Super El Niño pode intensificar secas, calor extremo e pressão sobre rios e comunidades na Amazônia, ampliando o desafio da adaptação climática no Brasil.
Há um silêncio estranho antes das grandes crises amazônicas. Foi assim antes de Manaus sufocar sob a própria fumaça, antes dos rios virarem corredores de lama isolados, antes de as crianças indígenas não terem água potável.
Agora, o silêncio volta a se formar. Enquanto Brasília discute reforma fiscal, guerra tarifária e calendário eleitoral, o Oceano Pacífico aquece rapidamente em níveis que os principais centros climáticos do planeta já observam com preocupação crescente.
NOAA, ECMWF, INPE, INMET e CENSIPAM convergem no mesmo diagnóstico de que um novo El Niño está em formação. E existe possibilidade concreta de que ele alcance intensidade extrema entre o fim de 2026 e o início de 2027.
Na linguagem fria dos relatórios internacionais, o fenômeno corresponde a anomalias oceânicas acima de 2°C. Na Amazônia, porém, esse dado ganha forma em rios secos, municípios isolados, pesca em colapso, hospitais tomados pela fumaça e uma economia regional que para antes de qualquer decreto de emergência.
Para o Amazonas, esse cenário não é uma hipótese distante. É uma memória recente.
Em 2023 e 2024, a seca histórica revelou algo que o país ainda resiste em compreender: a Amazônia entrou em uma nova era climática. Todos os 62 municípios do estado decretaram emergência. Mais de 600 mil pessoas ficaram isoladas.
O Rio Negro atingiu, em Manaus, a menor marca em 120 anos de medição. No Lago Tefé, a temperatura da água passou de 39°C e matou mais de 150 botos. A exceção começa a se repetir em intervalos cada vez menores e os eventos extremos, antes vistos como episódios isolados, passam lentamente a compor a nova normalidade da floresta.
A diferença, agora, é o alerta da ciência de que o próximo ciclo pode ser ainda mais severo e a floresta não terá tempo de respirar entre um evento extremo e outro.
Mas talvez o dado mais inquietante seja outro. Um Super El Niño em 2026-2027 não encontrará a mesma Amazônia de décadas atrás. Encontrará uma floresta mais quente, mais seca e mais inflamável, já pressionada pelo desmatamento, pela degradação e por extremos climáticos cada vez mais frequentes, com rios sobrecarregados e comunidades ainda marcadas pela última crise.
Encontrará também, como em outros momentos, um sistema público que reage mais à tragédia instalada do que investe em prevenção. A pergunta, portanto, já não é se a próxima grande seca chegará, mas o que o Amazonas e o Brasil farão antes dela. Se continuarão gastando bilhões em socorro tardio ou se, finalmente, financiarão a adaptação climática antes que a crise se instale.
O tempo da preparação é agora. Só assim será possível evitar que o Super El Niño se transforme em uma nova tragédia anunciada.

