ANOTAÇÕES PARA O NOVO LUSTRO DA ECONOMIA BRASILEIRA: 2026 A 2030 – Parte X Brasil

Haddad parte de uma constatação desconfortável. O Brasil ingressa no próximo lustro carregando um paradoxo estrutural. É uma potência territorial, ambiental, energética e mineral, mas convive com crescimento medíocre, desigualdade persistente, baixa capacidade de coordenação estatal e sucessivos ciclos de curto-prazismo eleitoral.

Comentários de Alfredo Lopes

Paulo Roberto Haddad escreveu um texto raro no debate econômico brasileiro contemporâneo. “Brasil: A Grande Transformação” não é apenas um ensaio sobre política econômica, tampouco uma coletânea de propostas técnicas para o próximo ciclo eleitoral. Trata-se de uma reflexão de fôlego histórico sobre o esgotamento de um modelo de gestão pública baseado em improvisos incrementais, austeridade fragmentada e ausência de horizonte estratégico. O trabalho recoloca no centro da discussão nacional uma palavra que praticamente desapareceu do vocabulário político brasileiro: planejamento.

Haddad parte de uma constatação desconfortável. O Brasil ingressa no próximo lustro carregando um paradoxo estrutural. É uma potência territorial, ambiental, energética e mineral, mas convive com crescimento medíocre, desigualdade persistente, baixa capacidade de coordenação estatal e sucessivos ciclos de curto-prazismo eleitoral. O autor descreve com precisão esse modelo de “ajustes incrementais”, onde governos passam décadas apagando incêndios sem enfrentar as causas profundas do atraso nacional.

O mérito maior do trabalho talvez esteja justamente em recuperar a dimensão civilizatória da economia. Haddad recoloca a política econômica no terreno da sociedade, da cultura institucional e da visão de futuro. Seu diálogo com Karl Polanyi, Keynes, Ignácio Rangel, Celso Furtado, Hirschman e Schumpeter não é ornamental. Serve para lembrar que grandes ciclos de desenvolvimento nunca nasceram da mera estabilidade monetária, mas da combinação entre liderança política, projeto nacional, inovação tecnológica e capacidade de mobilização coletiva.

Ao revisitar o Plano de Metas de JK, os ciclos industriais do pós-guerra e a própria experiência internacional das “grandes transformações”, Haddad mostra que os períodos de expansão sustentada surgem quando uma nação rompe a lógica defensiva da administração cotidiana e assume uma agenda reestruturante. Seu argumento central é cristalino: o Brasil precisa voltar a pensar em ciclos históricos e não apenas em mandatos.

Há, ao longo do texto, um embate permanente entre duas concepções de país. De um lado, a austeridade fiscal concebida como fim em si mesma, subordinando toda a vida nacional ao equilíbrio contábil. De outro, a ideia de desenvolvimento sustentável entendido em sua dimensão integral: competitividade econômica, equidade social e sustentabilidade ambiental. Haddad não ignora a gravidade fiscal brasileira. Pelo contrário. Reconhece a necessidade do ajuste, mas questiona a crença quase religiosa de que o crescimento virá espontaneamente como consequência automática da estabilidade monetária.

Nesse ponto, o texto ganha densidade política. O autor identifica o avanço de um populismo administrativo que, em momentos de exaustão econômica, substitui reformas estruturais por decisões imediatistas, fisiológicas e eleitorais. A crítica não se limita a governos específicos. É dirigida a uma cultura política nacional que desaprendeu a pensar o longo prazo.

Mas a obra não se encerra na crítica. Haddad propõe caminhos concretos. Seu conceito de “Grande Transformação” passa pela reorganização do orçamento público, por um novo pacto de planejamento participativo, pela reconstrução da capacidade indutora do Estado e por um amplo programa de investimentos estruturantes. É particularmente relevante sua defesa de uma nova revolução industrial associada à bioeconomia, à produtividade ecológica e à transição energética.

Para a Amazônia, o texto oferece contribuições estratégicas de enorme atualidade. Haddad rejeita simultaneamente dois extremos que empobrecem o debate regional: o extrativismo predatório e o ambientalismo contemplativo. Sua defesa da bioeconomia amazônica aparece vinculada à industrialização do conhecimento, às cadeias de valor, à agregação tecnológica e à geração de renda local. A floresta em pé deixa de ser apenas um símbolo moral e passa a integrar uma arquitetura econômica concreta.

Há também uma dimensão geopolítica importante. O autor percebe que o mundo caminha para uma reorganização profunda das cadeias produtivas, marcada pelo protecionismo tecnológico, pela disputa mineral, pela transição energética e pela fragmentação da globalização liberal. Seu diagnóstico sobre o “tarifaço” de Trump e o retorno das estratégias nacionais de desenvolvimento industrial é particularmente agudo.

