Guardar o sol e o vento

Durante muito tempo, a expansão elétrica brasileira foi contada a partir de grandes obras. Barragens, linhas de transmissão, subestações, turbinas, torres metálicas atravessando serras, rios e propriedades rurais. O país aprendeu a associar segurança energética à capacidade de construir infraestrutura pesada, quase sempre distante dos centros urbanos, mas decisiva para manter acesas as luzes das cidades, das fábricas, dos hospitais e das casas.

Nos últimos anos, outra paisagem passou a dividir esse mapa. Telhados com painéis solares em bairros residenciais, fazendas fotovoltaicas no interior, parques eólicos no Nordeste, novas empresas de tecnologia, consumidores mais atentos ao preço da energia e investidores acompanhando com atenção a velocidade da transição. A matriz elétrica brasileira, historicamente renovável pela força das hidrelétricas, ganhou uma nova camada de complexidade com a entrada acelerada da energia solar e da energia dos ventos.

O anúncio do primeiro leilão de baterias do setor elétrico brasileiro, previsto para dezembro, precisa ser lido dentro desse movimento mais amplo. Ele não representa apenas a abertura de um novo mercado. Marca o reconhecimento institucional de que a transição energética brasileira chegou a uma etapa em que produzir energia limpa já não basta. O país precisa aprender a guardar, gerenciar e entregar essa energia com estabilidade.

A imagem é simples, embora a engenharia envolvida seja sofisticada. Em determinados momentos do dia, o sol e o vento geram mais eletricidade do que o sistema consegue absorver. Em outros, a demanda aumenta justamente quando essas fontes diminuem sua produção. Ao fim da tarde, quando a geração solar cai e o consumo tende a subir, o sistema precisa buscar equilíbrio em outras fontes. Nos períodos de baixa nos ventos, a mesma equação se impõe. É nesse intervalo entre a abundância e a necessidade que o armazenamento começa a mostrar sua importância estratégica.

SOL E O VENTO

O Brasil avançou com velocidade impressionante na geração renovável. A energia solar colocou o país entre os maiores mercados do mundo. A energia eólica consolidou o Brasil entre as principais potências globais da fonte. Em agosto de 2025, solar e eólica chegaram a responder, juntas, por mais de um terço da geração elétrica nacional. Poucos países em desenvolvimento chegaram tão longe em tão pouco tempo nesse rearranjo da matriz.

Mas a modernização do sistema elétrico costuma revelar seus gargalos justamente quando os bons resultados aparecem. O crescimento das renováveis variáveis trouxe ganhos ambientais, competitividade econômica e diversificação da matriz. Trouxe também um desafio operacional que já não pode ser tratado como detalhe técnico. Parte da energia limpa disponível vem sendo cortada por limitações do sistema. O operador, diante de risco de sobrecarga ou restrições de transmissão, precisa determinar a redução temporária da geração de parques solares e eólicos.

Essa energia existe. Foi produzida pelo sol e pelo vento. Poderia abastecer consumidores, reduzir custos sistêmicos, diminuir emissões e evitar o acionamento de fontes mais caras. Mas, sem estrutura adequada de armazenamento e gestão, parte dela se perde no caminho entre a geração e o uso.

O leilão de baterias entra nesse ponto sensível da transição energética brasileira. As baterias funcionam como uma espécie de reserva operacional da nova matriz. Armazenam energia quando há excedente e devolvem ao sistema quando a demanda exige. Ajudam a suavizar oscilações, reduzem desperdícios, reforçam a segurança elétrica e ampliam a capacidade de integração das fontes renováveis. Em linguagem mais direta, permitem que o país use melhor aquilo que já consegue produzir.

Essa mudança tem consequências econômicas relevantes. Cada megawatt-hora limpo desperdiçado representa investimento que não cumpriu plenamente sua função. Representa infraestrutura subutilizada, receita perdida, custo adicional para o sistema e pressão futura sobre a tarifa. Quando o armazenamento entra na equação, a energia renovável deixa de depender apenas do instante em que foi gerada. Passa a ter maior valor sistêmico, porque pode ser deslocada no tempo.

