“O Brasil precisa de uma Presidência capaz de reunir conhecimento, responsabilidade e cooperação. Para quem pretende governar, a trajetória pública deve oferecer razões concretas para confiar nas promessas de campanha”
Uma candidatura à Presidência da República precisa ser examinada pelo que promete, pelo que já fez e pela maneira como trata aqueles de quem dependerá para governar. A administração de um país desigual, federativo e socialmente diverso exige preparação, capacidade de ouvir e disposição para construir soluções que sobrevivam à eleição. São requisitos que o eleitor tem o direito de cobrar, sobretudo de quem acumulou mais de duas décadas de mandatos.
Flávio Bolsonaro apresenta propostas para a Amazônia e declara apoio à Zona Franca de Manaus. Cabe confrontar esses compromissos com decisões tomadas quando já dispunha de mandato, assessoria e instrumentos legislativos para agir. Nesse confronto, há questões que a campanha ainda precisa esclarecer.
Em 2019, foi coautor, com Márcio Bittar, do PL 2.362, que propunha revogar o capítulo da Reserva Legal do Código Florestal. Os autores posteriormente retiraram o projeto. A retirada integra o registro, assim como a iniciativa de eliminar aquele instrumento de proteção da vegetação nativa. (www25.senado.leg.br)
Em novembro de 2023, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, questionou mecanismos de proteção à Zona Franca enquanto reivindicava garantias para os royalties dos estados produtores de petróleo. Sua argumentação vinculou as duas disputas e apresentou o fortalecimento de Manaus como possível prejuízo ao restante do país. Na mesma reunião, reconheceu a importância do modelo para o Amazonas e pediu desculpas a Eduardo Braga pela forma como conduzira o encaminhamento. A posição sobre os dispositivos tributários permaneceu registrada. (www25.senado.leg.br)
Já na visita à Honda, em setembro de 2026, apresentou a Zona Franca como patrimônio de todo o Brasil. Seu programa também passou a defender bioeconomia e geração de renda com a floresta preservada. A mudança pode ser discutida e explicada. Para merecer confiança, precisa vir acompanhada de razões, compromissos verificáveis e consequências práticas. (flaviobolsonaro.com.br)
O que o país precisa cobrar
A experiência acumulada em cargos públicos deve permitir ao candidato demonstrar o que aprendeu, quais problemas ajudou a resolver e com quem conseguiu trabalhar. É a partir desse critério que podemos enumerar algumas exigências para quem pretende ocupar a Presidência.
1. Competência para compreender os problemas. Governar exige conhecer orçamento, atribuições institucionais e consequências das decisões. Uma promessa de reduzir impostos precisa explicar como serão financiados os serviços. Uma proposta de expansão industrial deve considerar energia, logística, formação profissional e acesso à tecnologia. O eleitor precisa enxergar o caminho entre o anúncio e o resultado.
2. Compromisso com a ciência. A Amazônia exige políticas informadas pelo conhecimento sobre clima, biodiversidade, saúde e funcionamento dos ecossistemas. Quem pretende governá-la precisa ouvir pesquisadores, fortalecer instituições e aceitar evidências que contrariem preferências políticas. A adesão à ciência se demonstra também na escolha de equipes, no financiamento e na continuidade das pesquisas.
3. Responsabilidade com emprego e produção. Para o Amazonas, defender a Zona Franca envolve preservar condições de investimento e ampliar suas conexões com a economia regional. Interessa saber como a capacidade industrial poderá contribuir para transformar conhecimento sobre a biodiversidade em produtos, renda e oportunidades. Esse trabalho depende de segurança jurídica e de compromissos que resistam às negociações políticas em Brasília.
4. Capacidade de cooperação. União, estados, municípios, empresas, trabalhadores, universidades e comunidades precisam participar da construção das políticas que os afetam. Divergências são parte desse processo. Quando a hostilidade se torna método permanente, a negociação perde espaço e projetos necessários ficam subordinados à identificação de aliados e inimigos. Cabe a quem busca a Presidência demonstrar que sabe trabalhar com pessoas que não lhe devem lealdade eleitoral.
5. Respeito à diversidade do país. O interesse nacional inclui regiões com custos, histórias e possibilidades diferentes. A discussão sobre incentivos deve considerar essas condições, suas contrapartidas e seus resultados. Apresentar o desenvolvimento de uma região como ameaça às demais empobrece o debate e dificulta a construção de uma política federativa.
6. Prestação de contas sobre a própria trajetória. O candidato deve explicar mudanças de posição e responder por suas escolhas. Projetos apresentados, votos, fiscalização e articulações oferecem elementos para esse exame. Mais de duas décadas de vida parlamentar permitem cobrar um balanço consistente, com resultados e limites reconhecidos.
7. Compromisso com quem depende das decisões públicas. Na Presidência, uma escolha tributária alcança empregos; uma omissão ambiental alcança a saúde; uma interrupção de investimentos alcança famílias que aguardam água, transporte, atendimento ou escola. Essa responsabilidade exige disposição para considerar consequências que ultrapassam o próprio grupo político.
A confiança precisa de fundamento
É por esses critérios que a candidatura de Flávio Bolsonaro deve ser examinada. A declaração de apoio à Zona Franca e a incorporação da bioeconomia ao programa precisam encontrar sustentação em sua atuação e em uma explicação convincente sobre as posições anteriores.
O Amazonas tem razões para cobrar essa coerência. Preservação florestal, indústria e melhoria das condições de vida precisam compor uma política duradoura, apoiada em conhecimento e cooperação. O Brasil precisa saber se quem pede o comando da República está preparado para construí-la.
O Brasil Amazônia Agora oferece espaço ao senador para esclarecer essa trajetória, apresentar iniciativas que sustentem seus compromissos atuais e explicar como pretende construir convergências entre os diferentes participantes do desenvolvimento amazônico.