Em vários momentos, o ensaio alcança grande força literária e filosófica. As referências ao “Paradoxo de Alice”, ao “Paradoxo de Pollyanna” e à tradição crítica europeia ajudam a construir um texto que ultrapassa o tecnicismo convencional da economia acadêmica. Haddad escreve como alguém que conhece profundamente as engrenagens do Estado, mas que ainda preserva a inquietação intelectual diante do destino do país.

Seu trabalho é, no fundo, uma advertência. O Brasil corre o risco de entrar na segunda metade do século XXI ainda discutindo os mesmos impasses do final do século XX: desigualdade extrema, baixa produtividade, dependência primária, fragmentação territorial e destruição ambiental. A ausência de um projeto nacional não produz neutralidade. Produz decadência administrada.

“Brasil: A Grande Transformação” recoloca no debate público a ideia de que desenvolvimento não nasce da inércia dos mercados nem da liturgia burocrática dos ajustes fiscais. Desenvolvimento é construção política, institucional e civilizatória.

Num país cansado de improvisos, o texto de Paulo Roberto Haddad devolve ao debate econômico brasileiro algo quase esquecido: ambição histórica.

ECONOMIA BRASILEIRA

ANOTAÇÕES PARA O NOVO LUSTRO DA ECONOMIA BRASILEIRA: 2026 A 2030 – A GRANDE TRANSFORMAÇÃO – X. BRASIL

Paulo R. HaddadMembro da Academia Mineira de Letras/ Belo HorizonteMaio/2026

A partir do início de 2026, deverá ocorrer um amplo conjunto de debates durante o processo eleitoral, relativo ao futuro da economia nacional e das economias estaduais. Elaborei 10 textos que, a partir de minhas experiências de planejamento nos três níveis de governo, durante algumas décadas, poderão eventualmente ser úteis como subsídios atualizados para propostas de planos, políticas públicas e projetos dos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais.

Esses textos se referem ao resgate dos processos de planejamento de médio e de longo prazo, à avaliação das políticas públicas em andamento, à articulação das políticas macroeconômicas de curto prazo com as políticas de desenvolvimento sustentável (=crescimento econômico globalmente competitivo + equidade social + sustentabilidade ambiental) e às propostas da estrutura de novos planos de governo. O décimo texto irá conter um esboço de uma proposta para uma Grande Transformação do Brasil, no próximo lustro.

TEXTOS

I. Anotações Introdutórias: o Brasil que queremos

II. O que fazer com o planejamento nos estados?

III. O planejamento do desenvolvimento sustentável dos estados e municípios

IV. O futuro da Amazônia: savanização ou sustentabilidade?

V. A construção de uma nova política econômica: estabilização monetária com desenvolvimento sustentável

VI. Políticas sociais e regimes de desigualdades no Brasil 

VII. Atualização das políticas ambientais no Brasil 

VIII. Atualização das políticas de desenvolvimento regional no Brasil

IX. O futuro do capitalismo no Brasil

X. Brasil: a Grande Transformação

Karl Polanyi – “A Grande Transformação” (1943) 

Pastas Rosas de Rômulo Almeida – SEPLAN/Bahia 

  1. INTRODUÇÃO: O ESTILO DE GOVERNAR

1. O futuro presidente da República e os futuros 27 governadores irão encontrar o País e os estados com graves problemas socioeconômicos e socioambientais, que deverão ser confrontados em um contexto de crise fiscal e financeira. O que fazer durante os seus mandatos de 2026 a 2030? Haverá saída alternativas ou terão que fazer mais do mesmo, como seus antecessores?

Em primeiro lugar, é preciso destacar que, nesse confronto, irão esbarrar numa série de restrições e condicionalidades para conceber e implementar ações que possam equacionar os graves problemas. A nova gestão do Governo Federal terá que controlar os déficits fiscais potenciais e os limites de endividamento do setor público consolidado, e os governos estaduais, quase todos, estarão com suas finanças em situação crítica.

Em segundo lugar, o País e as unidades da Federação, em sua maioria, estão vivenciando um processo de crescimento lento, o que impacta negativamente a expansão dos níveis da renda, do PIB, dos empregos de qualidade e da base tributável. Ou seja, menos recursos e mais restrições para enfrentar os velhos problemas.

