Petrobras identifica hidrocarbonetos na Foz do Amazonas, mas não confirma petróleo

O anúncio de hidrocarbonetos na Foz do Amazonas ocorre antes da conclusão do poço Morpho e levanta dúvidas sobre produção, licenciamento e retorno econômico.

A Petrobras identificou indícios de hidrocarbonetos na Foz do Amazonas, no poço exploratório Morpho, localizado no bloco FZA-M-59. O resultado foi divulgado na sexta-feira (14), mas ainda não permite confirmar a descoberta de uma reserva comercial de petróleo ou gás.

Segundo o comunicado da Petrobras, a presença do material foi constatada por meio de perfis elétricos e de sinais observados nas rochas. A companhia, entretanto, não especificou a composição dos hidrocarbonetos nem apresentou estimativas sobre o volume existente na área.

O anúncio repercutiu entre representantes da indústria e políticos favoráveis à exploração da Margem Equatorial. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), declarou que os defensores da atividade estavam “certos”. Já o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis considerou que o resultado reforça o potencial da região como fronteira exploratória.

Resultado ainda é preliminar

Especialistas ponderam que os dados são inconclusivos. O termo hidrocarboneto abrange substâncias como petróleo, gás natural, petróleo com gás associado e condensado. A identificação do material e a avaliação de sua quantidade serão determinantes para saber se uma eventual produção seria técnica e economicamente viável.

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, reconheceu que os hidrocarbonetos na Foz do Amazonas ainda não representam uma descoberta comercial. “Há descoberta, mas não uma descoberta comercial”, afirmou. Segundo ela, será necessário perfurar outros três poços para avaliar o potencial do bloco. A companhia já solicitou ao Ibama autorização ambiental para essas operações.

A cautela também se justifica pela forma como a Petrobras apresentou descobertas anteriores. Em 2006, ao divulgar os primeiros resultados de Tupi, na Bacia de Santos, a empresa informou ter encontrado “óleo leve”. Em 2013, no poço Pitu, no litoral do Rio Grande do Norte, comunicou uma “acumulação de petróleo”. No caso de Morpho, o informe mencionou somente a presença genérica de hidrocarbonetos.

Produção pode demorar mais de uma década

A perfuração do poço ainda está em andamento e deve terminar entre o fim de agosto e o começo de setembro. Mesmo sem informações conclusivas, Chambriard estimou que uma produção comercial no Amapá poderia começar entre 2032 e 2033.

O ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates considera esse prazo otimista. Para ele, o primeiro óleo poderia ser produzido a partir de 2034, caso o licenciamento avance rapidamente, ou entre 2035 e 2038 em um cenário mais demorado. As dificuldades operacionais da região poderiam adiar o início para o período de 2039 a 2042.

As fortes correntes marítimas já afetaram a perfuração de Morpho e estiveram associadas ao vazamento de 18 mil litros de fluido de perfuração. Uma eventual produção exigiria operações mais complexas e medidas adicionais de segurança.

A possível exploração dos hidrocarbonetos na Foz do Amazonas também enfrenta incertezas econômicas. A Agência Internacional de Energia prevê que a demanda mundial por petróleo alcance seu pico até 2030. Caso a atividade avance quando o consumo global estiver em queda, os investimentos poderão enfrentar maior risco de se tornarem ativos encalhados, possibilidade apontada em estudo do WWF-Brasil.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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