Estiagem exige que o Amazonas transforme contingência em política permanente

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O encontro que o CIEAM realizará em 1º de outubro, no SENAI, chega em um momento em que a logística amazônica precisa conciliar a resposta à vazante com decisões de investimento que ultrapassem uma temporada. Organizado pelas Comissões de Logística e de Comércio Exterior, o seminário “Soluções para a Estiagem de 2026: Operações Logísticas e Aduaneiras” reunirá operadores portuários, representantes do Aeroporto de Manaus, da cabotagem e da Receita Federal. A articulação merece reconhecimento pela disposição de discutir publicamente as condições de abastecimento e escoamento do Polo Industrial de Manaus.

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A programação apresentada pelo CIEAM contempla a Operação Itacoatiara 2026, do Super Terminais; as soluções operacionais do Grupo Chibatão; as alternativas do transporte aéreo; a atuação institucional da ABAC; e as providências aduaneiras nos terminais e no aeroporto. O debate será mediado pelo professor Augusto César Barreto Rocha. São frentes complementares, cujo resultado dependerá da compatibilidade entre capacidade operacional, custos, segurança e rapidez nas decisões.

Essa mobilização oferece ao Governo do Amazonas uma oportunidade de assumir uma participação mais efetiva da adaptação logística às mudanças do clima, articulando as necessidades operacionais, o abastecimento das cidades e a proteção das comunidades mais expostas ao isolamento.

Os registros recentes ajudam a dimensionar essa responsabilidade. Em outubro de 2024, o Rio Negro atingiu, em Manaus, a cota de 12,11 metros, a menor desde o início das medições, em 1902. O recorde anterior, de 12,70 metros, havia sido registrado em 2023. Foram duas mínimas históricas consecutivas, conforme os dados reunidos pelo Cemaden. Essas cotas são referências da estação de medição; não correspondem à profundidade disponível para os navios.

Para 2026, há um alerta que exige preparação, com a devida distinção entre cenário e fato consumado. Em análise divulgada no início de setembro, baseada nas cotas de 31 de agosto, o Serviço Geológico do Brasil apresentou possibilidades de vazante entre 12,31 e 16,50 metros para Manaus. O comportamento efetivo dependerá da evolução hidrológica. O estudo também projetou níveis baixos para Itacoatiara, reforçando a necessidade de avaliar tecnicamente as condições de operação de cada alternativa.

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A mudança climática integra esse diagnóstico. Um estudo de atribuição divulgado em 2024 pela World Weather Attribution identificou o aquecimento provocado pela atividade humana como o principal fator de agravamento da seca amazônica de 2023. Ao considerar conjuntamente a escassez de chuva e a perda de umidade associada ao calor, a análise estimou que uma seca agrícola daquela intensidade se tornou cerca de 30 vezes mais provável. O resultado se refere ao evento estudado, sem constituir uma previsão numérica para 2026.

O alcance econômico também é expressivo. Segundo os Indicadores da Suframa, reproduzidos pela imprensa regional, o PIM encerrou 2025 com R$ 227,67 bilhões de faturamento e média de quase 132 mil trabalhadores. Esse faturamento dimensiona a atividade dependente de uma logística confiável; não deve ser confundido com uma estimativa de prejuízo causado pela seca.

Quando uma carga precisa de novas etapas de transporte, armazenagem ou manuseio, a conta passa a incorporar operações adicionais. Na indústria, isso pressiona capital de giro, planejamento de estoques e cumprimento de contratos. No interior, a restrição de acesso compromete o abastecimento e o deslocamento de pessoas, com consequências especialmente graves para quem depende de medicamentos e atendimento de saúde.

Há iniciativas estaduais que precisam ser reconhecidas e avaliadas. Em setembro de 2024, o Governo do Amazonas apresentou ao Ministério da Saúde um plano de contingência para a estiagem. A Secretaria de Saúde relatou monitoramento de oxigênio, medicamentos e condições de navegabilidade, inclusive para antecipar situações em que o acesso dependeria do transporte aéreo. Naquele período, os 62 municípios estavam em situação de emergência de saúde pública em decorrência da seca extrema, segundo a SES-AM.

A experiência acumulada permite cobrar um avanço concreto. O Amazonas precisa tornar públicos os investimentos de adaptação, os prazos de execução e os resultados esperados por calha de rio, integrando os órgãos estaduais, os municípios, as instituições federais e o setor produtivo. A continuidade dessa coordenação deve atravessar o período de cheia, quando ainda há condições para preparar estruturas, contratos e estoques.

Uma agenda mais ousada pode começar pela avaliação de infraestrutura de transbordo e armazenagem em pontos estratégicos, incluindo Itacoatiara, com estudos de viabilidade econômica, condições hidrológicas e impactos ambientais. A comparação precisa abranger o custo total de cada rota e a segurança operacional em diferentes níveis dos rios. O transporte aéreo deve integrar o planejamento com critérios claros para cargas críticas e necessidades de saúde, considerando seus custos e limites de capacidade.

Também cabe propor protocolos prévios de contingência aduaneira, sob responsabilidade da Receita Federal, e um sistema compartilhado de informações sobre navegabilidade, capacidade dos terminais e restrições operacionais. Com antecedência, empresas e poder público podem decidir quando antecipar cargas, mobilizar embarcações ou acionar rotas alternativas.

As intervenções nos rios exigem o mesmo rigor. Projetos de dragagem devem ser sustentados por levantamentos atualizados, estudos da dinâmica dos sedimentos, avaliação ambiental e demonstração dos ganhos de navegabilidade. O acompanhamento posterior precisa verificar quanto tempo o resultado durou e qual foi o custo de manutenção. Esse critério permite comparar alternativas e orientar o gasto público.

Para o interior, a adaptação deve contemplar estruturas de água potável, estoques regionalizados de medicamentos e apoio ao escoamento da produção local. Uma política logística será incompleta se melhorar a circulação das grandes cargas sem enfrentar as dificuldades das comunidades que dependem das mesmas águas.

O seminário do CIEAM pode contribuir para uma agenda pública de compromissos, com responsáveis, fontes de financiamento e prestação periódica de contas. A participação mais efetiva do Governo do Amazonas deve aparecer na capacidade de transformar o diagnóstico compartilhado em projetos executáveis e investimentos verificáveis. É essa continuidade que permitirá aproveitar o aprendizado das secas recentes e reduzir a exposição da economia e da população às próximas vazantes.

Solucoes para a Estiagem de 2026 Operacoes Logisticas e Aduaneiras

Mais informações sobre o evento

Data: 1º de outubro de 2026
Horário: das 14h às 16h
Local: Auditório do SENAI – Av. Rodrigo Otávio, 2394, Manaus – AM
Realização: CIEAM – Comissões de Logística e de Comércio Exterior


Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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