Em terceiro lugar, a economia mundial, na era Trump, num contexto de superprotecionismo e num ambiente de negócios em elevado grau de incertezas e de risco, levará os agentes econômicos a postergar projetos de investimentos diretamente produtivos que se realizam no médio e no longo prazo. Em um ambiente de superprotecionismo, ocorrerão também imensas dificuldades para viabilizar o potencial exportador do País e obter financiamentos externos.

A experiência brasileira, desde 2014, quando se caracterizou a crise de crescimento na economia do país e em muitos estados, mostra que inúmeros governantes iniciaram os seus mandatos com o compromisso de implementar um conjunto de reformas de base, visando a modernizar o sistema político- institucional para a retomada do processo de desenvolvimento sustentável do País e de suas regiões, estados e municípios.

Como o processo de transformação é lento e politicamente desgastante, os governantes se impacientam, desaceleram o esforço reformista e assumem o estilo populista de governar, passando a ser guiados por uma perspectiva de ações de curto prazo. O sistema eleitoral, que permite a reeleição nos três níveis de governo, é um fator a mais para impulsionar a busca de resultados imediatistas durante os seus mandatos: decisões oportunísticas e fisiológicas são tomadas na gestão do primeiro mandato, para garantir a reeleição do segundo mandato. 

2. O estilo de condução das políticas públicas para resolver os nossos problemas socioeconômicos e socioambientais tem sido, desde 2014, o que se denomina de ajustes incrementais. Segundo esse estilo de governar, mesmo sem uma visão do futuro, sempre que os formuladores das políticas públicas encontram um hiato ou um descompasso entre uma realidade observada e uma situação ideal, adotam, em seguida, medidas de comando e controle ou de mecanismos de mercado para preencher esse hiato. Ao se fechar um hiato, contudo, sempre se abrem outros; ao se resolver um problema, criam-se outros, e então esses passam, num momento seguinte, a serem percebidos politicamente como problemas e são realizadas novas tentativas com o objetivo de fechar os hiatos entre as situações ideais e a realidade. 

Segundo Kenneth Boulding, esse estilo pragmático de governar, com foco no curto prazo e em ações casuísticas, pode ramificar-se quase indefinidamente, e há muitas situações em que se torna razoavelmente bem-sucedido como padrão de resolver problemas e mobilizar os potenciais de desenvolvimento de um país ou de uma região. E os gestores públicos se sentem gratificados com sua habilidade e pragmatismo quando vão vencendo as batalhas do dia a dia, em uma sequência interminável de novos problemas. Como diriam os franceses “à chaque jour suffit sa peine”. 

A situação muda totalmente de figura quando a exaustão de um ciclo de prosperidade ocorre e a economia perde sua dinâmica de crescimento. O crescimento econômico não é um subproduto cronológico de um ajuste qualquer. Num contexto em que prevalecem, simultaneamente, uma crise social e uma crise ambiental, surgem problemas de grande dimensão, complexidade e transversalidade, que podem não ser percebidos e muito menos resolvidos, isoladamente, por nenhum protagonista ou instituição, que se encontram, muitas vezes, autocentrados nos seus interesses específicos de curto prazo ou imediatistas.

Emerge, pois, a necessidade complementar de um novo e indispensável estilo de governar, baseado em um enfoque de perspectiva ou de visão de futuro, através do processo de planejamento de longo prazo, no qual as ações programáticas sejam de natureza reestruturantes e não incrementais; vocacionadas para grandes mudanças e transformações econômicas, político–institucionais; inovadoras no sentido de buscar alternativas para a solução dos problemas estruturais. Esse novo estilo aparece nas experiências históricas de desenvolvimento de muitos países, com a denominação de Grande Transformação.

3. O estilo de governar segundo ações incrementais de curto prazo tem características operacionais, segundo a análise histórica de Barry Eichengreen, da Universidade de Stanford, na Califórnia*, levando ao populismo político-administrativo. O populismo está florescendo em um contexto de nossa história de fraco desempenho da economia (no século 21, estamos na terceira década perdida de desenvolvimento), de desigualdades sociais e regionais profundas (estamos entre os cinco países do mundo ocidental com maior concentração de renda e de riqueza, e sem políticas de desenvolvimento para as áreas economicamente deprimidas), de mobilidade social declinante (com milhões de brasileiros desempregados, subempregados ou desalentados) e precário campo de oportunidades para as novas gerações (a taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos ficou em 29,8% ao fim de 2020, antes da crise da pandemia da Covid-19).

As políticas econômicas de líderes populistas autoritários são danosas e destrutivas, e os seus impactos sobre as instituições são corrosivos. A melhor ilustração, no atual contexto brasileiro, foi a desconstrução das instituições que formulam e implementam as políticas públicas ambientais, resultando em perdas irreparáveis de nossos ativos e serviços ambientais em todos os Biomas, particularmente na Amazônia, tal como ocorreu na gestão passada (2019-2022) do Governo Federal. 

