PNL 2050: A bússola quebrada de um país sem Norte – Entrevista com Augusto Rocha – Parte I

Por duas décadas, o professor da UFAM Augusto Rocha acompanhou, quase em silêncio, os bastidores da construção do Plano Nacional de Logística (PNL 2050). Agora, com o documento finalizado e à mesa, ele rompe o silêncio. Em entrevista exclusiva, Augusto revela os mecanismos técnicos e ideológicos que perpetuam a exclusão da Amazônia — e do Brasil profundo — das prioridades nacionais. Ao nomear esse fenômeno de “tecnocracia da desigualdade”, ele oferece uma crítica contundente e um chamado à revisão estrutural: a lógica de planejamento reativo precisa ser substituída por uma lógica propositiva, que transforme infraestrutura em justiça territorial. A entrevista é dividida em duas partes e deveria ser leitura obrigatória para todos que ousam falar em desenvolvimento nacional.”

Leia a entrevista de Augusto Rocha para Alfredo Lopes no portal Brasil Amazônia Agora em:

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Brasil Amazônia Agora – O que é, afinal, o PNL 2050? E por que você o chama de “tributo à desigualdade”?

Augusto Rocha – Este documento define e determina as políticas do Estado brasileiro para logística e infraestrutura. Historicamente, ele investe nos estados que já possuem infraestrutura — ou seja, prescreve e perpetua a desigualdade.

BAA – Após duas décadas acompanhando o plano, o que mais chocou você na versão atual?

Augusto Rocha – O fato de que o plano aponte que não há perspectiva de crescimento no Norte do país e, por isso, não indique obras prioritárias na região.

BAA – Qual o risco de seguirmos investindo com base em modelos Origem-Destino?

Augusto Rocha – Seguiremos aprofundando a desigualdade nacional entre Sudeste e Norte. A infraestrutura é anterior às atividades econômicas. O problema é não fazer nada por aqui, pois não há “origens” no interior do Amazonas ou de Roraima, por exemplo. Isso aumenta as capacidades das regiões ricas, onde há muito trânsito de mercadorias. Trata-se de uma armadilha metodológica — parece lógica, mas apenas um olhar mais treinado no “Método de Quatro Etapas” percebe a sutileza.

BAA – Como a atual metodologia do plano sabota a Amazônia e outras regiões menos desenvolvidas?

Augusto Rocha – Porque, ao final, prescreve não fazer nada. A equipe condutora do plano é centrada no Sudeste, com domínio especial de Minas Gerais, onde se encontram duas instituições renomadas que lideram a elaboração. Não há representantes do Norte.

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Construção naval na Amazônia

BAA – Você menciona a “tecnocracia da desigualdade”. O que esse termo revela sobre a elite técnica do planejamento nacional?

Augusto Rocha – Cunhei esse termo após refletir profundamente sobre o material compartilhado comigo na véspera do evento. Há um progresso técnico real na discussão, mas existe, intrinsecamente, um ar de desigualdade em cada um dos pensamentos. Os técnicos são gentis e bem-intencionados, mas não se dão conta disso — a desigualdade está tão arraigada que se torna naturalizada. O discurso é técnico, mas as consequências são nefastas. Agradeço muito à equipe atual e à FIEAM, especialmente ao presidente Antonio Silva, por terem me incluído no debate.

BAA – Como os corredores logísticos nacionais mantêm ou aprofundam a hierarquia territorial?

Augusto Rocha – O plano deveria considerar a criação desses corredores. A base precisa ser as produções que já existem. Os corredores que sugeri seriam uma alternativa metodológica viável — sem fugir do plano elaborado — para começar a transformá-lo de um plano para ricos em um plano para o Brasil, voltado à redução das desigualdades regionais.

BAA – Que alternativas metodológicas poderiam transformar o plano em instrumento de justiça territorial?

Augusto Rocha – É preciso substituir a lógica reativa por uma lógica propositiva. Em vez de projetar infraestrutura com base nos fluxos existentes, é essencial usar modelos prospectivos que considerem os potenciais latentes dos territórios negligenciados, como a Amazônia. A metodologia deve incorporar critérios de equidade regional, densidade demográfica, potencial socioambiental e demandas históricas de integração.

Uma alternativa viável seria adotar matrizes multicritério, que equilibrem indicadores econômicos com sociais, ecológicos e geopolíticos. O plano também poderia incluir consultas territoriais participativas, envolvendo universidades locais, organizações regionais e lideranças comunitárias para desenhar soluções ajustadas às realidades locais.


Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é consultor ambiental, filósofo, escritor e editor-geral do portal BrasilAmazôniaAgora

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