“Polo Industrial de Manaus avança em uma nova etapa do setor eletroeletrônico, marcada por inovação, manufatura inteligente, transição energética, qualificação profissional e maior integração às cadeias globais de tecnologia”
Há uma maneira excessivamente simples de observar o Polo Industrial de Manaus: contar fábricas, empregos, televisores, motocicletas, condicionadores de ar e telefones celulares. Esses números continuam importantes. Mas começam a dizer menos sobre o futuro do PIM do que diziam algumas décadas atrás.
A transformação mais relevante ocorre dentro das fábricas, nos produtos que passam a compor suas linhas, na inteligência incorporada ao processo produtivo e na gradual aproximação entre eletrônica, informática, energia, mobilidade, automação, conectividade e serviços tecnológicos.
A 324ª Reunião Ordinária do Conselho de Administração da Suframa, realizada em Manaus em 14 de agosto de 2026, oferece uma fotografia particularmente interessante desse movimento.
Foram aprovados 25 projetos industriais e de serviços, com previsão de R$ 335,30 milhões em investimentos e potencial de geração de 859 novos empregos nos três anos seguintes. A maior concentração das propostas ocorreu justamente nos subsetores eletroeletrônico e mecânico. Antes da reunião, a Suframa havia informado que os dois segmentos reuniam R$ 220,73 milhões dos investimentos previstos e 458 dos novos postos de trabalho projetados.
O dado quantitativo importa. A composição dos projetos talvez importe ainda mais.
Entre eles aparecem iniciativas como a produção de terminais de captura de dados pela Jabil, com investimento previsto de R$ 59,4 milhões, e a implantação de uma fábrica de registradores e medidores de energia elétrica pela Sunhope, investimento de R$ 107,56 milhões e previsão de 224 empregos. Também foi aprovado projeto para fabricação de condicionadores de ar, enquanto outras iniciativas ampliam a infraestrutura produtiva e logística do Polo.
São produtos distintos, mas pertencem a uma mesma transformação industrial.
Sensores, medidores inteligentes, terminais de dados, equipamentos conectados, sistemas embarcados, placas eletrônicas, softwares industriais, automação, gestão energética e inteligência aplicada aos processos produtivos estão dissolvendo as antigas fronteiras entre os segmentos industriais.
O eletroeletrônico passa a conversar cada vez mais com energia, mobilidade, telecomunicações, informática e serviços digitais.
Essa convergência interessa especialmente ao SINAEES porque nela pode estar uma das principais avenidas de crescimento do Polo Industrial de Manaus nas próximas décadas.
Uma indústria que permanece grande enquanto muda por dentro. Os números do primeiro semestre de 2026 ajudam a compreender a dimensão dessa base.
O PIM faturou R$ 121,76 bilhões entre janeiro e junho e manteve média mensal de 130.903 empregos. Bens de Informática responderam por 22,01% do faturamento industrial, enquanto o segmento Eletroeletrônico representou outros 15,90%. Somados, os dois grupos responderam por aproximadamente 38% da receita industrial do Polo naquele período.
Essa aproximação estatística entre informática e eletroeletrônicos traduz uma aproximação tecnológica que já ocorre nas linhas de produção.
Um televisor é cada vez mais computador. Um aparelho de ar-condicionado contém eletrônica de controle, sensores e conectividade. Uma motocicleta incorpora módulos eletrônicos, sistemas digitais e gerenciamento de energia. Um medidor de eletricidade tornou-se equipamento de comunicação de dados. Uma bicicleta pode incorporar bateria, controlador eletrônico, software e sistemas de monitoramento.
A classificação industrial tradicional permanece necessária para fins administrativos e estatísticos. A tecnologia, entretanto, atravessa essas classificações com velocidade crescente.
Esse é um ponto estratégico para Manaus.
A competitividade futura do PIM dependerá menos da capacidade de reproduzir indefinidamente as mesmas famílias de produtos e mais de sua capacidade de utilizar a competência industrial acumulada para entrar nas novas cadeias tecnológicas.
Há uma infraestrutura produtiva construída ao longo de quase seis décadas. Existem fornecedores, operadores logísticos, engenheiros, técnicos, institutos de ciência e tecnologia, universidades, empresas multinacionais, fabricantes nacionais e uma cultura industrial que poucas regiões brasileiras conseguiram reunir.
Transformar essa base é muito menos oneroso do que começar outra do zero. A eletrônica tornou-se infraestrutura da economia
Durante décadas, o setor eletroeletrônico foi associado principalmente ao consumo doméstico. Televisores, rádios, aparelhos de áudio, telefones e posteriormente computadores e celulares ajudaram a construir a identidade industrial de Manaus.
O século XXI ampliou radicalmente esse mercado. A eletrônica tornou-se infraestrutura transversal da economia contemporânea.