Essa capacidade de deslocar energia no tempo talvez seja uma das inovações mais importantes do setor elétrico contemporâneo. Ao longo de décadas, o sistema foi organizado para produzir e consumir eletricidade quase simultaneamente. A operação dependia de grandes fontes despacháveis, capazes de responder à demanda conforme a necessidade. As renováveis variáveis mudaram essa lógica. O sol e o vento não obedecem ao relógio do consumo. O armazenamento cria a ponte técnica entre a natureza da geração renovável e a rotina concreta da sociedade.

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No caso brasileiro, essa ponte carrega uma dimensão adicional. O país tem uma matriz elétrica privilegiada, mas convive com desigualdades profundas de acesso, qualidade e custo da energia. Em regiões remotas, especialmente na Amazônia, a energia ainda é, muitas vezes, cara, instável e dependente de combustível fóssil. A dieselização de comunidades isoladas impõe um custo econômico, ambiental e social que já não combina com o repertório tecnológico disponível.

Quem conhece a Amazônia sabe que a energia chega a muitos lugares como uma operação difícil, vulnerável e cara. Há comunidades em que a regularidade do fornecimento define a conservação de alimentos, o funcionamento de uma escola, a refrigeração de medicamentos, a operação de sistemas de comunicação e a possibilidade de pequenos negócios.

Nesses territórios, a transição energética não aparece como uma ideia abstrata de conferência internacional. Ela se mede no ruído do gerador, no preço do combustível, na interrupção do serviço, na fumaça, na logística fluvial e na expectativa de que a tecnologia possa reduzir uma precariedade antiga.

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É por isso que o debate sobre baterias precisa ir além da agenda dos grandes leilões. O leilão é indispensável para dar escala, previsibilidade regulatória e sinal econômico ao mercado. Mas o armazenamento também tem vocação territorial. Pode atender sistemas isolados, comunidades remotas, plantas industriais, operações críticas, hospitais, telecomunicações, cadeias produtivas e projetos híbridos com solar. Em cada caso, a tecnologia assume um papel específico. Em todos eles, a confiabilidade é o ponto comum.

Na UCB Power, essa percepção nasceu da experiência industrial e do contato direto com projetos em áreas desafiadoras. O armazenamento de energia exige tecnologia, mas exige também disciplina produtiva, rastreabilidade, qualidade de processo e capacidade de entrega. Baterias não podem ser tratadas como componentes genéricos em um sistema estratégico. Elas precisam operar com segurança, estabilidade e previsibilidade, muitas vezes em ambientes adversos, com variações de temperatura, logística complexa e necessidade de resposta rápida.

Ao longo da nossa trajetória, acumulamos mais de 90 mil baterias instaladas em sistemas remotos de energia, com mais de 620 MWh implementados em projetos voltados a áreas remotas. Nos últimos dois anos, essas operações contribuíram para evitar, em média, a emissão de 65 mil toneladas de CO₂ na atmosfera e impactaram diretamente mais de 400 mil pessoas. Esses números ajudam a dimensionar a escala, mas contam apenas uma parte da história. A outra parte está nos lugares onde a energia armazenada passou a garantir continuidade, reduzir dependências e dar maior estabilidade à vida cotidiana.

A transição energética costuma ser descrita pela potência instalada das fontes renováveis. É uma métrica importante, mas incompleta. Um sistema elétrico moderno será avaliado também por sua capacidade de entregar energia no momento certo, com custo competitivo e baixo impacto ambiental. A bateria entra como infraestrutura de confiança. Em alguns casos, ela evita desperdício. Em outros, reduz o acionamento de térmicas. Em muitos, permite que fontes renováveis cheguem onde antes chegavam apenas soluções caras e poluentes.

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Projeto da UCB Power usa baterias de sódio para o armazenamento de energia em comunidades remotas

O leilão anunciado pelo governo sinaliza que o Brasil começa a organizar esse novo capítulo. O mercado aguarda as regras definitivas, porque nelas estarão definidos os contornos reais da atratividade dos projetos, os critérios de habilitação, os prazos, os compromissos de desempenho e a forma como o armazenamento será remunerado. Há interesse de investidores, fabricantes, integradores, bancos e empresas de energia. Esse interesse, entretanto, dependerá da qualidade regulatória. O setor elétrico é movido por tecnologia, mas também por confiança institucional.

O Brasil já desperdiçou tempo nessa agenda. O debate sobre armazenamento vinha sendo adiado enquanto a geração renovável avançava em ritmo acelerado. Agora, a distância entre a capacidade de produzir energia limpa e a capacidade de usá-la com inteligência ficou evidente. O leilão de baterias chega, portanto, como resposta a um problema que amadureceu diante de todos. Não se trata de antecipar uma tendência distante. Trata-se de corrigir uma assimetria presente no sistema.