Outra característica do estilo populista de governar: o populismo arregimenta a população contra a informação e o conhecimento científicos. Como ocorreu com o comportamento das autoridades do Governo Federal face às estratégias de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus: desautorização das recomendações dos cientistas brasileiros de padrão técnico internacional e a crença tipicamente medieval em propriedades imaginárias dos benefícios no tratamento precoce. 

Como dizia o pensador austríaco Carl Menger, um dos mentores do liberalismo da Escola de Economia de Chicago, ainda em 1870: “Quanto mais elevada for a cultura de um povo, e quanto mais profundamente os homens investigarem a sua própria natureza, tanto menor será o número de bens imaginários”*

Eichengreen ainda destaca duas características do estilo populista de governar que podem ser observadas nas práticas cotidianas. O populismo é divisivo e provoca, recorrentemente, desacordos e tensões entre interesses conflitantes na sociedade. E as atitudes que esses líderes estimulam têm a capacidade de promover o que há de pior entre os seus seguidores.

O Brasil tem, atualmente, grandes problemas estruturais que necessitam ser equacionados por meio de um processo de planejamento de longo prazo, destacando-se: 

a) a necessidade de estruturar e implementar o terceiro ciclo de expansão do pós-II Grande Guerra visando a fazer crescer, de forma acelerada e sustentável, os níveis de renda, de emprego e da base tributável; 

b) erradicar a miséria social e reduzir os níveis de concentração da renda e da riqueza nacional; 

c) atenuar os desequilíbrios regionais de desenvolvimento; 

d) conservar, preservar e equilibrar os nossos ecossistemas; 

e) operacionalmente, adequar as estruturas dos orçamentos anuais e plurianuais aos objetivos de desenvolvimento sustentável (= competitividade sistêmica + equidade social + sustentabilidade ambiental) e da reforma do Estado.

Esses problemas socioeconômicos e socioambientais não podem ser equacionados através de uma sequência de ajustes de curto prazo, mas através de processos de planejamento de longo prazo visando a promover uma Grande Transformação. (ver Box 1)*

BOX 1

A GRANDE TRANSFORMAÇÃO

Quando se vive uma crise econômica muito profunda, capaz de nos atormentar, há uma tendência de acreditarmos, em algum momento, que se chegou ao fundo do poço e que tudo tende a melhorar a partir daí. Muitas vezes um espasmo mensal de crescimento no ciclo econômico passa a ser confundido com o início de uma nova fase de prosperidade da economia.

A expansão do emprego localizada em um setor específico faz surgir esperança de que as taxas de desemprego irão diminuir de forma generalizada, ou a ilusão de que o reequilíbrio de força entre as potências econômicas mundiais será alterado por causa de novo evento político e que o processo de globalização econômico-financeira vai se redinamizar e abrir novas oportunidades de comércio.

A dificuldade maior é que, em economia, muitas vezes, existe um fenômeno denominado de causação circular de efeitos acumulativos, de tal forma que uma ação gera reações que se acumulam e se aprofundam na mesma direção em um círculo vicioso e não na direção oposta de um reequilíbrio virtuoso. Nesse contexto, é indispensável que se concebam e se implementem grandes mudanças e transformações para sair do círculo vicioso.

Por exemplo, um país mais pobre e de baixa renda não dispõe da poupança necessária para financiar os investimentos que poderiam ampliar a sua capacidade produtiva com mais fábricas, mais áreas agricultáveis, mais infraestrutura econômica, social e mais empregos. Menor capacidade produtiva significa menor capacidade de gerar uma renda nacional maior, o que está associado com menor nível de poupança da sociedade. Fecha-se, assim, o círculo vicioso da pobreza, ou seja, pobreza gera mais pobreza.

O mesmo pode ser dito da recessão econômica: recessão econômica gera mais recessão econômica e não um eventual fundo do poço a partir do qual pode ocorrer um processo de retomada econômica. O fundo do poço da economia é uma imagem ilusória da “síndrome do W e do V”, segundo a qual após a queda do nível de renda e de emprego, em algum momento deverá emergir, pelas forças do mercado, a retomada do crescimento (V), ainda que possa vir a ocorrer um duplo mergulho seguido de uma dupla retomada (W). 

Há três mecanismos através dos quais o processo recessivo de hoje pode se tornar o embrião da recessão econômica de amanhã. Em primeiro lugar, se a recessão se prolonga, cria-se uma capacidade ociosa nas fábricas e na infraestrutura da economia, o que não incentiva novos investimentos que poderiam propulsionar os níveis de emprego e de renda. Não se investe porque fica a impressão de que se investiu em excesso no passado; não há pois, efeito de aceleração. É o caso de uma profecia autoconfirmada.

