“O crescimento do Fundo Clima e a busca por capital privado abrem uma oportunidade para a Amazônia. O teste decisivo será transformar recursos anunciados em projetos capazes de proteger pessoas, florestas e economias locais.”
A sucessão de guerras, tensões comerciais e disputas por energia tem comprimido o espaço da cooperação internacional. Na Semana do Clima de Nova York, porém, os representantes brasileiros apresentaram um movimento em outra direção: ampliar o financiamento e organizar instrumentos para atrair investimento privado à transição ecológica. A distância entre os compromissos anunciados e a vida nas regiões mais expostas aos extremos climáticos continua grande. É nessa distância que a política terá de mostrar serviço.
Segundo a reportagem do Brazil Journal publicada em 28 de setembro, o ministro João Paulo Capobianco informou que o Fundo Clima, antes operado com média anual de R$ 400 milhões entre 2009 e 2023, passou a mais de R$ 10 bilhões em 2024, chegou a cerca de R$ 14,5 bilhões em 2025 e tem previsão de R$ 27 bilhões em 2026.
São cifras referentes à disponibilidade ou ao orçamento do fundo, conforme a apresentação do ministro; não equivalem, por si, a obras concluídas. O BNDES informa que, em 2025, R$ 12,5 bilhões em projetos aprovados ajudaram a mobilizar R$ 34,6 bilhões quando considerados também os aportes privados. Esses indicadores medem etapas diferentes do financiamento e exigem acompanhamento próprio.
O Eco Invest Brasil acrescenta outra peça a esse arranjo. O Tesouro Nacional o apresenta como programa voltado à atração de capital nacional e externo, com instrumentos para reduzir riscos, administrar a volatilidade cambial e estruturar projetos. Na mesma entrevista ao Brazil Journal, o secretário do Tesouro, Mário Gouvêa, atribuiu aos leilões do programa mais de R$ 140 bilhões em compromissos de investimento. Compromisso indica disposição de investir sob condições determinadas; o resultado climático dependerá da contratação, da execução e da medição do que for entregue.
O Brasil parte de uma vantagem real na energia elétrica. O Balanço Energético Nacional 2026, com dados de 2025, registra 86,8% de fontes renováveis na matriz elétrica. A geração eólica e solar, juntas, respondeu por 26,4% da eletricidade produzida. A mesma publicação mostra, entretanto, crescimento da geração termelétrica e situa em aproximadamente 50% a parcela renovável da matriz energética total, que inclui também transportes e outros usos de energia. Nossa posição favorável precisa ser lida com essas diferenças em mente.
Para a Amazônia, a questão mais urgente talvez esteja fora dos painéis de geração elétrica. A estiagem desorganiza transportes, encarece a chegada de insumos e expõe comunidades a dificuldades de abastecimento e de acesso a serviços. Investir em adaptação significa produzir informação hidrológica confiável, planejar rotas e terminais, proteger o fornecimento de água e energia, fortalecer a saúde pública e dar escala a soluções concebidas com quem vive ao longo dos rios. A floresta em pé integra essa resposta quando gera renda, conhecimento e capacidade local de gestão.
O desequilíbrio do financiamento é conhecido. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que os países em desenvolvimento precisarão de mais de US$ 310 bilhões anuais para adaptação até 2035, enquanto o fluxo internacional público destinado a essa finalidade foi de US$ 26 bilhões em 2023. O Fundo Clima brasileiro incluiu entre suas metas aspiracionais para 2026 aplicar 20% em projetos de adaptação e direcionar 25% de seu orçamento às regiões Norte e Nordeste. A Amazônia deve acompanhar como essas metas se convertem em projetos selecionados, desembolsos e proteção efetiva.
Atrair capital privado é parte da resposta, mas nem todo investimento socialmente indispensável oferece retorno comercial imediato. Monitoramento de rios, atendimento de comunidades isoladas e prevenção de perdas exigem coordenação pública, recursos apropriados e critérios transparentes. Para um projeto amazônico chegar ao financiamento, ele precisa de estudos, governança, garantias e parceiros capazes de executar e prestar contas. Essa preparação deve reunir universidades, governos, empresas, organizações comunitárias e povos da floresta.
Em meio às prioridades concorrentes que dominam a política internacional, o Brasil dispõe hoje de instrumentos mais robustos para agir. Seu avanço será medido pela redução de emissões e vulnerabilidades, pelo destino territorial dos recursos e pela capacidade de fazer da transição uma oportunidade concreta para quem permanece na Amazônia. O dinheiro anunciado abre a porta; os resultados terão de atravessá-la.