Não podemos, é importante sublinhar, seguir esperando que a União nos enxergue como alternativa sustentável de prosperidade regional e nacional. Nem esperar nem contar com a possibilidade de apoio financeiro para os projetos e programas, tanto os que estão desenhados como os que estão rodando. Não há melhor caminho do que o protagonismo de quem produz riqueza e propõe paradigmas de sustentabilidade e de prosperidade para o futuro da Amazônia.
Wilson Périco
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É inadiável mapear, conhecer, envolver e integrar todas as forças organizadas da Amazônia para ensaiar e levar adiante um movimento de convergência de propósitos, estratégias e de instrumentos que possam atender aos segmentos e interesses específicos regionais sem perder de vista o fato de sermos todos parte da Amazônia. O mundo nos olha com espanto, interrogações e sobretudo cobiça. E o Brasil, com uma indiferença próxima ao desprezo, que ignora que aqui estão grande parte de respostas às demandas nacionais. E nós, que aqui vivemos e labutamos, vamos ficar aguardando um Messias que só existe na crença religiosa de cada um? Esperar não é saber. E nós, integrantes do setor produtivo, sabemos exatamente o que precisamos fazer. Temos, neste cenário, duas pistas que se cruzam, se somam e podem se completar, pois já deixaram a inércia da passividade estéril.
Estamos falando de dois documentos preparados para uma discussão abrangente e pensados como roteiro de ação. Um deles, Amazônia do Futuro, lançado no âmbito dos Diálogos Amazônicos, da Fundação Getúlio Vargas em julho último. O outro, é o programa Amazônia+21, lançado em Manaus, no mês de julho, um programa de desenvolvimento regional proposto pelas entidades do setor privado da região, sob a responsabilidade das entidades da indústria, tendo à frente o parceiro líder Marcelo Thomé da Silva de Almeida, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia, com apoio da CNI.

Porto Velho, Rondônia 
Mercado do Ver-o-Peso Belém
Amazônia do Futuro resulta da inquietação dos que produzem no Polo Industrial de Manaus e vivem sob a ameaça da caneta e as mazelas da insegurança jurídica que descrevem a dinâmica do Programa Zona Franca de Manaus. São anotações, relatos de especialistas do país – com destaque aos locais, e em torno de nossos assuntos – e propostas construídas desde que começamos a buscar a diversificação das matrizes econômicas que nos permitissem progressiva economia da contrapartida fiscal. Depender de apenas uma cesta de ovos é preparar a fome.
Não podemos, é importante sublinhar, seguir esperando que a União nos enxergue como alternativa sustentável de prosperidade regional e nacional. Nem esperar nem contar com a possibilidade de apoio financeiro para os projetos e programas, tanto os que estão desenhados como os que estão rodando. Não há melhor caminho do que o protagonismo de quem produz riqueza e propõe paradigmas de sustentabilidade e de prosperidade para o futuro da Amazônia.
Há uma sintonia e similaridade de propósitos na formulação das linhas de trabalho da Amazônia do Futuro e da Amazônia +21, por sua vez similar ao Norte Competitivo que gerou o Programa ArcoNorte, há 10 anos, responsável pela infraestrutura competitiva instalada no eixo Amazônia e Centro-Oeste, de onde partiu a necessidade competitiva de exportar pelo Norte nossas commodities, liberando os portos do Sudeste e Sul do Brasil. O poder público pegou carona da iniciativa e, desse protagonismo civil, o Pará virou uma revolução de oportunidades de negócios.
Uma das premissas do documento Amazônia do Futuro é o imperativo da correção de um grave desacato constitucional que atingiu a economia da ZFM e na distribuição da riqueza aqui produzida. A Carta Magna, ao autorizar compensação fiscal para regiões remotas como a Amazônia Ocidental, determina que os ativos aqui construídos sejam aqui aplicados. Portanto, é ilegal que o Amazonas, com um perfil de IDH semelhante aos países mais pobres da África, seja escalado a ser um dos cinco estados da federação que mais recolhe recursos para a União. A média dos últimos 10 anos é um confisco da ordem de 75%. Um absurdo.

A instalação do Instituto Amazônia+21, que deve se somar a ações/proposições e acertos na economia da Amazônia como um todo, torna factível a iniciativa Amazônia do Futuro de criar um Conselho Gestor dos recursos aqui gerados. Quando dizemos que “aqui sejam aplicados”, não estamos falando de Manaus, Amazonas. Nosso propósito é e deve ser cada vez a Amazônia, pois aqui estão os gargalos de infraestrutura, urgência de autonomia financeira, e forte determinação de reduzir as inaceitáveis diferenças entre o Norte e o Sul deste Brasil desigual. Isso supõe mobilização do setor produtivo e articulação parlamentar e dos poderes executivos locais. E não há outro caminho de salvação da Amazônia e de proteção de nossa floresta, que não seja atribuir-lhe uma função econômica. Esta tarefa, a propósito, está necessariamente atrelada à nossa união. Só nós sabemos para onde o vento sopra e para quem o japim assobia. Por uma razão muito simples: Somos todos Amazônia.

