“A expansão das fabricantes no Polo Industrial mostra como segurança jurídica, reforma tributária e transformação do transporte urbano começam a produzir uma nova rodada de investimentos na Zona Franca”
Entre os parâmetros que sinalizam mudanças, o melhor indicador de confiança de uma economia aparece menos nos discursos do que nos canteiros de obras, nas contratações, na compra de terrenos e nas decisões empresariais que comprometem capital por muitos anos. É aproximadamente isso que está ocorrendo no setor de duas rodas da Zona Franca de Manaus.
Honda, CFMOTO, MXF, Avelloz e Moto Morini estão ampliando operações, projetando unidades industriais ou examinando novos investimentos no Amazonas. A Honda anunciou R$ 1,6 bilhão até 2029, incluindo modernização da unidade de Manaus e aumento da capacidade para 1,6 milhão de motocicletas anuais. A CFMOTO já adquiriu terreno para sua futura fábrica própria e está ampliando produção e pessoal. A MXF prevê aproximadamente R$ 10 milhões em investimentos e capacidade inicial de 30 mil unidades por ano. A Moto Morini, por sua vez, trabalha com um programa de R$ 250 milhões no Brasil e admite instalar uma estrutura industrial própria em Manaus.
São decisões distintas, tomadas por empresas com estratégias igualmente distintas. Quando observadas em conjunto, porém, sugerem algo maior. Manaus volta a receber uma rodada de apostas industriais justamente quando o Brasil atravessa a maior reorganização de seu sistema de tributação do consumo em décadas.
Durante a longa discussão da reforma tributária, uma das perguntas mais importantes para o Amazonas era relativamente simples: o que aconteceria com a competitividade da Zona Franca quando ICMS, PIS, Cofins e outros componentes do antigo sistema fossem progressivamente substituídos pelo IBS e pela CBS?
A resposta construída pela Emenda Constitucional 132 e posteriormente pela Lei Complementar 214/2025 foi preservar instrumentos capazes de manter o diferencial competitivo da Zona Franca. A regulamentação estabeleceu mecanismos como créditos presumidos, reduções de alíquota, suspensão convertida em isenção e tratamento específico para produtos submetidos ao Processo Produtivo Básico. A própria Receita Federal registra que a manutenção residual do IPI passa a ter justamente a função de preservar a competitividade da Zona Franca de Manaus.
Essa engenharia tributária ainda atravessará uma longa transição e exigirá acompanhamento permanente. Seria precipitado declarar encerradas todas as controvérsias. Mas há uma diferença econômica importante entre um incentivo colocado permanentemente sob suspeita e um regime regional incorporado ao desenho constitucional e regulamentar do novo sistema.
Investimento industrial depende dessa diferença.
Uma fábrica não é instalada para responder ao mercado do mês seguinte. Envolve terreno, equipamentos, fornecedores, treinamento, tecnologia, logística e decisões de capital que precisam ser amortizadas durante muitos anos. Quando várias empresas simultaneamente ampliam sua presença no Polo Industrial de Manaus, elas estão fazendo, cada uma à sua maneira, uma leitura sobre o futuro.
Os números ajudam a entender por quê.
Em julho de 2026, segundo a ABRACICLO, as fabricantes instaladas no Polo Industrial de Manaus produziram 190.794 motocicletas, o maior volume já registrado para um mês de julho e 36% acima do resultado de julho de 2025. Entre janeiro e julho saíram das linhas de Manaus 1.254.191 unidades, crescimento de 9,9% em relação ao mesmo período do ano anterior e melhor desempenho para os sete primeiros meses desde 2008. No varejo brasileiro, foram licenciadas 1.373.580 motocicletas no mesmo período, aumento de 12,3%.
A ABRACICLO estima que a produção poderá alcançar 2,07 milhões de unidades em 2026. Se a projeção se confirmar, será outro sinal de que o setor entrou em um patamar diferente de escala.
Parte dessa expansão deriva de uma transformação social que costuma receber menos atenção do debate econômico sobre a Zona Franca.
A motocicleta tornou-se uma peça da mobilidade brasileira contemporânea.
Ela está no deslocamento diário do trabalhador das periferias metropolitanas, no transporte das pequenas cidades, no mototáxi, nas entregas, no comércio eletrônico e na extensa economia de serviços organizada pelas plataformas digitais. Em regiões com transporte coletivo insuficiente e distâncias urbanas crescentes, duas rodas frequentemente representam uma alternativa de custo e tempo para milhões de brasileiros.
Esse movimento já começa a produzir política industrial.
Em 2026, o governo federal lançou uma linha do programa Move Brasil destinada a entregadores e profissionais de transporte por aplicativo, permitindo financiamento para motocicletas, ciclomotores, motonetas e também bicicletas elétricas com montagem ou produção nacional. Entre seus objetivos declarados está estimular soluções de mobilidade mais sustentáveis e reduzir emissões e poluição sonora nos centros urbanos.