A experiência internacional mostra que o armazenamento se tornou peça central da segurança energética em países que ampliaram rapidamente a participação de renováveis. A China, os Estados Unidos e a Europa vêm incorporando sistemas de baterias em larga escala para lidar com os mesmos desafios de variabilidade, pico de demanda e estabilidade da rede. O Brasil tem uma vantagem relevante: pode fazer essa transição partindo de uma matriz já renovável e de um potencial solar e eólico abundante. Mas vantagem natural, sozinha, não organiza sistema elétrico. É preciso tecnologia, indústria, regulação e capacidade de execução.

Também será necessário olhar para a cadeia produtiva. Um país que pretende liderar a transição energética não pode se limitar à condição de consumidor de equipamentos. A expansão do armazenamento abre espaço para política industrial, qualificação tecnológica, conteúdo local, desenvolvimento de fornecedores, pesquisa aplicada, reciclagem, segurança operacional e novas competências em engenharia. A energia do futuro será disputada também na fábrica, no laboratório, na certificação, no controle de qualidade e na capacidade de prestar assistência técnica em escala.

Esse ponto é particularmente relevante para o Polo Industrial de Manaus e para a Amazônia. A região não deve ser tratada apenas como vitrine ambiental da transição energética brasileira. Pode ser território de produção, inovação e aplicação concreta de soluções. A floresta em pé precisa de uma economia capaz de sustentar empregos qualificados, tecnologia limpa, infraestrutura adequada e inclusão energética. Armazenamento, nesse contexto, não é acessório. É parte da base material de uma nova estratégia de desenvolvimento.

A UCB Power tem procurado atuar justamente nessa convergência entre indústria, tecnologia e responsabilidade territorial. A transição energética exige propósito, mas propósito sem competência técnica se dissolve rapidamente. Exige compromisso ambiental, mas compromisso sem entrega operacional perde credibilidade. Exige inovação, mas inovação sem confiabilidade não sustenta sistemas críticos. No setor elétrico, a confiança não se declara. Ela se constrói nos processos, nos testes, nas certificações, na resposta ao cliente, na durabilidade dos equipamentos e na capacidade de manter a operação funcionando quando a teoria encontra a realidade.

O leilão de baterias pode inaugurar uma nova etapa para o setor elétrico brasileiro. Sua importância será medida pelo volume contratado, pelo desenho regulatório e pela capacidade de atrair investimentos consistentes. Mas seu significado mais profundo talvez esteja em outra camada. O país começa a admitir que a transição energética não será concluída apenas com mais placas solares e mais aerogeradores. Será preciso guardar melhor a energia que já somos capazes de produzir. Será preciso evitar desperdícios, reduzir vulnerabilidades e transformar abundância natural em segurança energética.

No cotidiano do sistema elétrico, essa mudança aparecerá de modo menos vistoso do que uma grande usina. Aparecerá em baterias instaladas ao lado de subestações, em projetos híbridos, em comunidades remotas com menor dependência de diesel, em operações industriais mais estáveis, em menor acionamento de térmicas, em menos cortes de geração renovável e em maior previsibilidade para consumidores.

O Brasil aprendeu a gerar energia a partir da força dos rios, do sol e dos ventos. Agora começa a enfrentar a etapa seguinte, talvez mais discreta e igualmente decisiva: aprender a preservar essa energia até o momento em que ela seja necessária. Essa capacidade de guardar o excedente e devolvê-lo como segurança, estabilidade e desenvolvimento será uma das medidas concretas da maturidade da nossa transição energética.

Na prática, o país está diante de uma escolha industrial e civilizatória. Pode continuar perdendo parte da energia limpa que produz, acionando soluções mais caras quando o sistema aperta e tratando o armazenamento como promessa futura. Ou pode organizar, com rigor técnico e visão de longo prazo, uma nova infraestrutura de confiança para sustentar a economia de baixo carbono.

A primeira opção já conhecemos. A segunda começa a ser desenhada agora.

Ronaldo Gerdes
Ronaldo Gerdes
Ronaldo Gerdes é CEO da UCB Power e Conselheiro do Centro da Indústria do Estado do Amazonas

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