Sem entender os rios da Amazônia, o Brasil continuará no século XV

A proximidade de um novo período de estiagem recoloca a Amazônia diante de uma questão decisiva. Quanto o Brasil realmente conhece a região da qual depende para equilibrar seu clima, sustentar sua biodiversidade e conectar uma parcela expressiva de sua economia?

A seca histórica de 2023 expôs fragilidades conhecidas, mas frequentemente negligenciadas. Rios transformados em gargalos logísticos, comunidades isoladas, aumento dos custos de produção, dificuldades de abastecimento e prejuízos para empresas e famílias revelaram uma vulnerabilidade que vai muito além dos fenômenos naturais.

Ao longo da conversa, ele aborda o papel da logística, a importância da integração multimodal, a necessidade de laboratórios permanentes de monitoramento hidrológico, a incorporação dos riscos climáticos pela indústria e os caminhos para transformar a floresta em pé em prosperidade para quem vive na região.

Mais do que um debate sobre clima, a entrevista propõe uma reflexão sobre soberania, desenvolvimento e futuro. Afinal, compreender a Amazônia talvez seja o primeiro passo para que o Brasil consiga construir um projeto nacional à altura de sua maior riqueza territorial.

Augusto Cesar Barreto Rocha UFAM
Professor da UFAM

Augusto César Barreto Rocha – A seca histórica de 2023 deixou uma série de lições importantes. A primeira delas é que precisamos ampliar os investimentos em infraestrutura e fortalecer uma produção comprometida com a responsabilidade ambiental.

Ela também evidenciou o custo extremamente elevado que recai sobre a indústria da Zona Franca de Manaus, sobre o comércio e sobre a população amazonense quando não existem condições adequadas para o transporte de mercadorias entre a Amazônia e o restante do país.

Houve avanços importantes na compreensão desse fenômeno. Na última semana, por exemplo, a Suframa promoveu um encontro para discutir perspectivas climáticas para a região. Isso demonstra que a sociedade está buscando entender melhor a dinâmica desses eventos.

Ao mesmo tempo, foi possível perceber que o aprendizado ainda está incompleto. Um dos exemplos é a ausência de garantias orçamentárias para a continuidade, no próximo ano, de iniciativas científicas fundamentais, como o laboratório da Universidade do Estado do Amazonas dedicado às previsões climáticas.

Também sentimos falta de uma estrutura permanente de pesquisa voltada especificamente à hidrologia amazônica e ao estudo dos cursos d’água da região. Sem conhecer profundamente nossos rios, dificilmente conseguiremos transformá-los em hidrovias eficientes e sustentáveis.

RIOS DA AMAZONIA
Seca no Rio Negro, na Amazônia (Foto: Prefeitura de Manaus)

Augusto César Barreto Rocha – A principal mudança foi resultado de um esforço privado liderado pelo Porto Chibatão e pelo Super Terminais para viabilizar estruturas flutuantes de transbordo em Itacoatiara.

Também merece destaque a atuação coordenada entre agentes públicos e privados, que trabalharam juntos para tornar essas operações possíveis durante os períodos mais críticos.

Outro avanço importante foi o fortalecimento dos sistemas de monitoramento e previsão. O trabalho desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas e os boletins produzidos pelo Serviço Geológico do Brasil vêm oferecendo informações mais qualificadas para a tomada de decisões.

Já as indústrias foram obrigadas a ampliar seus estoques de segurança. Trata-se de uma medida necessária, mas que aumenta significativamente os custos operacionais e reduz a competitividade das empresas instaladas na região.

Augusto César Barreto Rocha – A experiência recente revelou o quanto a Amazônia ainda sofre com a ausência de infraestrutura complementar.

A recuperação da BR-319 representa uma parte importante desse processo de correção histórica. Trata-se de uma demanda antiga da região que começa a avançar.

Sistemas logísticos resilientes dependem da existência de alternativas. Dependem de modais complementares e de redundância operacional. Estamos muito distantes dessa realidade.

Hoje, a infraestrutura disponível na Amazônia encontra-se abaixo do mínimo necessário para garantir segurança logística diante de eventos extremos.

