O Brasil não cabe no quintal de ninguém

Há uma frase na carta que Marco Rubio enviou a Flávio Bolsonaro, em junho, que merece ser lida devagar. O secretário de Estado norte-americano agradeceu a oferta de colocar uma eventual equipe de transição “à nossa disposição, caso seja eleito”. O senador havia procurado Washington em meio à disputa tarifária. A correspondência não prova, por si só, uma intervenção eleitoral. Expõe, contudo, uma disposição política que exige explicações: por que oferecer antecipadamente uma equipe de um possível governo brasileiro à administração de outro país?

É legítimo dialogar com governos estrangeiros. Um candidato à Presidência, porém, deve dizer aos brasileiros quais compromissos assume em seu nome, ainda mais quando a potência interlocutora pressiona nossas instituições, nosso comércio e nossas decisões estratégicas. A transição de governo, se houver, diz respeito ao mandato conferido pelo eleitorado brasileiro. Não é uma mesa reservada em Washington.

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Marco Rubio responde a carta de Flávio Bolsonaro.Reprodução | Jefferson Rudy/Agência Senado

O alerta deixou de ser apenas uma reação à carta. Conforme revelou a jornalista Mônica Bergamo, um relatório da Agência Brasileira de Inteligência encaminhado à Presidência, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça elevou a possibilidade de influência e interferência dos Estados Unidos nas eleições a um “nível de criticidade”. A Abin descreveu uma escalada de pressão econômica e política e relacionou a estratégia norte-americana à disputa por ativos, riquezas naturais e infraestrutura na América Latina. Trata-se de uma avaliação de inteligência sobre riscos e atos de pressão, cujo alcance precisa ser examinado pelas instituições competentes.

Uma apuração da CNN Brasil relata quatro frentes acompanhadas pelo governo: manifestações de autoridades dos Estados Unidos sobre a política brasileira; suspeitas de impulsionamento de perfis de direita a partir do exterior; suspeitas de financiamento político ligado à Rockbridge Network; e encontros de representantes norte-americanos com influenciadores brasileiros.

A campanha de Flávio Bolsonaro nega as acusações de impulsionamento e financiamento. Monitorar uma suspeita não equivale a comprovar a prática. É precisamente por isso que a origem dos recursos, os contratos de publicidade, a atuação das plataformas e a natureza desses encontros devem ser esclarecidos com transparência e direito de defesa.

A reportagem da Folha de S.Paulo sobre a Rockbridge acrescenta um dado concreto ao debate: o grupo conservador norte-americano chegou a planejar uma operação no Brasil voltada a mídia, formação de jovens e atividade legislativa. A organização afirma que a iniciativa não prosperou. A existência desse plano merece escrutínio público; ela não autoriza afirmar que o grupo financiou uma candidatura, hipótese contestada pelos envolvidos e levada à investigação.

Há, ao mesmo tempo, uma vulnerabilidade digital demonstrada. Em teste conduzido pela organização Ekō, 13 de 15 anúncios políticos falsos, produzidos com inteligência artificial e submetidos a partir de uma conta nos Estados Unidos para atingir brasileiros, receberam aprovação inicial nos sistemas da Meta. Os pesquisadores retiraram as peças antes da veiculação: nenhum desses anúncios foi visto pelo público. A Meta afirma que mantém outras camadas de revisão e se compromete com a integridade eleitoral. O resultado do teste, apesar dessa ressalva, mostra a facilidade com que conteúdo capaz de confundir eleitores pode atravessar uma barreira que deveria funcionar.

O acordo de cerca de US$ 18 bilhões firmado pela Meta com autoridades estaduais norte-americanas, citado em reportagem do g1, trata da proteção de adolescentes nas plataformas. Ele não constitui prova de interferência nas eleições brasileiras. Mostra, isso sim, que uma grande plataforma pode ser submetida a exigências de prestação de contas e mudanças de funcionamento. O Brasil tem o mesmo direito de exigir o cumprimento de suas regras eleitorais, com fiscalização pública e garantias de liberdade de expressão.

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(Foto: Rubens Cavallari/Folhapress

O episódio é ainda mais grave pelo papel de brasileiros que procuram respaldo externo para suas disputas internas. Jair Bolsonaro foi o centro político da tentativa de ruptura democrática depois da eleição de 2022. Eduardo Bolsonaro buscou, nos Estados Unidos, sanções contra autoridades brasileiras; em setembro, ele e Paulo Figueiredo voltaram a conversar com integrantes do governo Trump sobre as eleições e possíveis novas sanções, segundo a imprensa.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, ofereceu a Washington uma interlocução antecipada para uma eventual transição. São fatos e responsabilidades distintos. Reunidos, revelam uma família política que recorre ao poder norte-americano enquanto pede confiança para governar o Brasil.

Para o Amazonas, essa disputa tem uma dimensão que ultrapassa o calendário eleitoral. A Amazônia concentra biodiversidade, água, minérios, capacidade energética e uma posição decisiva nas negociações climáticas. O Polo Industrial de Manaus, a pesquisa brasileira e o conhecimento dos povos da floresta fazem parte da nossa capacidade de escolher como produzir riqueza e repartir seus benefícios. Quando uma potência reivindica influência sobre ativos estratégicos da região, a pergunta deixa de ser apenas quem vencerá a eleição. Passa a ser quem decidirá o destino desses ativos e a favor de quem.

O país pode negociar comércio, tecnologia e segurança com os Estados Unidos em condições de respeito recíproco. Pode também divergir, investigar pressões indevidas e exigir que empresas globais obedeçam à lei brasileira. Cabe ao TSE, ao Ministério Público, ao Congresso e aos órgãos de investigação apurar as suspeitas com provas, dar publicidade ao que for possível e responsabilizar quem tenha violado as regras. Cabe aos candidatos explicar seus vínculos e compromissos. E cabe ao eleitor não entregar sua escolha a uma campanha estrangeira, a um algoritmo opaco ou à nostalgia de tutela sobre a América Latina.

Vestir o verde e o amarelo, neste momento, é reconhecer a quem pertence a decisão. Pertence aos brasileiros, inclusive àqueles que discordam profundamente entre si. Outubro dirá quem governará. A firmeza com que preservarmos o direito de decidir dirá em que condições o Brasil continuará a governar a si próprio.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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