Em segundo lugar, desempregados não têm renda para financiar os seus gastos de consumo, por isso reduzem a demanda de encomendas às empresas que são induzidas a desempregar mais. O desempregado de hoje poderá ser a causa do desempregado de amanhã, enredados pela causação circular acumulativa da recessão.

Em terceiro lugar, o governo, que poderia realizar investimentos adicionais em infraestrutura e ativar os efeitos multiplicadores de emprego e renda, não tem como financiá-los diante da redução persistente de receitas tributárias num regime recessivo.

Como interromper essa causação circular que acumula mazelas sociais e mal-estar econômico? Como iniciar um processo de causação circular onde o empregado de hoje poderá favorecer o empregado de amanhã, onde o gasto público se multiplique em receita pública e o consumo reative os negócios? É preciso não se limitar às práticas usuais de ajustes de curto prazo e avançar na estruturação de um modelo da Grande Transformação.

É necessário construir as bases de uma nova política econômica de ajuste com crescimento, a qual, de início, precisa acelerar a queda nas taxas de juros a fim de oxigenar as expectativas dos agentes econômicos. Não é possível conviver com taxas de juros nos limites da agiotagem financeira, que sufocam empresas e governos endividados e ampliam os ganhos especulativos dos detentores da riqueza financeira nacional. 

Keynes dizia que o capitalismo somente poderia encontrar legitimidade se as pessoas de rendas mais modestas continuassem a acreditar que as pessoas mais ricas mereciam sua sorte graças às suas contribuições construtivas para a sociedade, e não graças à especulação e ao roubo.

Há inúmeras experiências históricas de Grande Transformação (mudanças nos regimes econômicos, nos modelos de desenvolvimento, nas estruturas de inovações tecnológicas, etc.) em diversos países e regiões, em diferentes períodos. Destacaremos algumas dessas experiências que foram realizadas nos séculos 20 e 21, quase sempre como alternativa político-institucional à alguma crise prevalecente. É preciso compreender quando e por que ocorreram, a partir de lições do passado.

A inserção econômica e geopolítica do Brasil no contexto internacional depende, entre outros fatores, do modelo de crescimento que tem prevalecido em cada período de nossa história. Um modelo de crescimentosintetiza politicamente o conjunto de interesses conflitantes entre os diferentes grupos e classes, regiões e setores produtivos da sociedade e permite delimitar também os papéis que os recursos naturais desempenham em cada contexto macroeconômico global.

É possível mostrar que o atual modelo de crescimento do Brasil manifesta-se por meio do avanço de um processo mais intenso de globalização econômica e financeira, desde o início da década dos anos 1990, e que é preciso não confundir suas características estruturais com o modelo primário exportador de crescimento, que prevaleceu no período colonial e nos primeiros anos da República, cuja base econômica tradicional era predominantemente do primeiro beneficiamento de recursos naturais para exportação.

Na Figura 1 apresentada por Ignacio Rangel, um dos mais brilhantes economistas brasileiros do século passado, nascido no Maranhão (1914-1994), a economia brasileira é representada didaticamente por três estruturas produtivas: a economia de subsistência, a economia pré-capitalista (com mão de obra escrava) e a economia capitalista. De acordo com a Figura 1, quando se desloca verticalmente para cima fatores de produção (terra, capital técnico, trabalho) que têm usos alternativos, de uma estrutura para outra, ampliam-se a divisão social do trabalho e os ganhos de produtividade total dos fatores na economia brasileira.

Na economia de subsistência, a produção destina-se ao autoconsumo, com baixo grau de divisão social do trabalho (exemplo: uma família camponesa cria o boi, tira o couro, trata o couro, e faz a sandália); as economias pré-capitalistas (nos ciclos do ouro e da cana de açúcar dos séculos 17 a 19, por exemplo) e capitalistas inserem-se na divisão internacional do trabalho, com elevados graus de produtividade, por meio de vantagens comparativas ou de vantagens competitivas. 

A Grande Transformação ocorreu contudo, a partir do Plano de Metas do Presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961) com 31 metas estratégicas (30 principais + a Meta-Síntese: Brasília) de tal forma que o processo de substituição de importações colocou o Brasil, no início dos anos 1960, como a nação mais industrializada do Terceiro Mundo*.

Paulo Roberto Haddad
Paulo Roberto Haddad
Paulo Roberto Haddad é professor emérito da UFMG. Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco.

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