Rematamento: O que a ciência diz sobre o reflorestamento da Amazônia


Passada a COP30, um dado deveria orientar qualquer leitura séria sobre o futuro da Amazônia. A floresta se regenera. Mas não se recompõe. A diferença entre esses dois verbos é muito do que está em jogo.

Estudos recentes, incluindo pesquisas de longo prazo conduzidas por instituições como Yale, Unicamp e IPAM, consolidaram um diagnóstico que já não admite ambiguidades. Áreas da Amazônia atingidas por fogo e seca conseguem rebrotar relativamente rápido, mas retornam com outra estrutura ecológica.

Menos biodiversas. Menos densas em carbono. Mais vulneráveis a novos eventos extremos.

Metade das florestas que sobrevivem ao fogo passa a armazenar cerca de 40% menos carbono. Espécies mais sensíveis desaparecem e dão lugar a formações dominadas por vegetação mais resistente, porém ecologicamente simplificada. A regeneração, além disso, torna-se dependente da proximidade com áreas intactas, o que a fragmentação crescente dificulta.

A floresta volta. Mas volta menor do que precisa ser.

O equívoco estrutural: tratar regeneração como solução

A COP da Amazônia avançou ao consolidar o fundo de florestas tropicais como instrumento financeiro de escala. Reconheceu que a floresta em pé precisa ser remunerada. Mas deixou uma lacuna relevante.

Ao não diferenciar, de forma clara, a qualidade ecológica da floresta financiada, corre o risco de institucionalizar um erro técnico. Financiar hectares regenerados sem considerar sua integridade pode significar investir em uma Amazônia mais frágil.

A ciência já demonstrou que floresta secundária degradada não substitui floresta primária em termos de estoque de carbono, estabilidade climática, diversidade biológica e resiliência a extremos.

Ainda assim, grande parte dos mecanismos de financiamento climático segue operando por métricas agregadas, onde quantidade se sobrepõe à qualidade.

O ponto de inflexão: da regeneração ao rematamento

É nesse intervalo que a proposta defendida por Denis Minev ganha consistência. 

Sua leitura parte de um diagnóstico econômico, não apenas ambiental. Ele já opera iniciativas a Fazer o que amanhãvançadas .O modelo vigente ainda torna mais rentável degradar do que restaurar. E enquanto esse vetor não for invertido, a floresta continuará perdendo qualidade, mesmo quando aparentemente se recupera.

O conceito de “rematamento” surge como resposta a essa distorção. 

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Não se trata de plantar árvores, nem de esperar a regeneração natural. Trata-se de reconstruir a floresta como sistema produtivo e ecológico integrado.

Na prática, isso significa utilizar o consagrado modelo SAF da Embrapa para recuperar áreas degradadas com sistemas agroflorestais de alta complexidade. Isso reintroduz diversidade funcional como alimentação, oleaginosas, castanhas, cacau, açaí , e não somente cobertura vegetal. Ou seja, estruturar cadeias econômicas baseadas em espécies nativas e transformar carbono e biodiversidade em ativos mensuráveis e monetizáveis

O que está em pauta não é somente restaurar paisagens, mas recompor funções ecológicas que a regeneração natural já não garante.

A nova economia da floresta: entre ciência e mercado

Os estudos recentes colocam uma pressão inédita sobre o desenho da economia verde.

Se a floresta regenerada armazena menos carbono e apresenta menor resiliência, o mercado de carbono precisa refletir essa diferença. Caso contrário, haverá uma distorção estrutural de valor.

Créditos baseados em florestas frágeis tenderão a superestimar seu impacto climático. Isso abre uma fronteira clara de inovação econômica. 

A começar pela diferenciação de ativos florestais por qualidade ecológica, o que inclui a valorização de biodiversidade como componente financeiro e remuneração da conectividade entre áreas conservadas e atrai financiamento de restauração ativa e inteligente. 

A Amazônia depois da Conferência 

A Conferência das Partes em Belém tentou consolidar um consenso político: a floresta precisa valer mais em pé do que derrubada. A ciência, porém, já avançou além desse ponto.

A questão agora não é apenas manter a floresta. É evitar que ela se torne uma versão degradada de si mesma, mesmo quando permanece de pé.

Uma Amazônia que continua existindo, mas perde progressivamente sua capacidade de regular o clima, sustentar biodiversidade e gerar valor econômico de longo prazo.

Entre o retorno e a reconstrução

A regeneração natural continua sendo um ativo importante. Mas deixou de ser suficiente. A floresta que o mundo precisa não é apenas aquela que volta. É aquela que funciona.

O “rematamento”, ao articular restauração ecológica com viabilidade econômica, aponta nessa direção. Não como solução isolada, mas como parte de uma mudança mais ampla na forma de pensar a Amazônia.

A floresta já demonstrou que resiste. Agora cabe decidir se vamos nos contentar com o que ela consegue recuperar sozinha ou se vamos assumir a responsabilidade de reconstruir aquilo que já começou a se perder.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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