. Já Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait e Iraque tiveram impactos mais moderados, embora ainda relevantes para a estabilidade regional do setor energético.

Especialistas apontam que a velocidade da recuperação não dependerá apenas de investimentos financeiros, mas também de fatores estruturais, como disponibilidade de equipamentos, capacidade industrial e acesso a cadeias globais de suprimentos. Em muitos casos, a reconstrução deve competir com projetos já em andamento, ampliando prazos e custos.

Diante desse cenário, analistas destacam a necessidade de coordenação entre governos, empresas e parceiros internacionais para mitigar os efeitos da crise e evitar um prolongamento das restrições na oferta global de energia, o que pode aprofundar as incertezas em torno do petróleo no Oriente Médio nos próximos anos.

Robôs submersos revolucionam o combate à poluição marinha invisível

Tecnologia europeia integra IA, drones e veículos autônomos para mapear e retirar lixo submerso, enfrentando a poluição marinha em áreas inacessíveis e de alta complexidade.

Grande parte das ações de limpeza dos oceanos ainda se concentra no plástico visível na superfície. No entanto, a maioria dos resíduos permanece fora de alcance, acumulada no fundo do mar. É nesse contexto que sistemas robóticos começam a transformar o combate à poluição marinha.

O projeto SeaClear2.0 foi desenvolvido para atuar justamente nessa camada invisível. A iniciativa integra drones, embarcações autônomas e robôs subaquáticos capazes de localizar e remover detritos em áreas de difícil acesso.

“Uma enorme quantidade de lixo acaba no mar”, afirma Bart De Schutter, professor da Universidade de Tecnologia de Delft e coordenador do projeto. “Muitos projetos visam o lixo da superfície, mas nós focamos no fundo do mar. É importante remover o lixo de lá, porque ele pode contaminar o meio ambiente.”

A operação começa com o mapeamento das áreas contaminadas por drones e veículos de superfície não tripulados. Em seguida, robôs subaquáticos entram em ação, utilizando garras e sistemas de sucção para coletar resíduos como garrafas, pneus e estruturas metálicas. A tecnologia consegue diferenciar lixo de elementos naturais mesmo em ambientes com baixa visibilidade.

Um dos diferenciais do sistema é a logística integrada. Uma balsa autônoma recebe os materiais coletados e os transporta até a costa, reduzindo deslocamentos e aumentando a eficiência. Em testes, já foram removidos pneus, cercas de metal e partes de embarcações.

Infográfico explica como drones e robôs atuam no combate à poluição marinha no fundo do oceano.
Infográfico detalha o funcionamento de drones, embarcações e robôs subaquáticos usados para identificar e remover resíduos ligados à poluição marinha. Foto: Divulgação/Sea Clear 2.0.

A urgência desse tipo de solução está no comportamento do plástico no oceano. Ao permanecer no fundo, ele se fragmenta em microplásticos que entram na cadeia alimentar e nos recursos hídricos, um dos principais desafios da poluição marinha. Após esse processo, a remoção se torna praticamente inviável.

Antes dessas tecnologias, a retirada de resíduos submersos dependia exclusivamente de mergulhadores, em operações lentas, caras e arriscadas. A automação amplia a escala e reduz os riscos dessas ações.

O projeto integra a meta da União Europeia de restaurar oceanos e águas, com o objetivo de reduzir o lixo marinho até 2030. Testes já ocorreram em cidades como Marselha e regiões da Alemanha, com novas etapas previstas em diferentes áreas do Mediterrâneo.

Ainda em desenvolvimento, o sistema deve ser concluído até 2026. Durante os testes, surgiu uma aplicação inesperada: a tecnologia também pode ajudar na localização de minas submersas não detonadas.

Ao avançar para o fundo do oceano, os robôs ampliam o alcance das estratégias ambientais e reposicionam o combate à poluição marinha, enfrentando um problema que, até então, permanecia invisível.

Sem internet no campo, agricultura 4.0 no Brasil perde força, aponta estudo

Pesquisa revela como infraestrutura digital, acesso à informação e inclusão produtiva podem acelerar a agricultura 4.0 no Brasil sem ampliar desigualdades no campo.

A expansão da chamada agricultura 4.0 no Brasil depende menos da criação de novas tecnologias e mais da capacidade de fazê-las chegar, de forma eficiente, ao campo. É o que aponta um estudo publicado na revista Agricultural Systems, que identificou os principais fatores que impulsionam, ou limitam, a adoção de soluções digitais no sistema agroalimentar brasileiro.

A pesquisa, conduzida por especialistas ligados ao Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital (Semear Digital), analisou 18 fatores determinantes, os chamados drivers, organizados em dimensões sociais, políticas e tecnológicas. O objetivo foi entender por que, apesar dos avanços científicos, muitas inovações ainda não se traduzem em ganhos concretos para produtores rurais, um dos principais desafios da agricultura 4.0 no Brasil.

Entre os elementos com maior impacto, a conectividade no meio rural aparece como condição básica. Embora o acesso à internet tenha avançado em áreas residenciais, ainda há limitações significativas nas regiões produtivas, onde tecnologias como sensores e internet das coisas precisam operar. Sem infraestrutura adequada, essas ferramentas perdem eficiência ou sequer funcionam, o que compromete o avanço da agricultura 4.0 no Brasil.

Plantação com símbolo de wi-fi representando a conectividade na agricultura 4.0 no Brasil
Conectividade rural é um dos principais desafios para expandir a agricultura 4.0 no Brasil. Foto: MD Tecnologias

Outro fator relevante é o papel da juventude no campo. O estudo destaca que jovens rurais atuam como mediadores entre o universo digital e a realidade das propriedades, contribuindo para a adoção de novas práticas. No entanto, sua permanência depende de acesso a oportunidades, infraestrutura e perspectivas de desenvolvimento, condições que ainda não são homogêneas no país.

A circulação de informações também surge como um ponto crítico. Em muitas regiões, produtores têm pouco ou nenhum contato com determinadas tecnologias, o que aumenta a resistência à adoção. Estratégias como fazendas-modelo e ambientes de demonstração são apontadas como alternativas para reduzir incertezas, permitindo que agricultores avaliem resultados antes de investir.

No campo das políticas públicas, os pesquisadores defendem abordagens diferenciadas conforme o perfil dos produtores. Enquanto grandes propriedades tendem a incorporar rapidamente novas tecnologias, pequenos e médios agricultores enfrentam barreiras financeiras e de capacitação. Incentivos regionais, parcerias entre instituições e acesso facilitado ao crédito estão entre as recomendações.

O estudo também introduz o conceito de “escala responsável”, que propõe a expansão das tecnologias digitais considerando seus impactos sociais, ambientais e econômicos. A ideia é evitar que a inovação amplie desigualdades ou gere efeitos negativos, alinhando a transformação digital às metas de desenvolvimento sustentável.

Nesse contexto, a agricultura 4.0 no Brasil deixa de ser apenas uma questão tecnológica e passa a envolver governança, inclusão e planejamento estratégico. Para os autores, a adoção bem-sucedida dessas ferramentas depende de um ecossistema integrado, capaz de conectar pesquisa, políticas públicas e realidade produtiva no campo brasileiro.