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Embarcação de carga no Rio Negro: transporte fluvial é essencial para economia e mobilidade na região amazônica Fonte: Agência Senado

Augusto César Barreto Rocha – Continuamos atuando essencialmente no campo das medidas emergenciais.

Ainda não enfrentamos o problema em sua dimensão real. Não construímos soluções permanentes compatíveis com a magnitude dos impactos econômicos, sociais e humanos provocados por eventos dessa natureza.

A seca passa. A vulnerabilidade permanece.

Augusto César Barreto Rocha – O investimento mais urgente é a criação de um laboratório integrado dedicado à compreensão da dinâmica do Rio Amazonas e de seus afluentes.

Precisamos entender melhor os ciclos de cheias e vazantes, desenvolver mapas hidrológicos mais precisos e construir modelos preditivos capazes de antecipar cenários.

Sem dominar a pesquisa básica relacionada ao funcionamento desses sistemas naturais, não haverá planejamento consistente nem desenvolvimento duradouro.

Enquanto não conhecermos profundamente nossos rios, continuaremos desperdiçando oportunidades extraordinárias de geração de riqueza para a Amazônia, para o Brasil e para a humanidade.

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Dragagem do rio madeira

Augusto César Barreto Rocha – A gestão de riscos já integra os sistemas modernos de qualidade adotados pelas empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus.

As normas internacionais exigem a identificação, documentação, análise e mitigação de riscos operacionais, incluindo aqueles relacionados a eventos climáticos extremos.

Por essa razão, as empresas vêm incorporando cada vez mais essas variáveis em seus planejamentos estratégicos, operacionais e de qualidade.

Augusto César Barreto Rocha – Sem dúvida.

Para empresas globais e organizações de grande porte, a agenda ambiental já possui valor econômico concreto. Para governos comprometidos com a proteção de suas populações e de seus sistemas produtivos, trata-se também de uma questão estratégica e de segurança nacional.

É verdade que essa percepção ainda não alcançou todos os segmentos empresariais e gestores públicos. Entretanto, esse processo tende a avançar à medida que aumentam o acesso ao conhecimento, a educação e a compreensão das oportunidades associadas à sustentabilidade.

Augusto César Barreto Rocha – A principal mensagem é simples. Precisamos aprender a conviver com a natureza e a compreendê-la melhor.

Precisamos de respeito pelos processos naturais e de investimentos contínuos em ciência, tecnologia e pesquisa básica.A natureza é dinâmica e muitas vezes imprevisível. Justamente por isso o conhecimento científico é indispensável.

Augusto César Barreto Rocha – Esse compromisso pertence a toda a sociedade. Precisamos escolher conscientemente a prosperidade amazônica.

A destruição da floresta não interessa aos amazônidas. O desenvolvimento surgirá quando ouvirmos as comunidades locais e construirmos alternativas capazes de ampliar a geração de riqueza e oportunidades.

O extrativismo predatório não produz riqueza duradoura. Ao contrário, destrói patrimônio natural, reduz oportunidades futuras e compromete a capacidade de desenvolvimento das próximas gerações.

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Fortalecer empreendedores que atuam em cadeias sustentáveis, como a do açaí (Reprodução/Jornada Amazônia)

Augusto César Barreto Rocha – O grande pacto nacional passa pela construção de infraestrutura sustentável para o interior profundo da Amazônia e por sua integração efetiva ao restante do país.

Precisamos ampliar conexões logísticas, recuperar estradas estratégicas, reduzir os custos do transporte aéreo e estruturar terminais portuários públicos de pequeno porte capazes de atender às vocações econômicas de cada município.

O projeto amazônico só fará sentido quando os benefícios dos investimentos realizados na região alcançarem efetivamente quem vive nela. A Amazônia não pode ser apenas uma pauta nacional. Ela precisa se tornar uma prioridade nacional. 

“Enquanto não conhecermos profundamente nossos rios, continuaremos desperdiçando oportunidades extraordinárias de geração de riqueza para a Amazônia, para o Brasil e para a humanidade.” ACBR

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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