Surge aqui uma oportunidade que Manaus precisa compreender em toda a sua dimensão.
O Polo de Duas Rodas foi estruturado inicialmente para fabricar motocicletas. Agora poderá participar de uma transformação muito mais ampla envolvendo eletrificação, baterias, eletrônica embarcada, novos materiais, conectividade, eficiência energética, serviços digitais e diferentes configurações de veículos urbanos.
Essa transição encontrará no Amazonas uma cadeia produtiva construída durante décadas. Há montadoras, sistemistas, fornecedores de componentes, empresas de plástico, metalurgia e usinagem, logística especializada e milhares de trabalhadores que acumularam conhecimento industrial. É esse ecossistema que permite, por exemplo, que novas marcas iniciem sua fabricação utilizando estruturas já existentes antes de decidir pela instalação de fábricas próprias. Está gravando muito né se odiando
A história industrial ensina que aglomerações produtivas funcionam assim. Uma empresa atrai fornecedores; fornecedores diminuem custos e ampliam competências; novas competências atraem outras empresas. Aos poucos, o investimento inicial gera uma espécie de infraestrutura invisível composta por trabalhadores qualificados, engenharia, conhecimento produtivo e relações empresariais difíceis de reproduzir rapidamente em outro lugar.
É um dos ativos menos contabilizados da Zona Franca.
E talvez seja também uma das melhores respostas à velha simplificação segundo a qual os incentivos de Manaus apenas compensariam distância geográfica. Depois de Por que Sim o dia todomeio século produzindo motocicletas, o Amazonas acumulou algo que nenhum benefício fiscal consegue criar por decreto: experiência industrial.
A fábrica da Honda em Manaus chegou em fevereiro deste ano à marca de 32 milhões de motocicletas produzidas. É uma escala que ajuda a explicar por que novas empresas continuam olhando para o mesmo território quando decidem produzir no Brasil.
A reforma tributária acrescenta agora um elemento indispensável a esse patrimônio produtivo, a previsibilidade.
Sua verdadeira contribuição para a Amazônia deverá ser medida ao longo dos próximos anos, quando o novo sistema estiver plenamente implantado. Os primeiros movimentos empresariais, entretanto, oferecem sinais que merecem ser observados.
No conjunto da Zona Franca, o Conselho de Administração da Suframa aprovou, apenas em uma reunião realizada em março deste ano, 83 projetos industriais que somavam R$ 1,17 bilhão em investimentos. Tira tira escrevendo
No segmento de duas rodas, o que se vê agora é particularmente expressivo porque envolve empresas tradicionais ampliando capacidade ao mesmo tempo em que novas marcas chegam ou deixam de operar apenas por contratos de montagem para estudar fábricas próprias.
Capital produtivo costuma ser cuidadoso com suas apostas.
Quando terrenos são comprados, trabalhadores são contratados, linhas são ampliadas e bilhões de reais são programados para os próximos anos, existe por trás dessas decisões uma avaliação de mercado e uma determinada percepção de segurança institucional.
É essa relação que interessa ao Amazonas.
A reforma tributária poderá ser considerada bem-sucedida para a região se conseguir transformar a preservação constitucional da Zona Franca em uma plataforma para novos investimentos, maior conteúdo tecnológico, diversificação industrial e geração de empregos qualificados.
O setor de duas rodas oferece um primeiro laboratório dessa nova etapa.
Há, contudo, uma agenda que precisa caminhar junto com as fábricas. O crescimento da motocicleta exige políticas mais robustas de segurança viária, formação de condutores, infraestrutura urbana e proteção dos trabalhadores que utilizam esses veículos profissionalmente. Da mesma forma, a eletrificação futura exigirá domínio tecnológico sobre baterias, componentes eletrônicos, reciclagem e sistemas de recarga.
Manaus tem condições de participar dessa próxima geração industrial justamente porque já domina parte considerável da geração anterior.
Essa é a questão econômica mais interessante por trás dos anúncios recentes.
A Zona Franca foi concebida há quase seis décadas como instrumento de ocupação econômica da Amazônia Ocidental. Seu Polo de Duas Rodas tornou-se um dos maiores centros produtores de motocicletas do mundo e a fabricação brasileira está praticamente concentrada em Manaus.
Agora, enquanto o Brasil redesenha sua tributação e suas cidades redesenham suas formas de deslocamento, aquela política regional encontra uma nova função possível.
Produzir a mobilidade urbana brasileira a partir da Amazônia.
Os novos investimentos mostram que algumas empresas já começaram a fazer essa aposta.
Cabe transformar essa confiança empresarial em uma estratégia nacional de indústria, inovação e desenvolvimento regional. Se isso acontecer, a reforma tributária terá feito mais do que preservar uma vantagem fiscal. Terá ajudado a devolver horizonte a uma política industrial que o Brasil levou décadas para construir.