Está nas redes elétricas inteligentes, nos veículos, nas máquinas industriais, nos equipamentos médicos, nos sistemas de defesa, nos satélites, na agricultura de precisão, na logística, nos centros de dados, nas telecomunicações e na automação das cidades.
Por isso, discutir o futuro do setor eletroeletrônico de Manaus significa discutir uma parcela importante da estratégia industrial brasileira.
Essa discussão ganha relevância adicional em um período no qual semicondutores, inteligência artificial, baterias, telecomunicações, computação avançada e componentes eletrônicos passaram a ocupar espaço central nas disputas comerciais e tecnológicas internacionais.
Manaus possui uma característica que merece ser aproveitada nesse ambiente: já participa das cadeias globais da indústria eletrônica.
O desafio agora é avançar dentro dessas cadeias. Da montagem ao domínio crescente da engenharia
O Processo Produtivo Básico cumpriu durante décadas uma função decisiva ao estabelecer etapas industriais mínimas necessárias à fabricação incentivada na Zona Franca.
A próxima fase exige que esse instrumento acompanhe a velocidade das transformações tecnológicas.
Na própria reunião do CAS de agosto, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços anunciou uma força-tarefa para acelerar a análise de demandas relacionadas aos PPBs, reconhecendo a necessidade de maior velocidade administrativa diante da dinâmica industrial.
Para o setor produtivo, essa questão é central.
Produtos tecnológicos possuem ciclos cada vez menores. Uma decisão regulatória excessivamente lenta pode consumir parte importante da vida comercial de determinado equipamento.
Agilidade regulatória tornou-se, portanto, elemento de competitividade industrial. Mas existe outra dimensão.
O PPB pode continuar evoluindo para estimular maior incorporação de engenharia, componentes, software, projetos tecnológicos e atividades de pesquisa e desenvolvimento realizadas na Amazônia.
Quanto maior o conteúdo tecnológico produzido localmente, maior o enraizamento econômico do Polo.
Esse processo ajuda a reduzir uma vulnerabilidade histórica: a distância entre a extraordinária capacidade de fabricação instalada em Manaus e a ainda limitada participação regional em algumas etapas de maior valor agregado das cadeias tecnológicas.
PD&I passa a ocupar o centro da estratégia
Manaus possui uma ferramenta pouco comum na política industrial brasileira: a obrigação de investimento em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação associada à produção de bens de informática.
Ao longo dos anos, esse mecanismo contribuiu para formar institutos de tecnologia, laboratórios, pesquisadores, engenheiros e empresas voltadas à inovação.
Agora surge uma oportunidade de utilizar essa infraestrutura para uma transformação mais profunda da própria indústria.
Em agosto de 2026, o Comitê das Atividades de Pesquisa e Desenvolvimento na Amazônia discutiu novos instrumentos para aumentar a maturidade tecnológica das fábricas da região. Entre eles está a regulamentação dos investimentos destinados à Indústria 4.0, incluindo critérios atualizados para automação e modernização dos processos produtivos.
Esse movimento pode alterar a produtividade do PIM.
Visão computacional, robótica colaborativa, inteligência artificial, manutenção preditiva, rastreabilidade digital, análise de grandes volumes de dados e manufatura conectada já fazem parte da transformação industrial mundial.
A fábrica amazônica precisa acompanhar essa trajetória. Há um paradoxo interessante nesse processo.
Quanto mais automatizada se torna a indústria, maior tende a ser a necessidade de trabalhadores qualificados. Diminuem algumas tarefas repetitivas e crescem as atividades associadas a programação, manutenção, engenharia, análise de dados, operação de sistemas e desenvolvimento tecnológico.
Isso modifica também a agenda sindical.
O debate sobre emprego industrial passa necessariamente pela formação profissional, pela atualização permanente do trabalhador e pela democratização do acesso às novas competências tecnológicas.
Para o SINAEES, defender empregos significa cada vez mais ajudar a preparar trabalhadores para os empregos que estão surgindo.
A transição energética abre outra fronteira
Existe ainda uma conexão particularmente promissora entre o setor eletroeletrônico e a transição energética.
Baterias, sistemas de armazenamento, inversores, controladores, carregadores, medidores inteligentes, sistemas fotovoltaicos, eletrônica de potência e equipamentos de gerenciamento energético formarão mercados industriais cada vez maiores.
A aprovação de uma fábrica de medidores de energia elétrica na 324ª reunião do CAS ajuda a visualizar essa oportunidade.
A Amazônia possui ainda uma circunstância peculiar.
Enquanto o mundo procura tecnologias para descarbonizar suas economias, milhares de localidades amazônicas continuam enfrentando sistemas energéticos caros, frágeis ou dependentes de combustíveis fósseis.
Parte das soluções para esse problema poderia ser fabricada dentro da própria região.
Nesse ponto, política industrial, desenvolvimento regional e política climática podem encontrar uma convergência rara.
O Polo Industrial de Manaus poderia participar de maneira crescente da produção de sistemas destinados à geração distribuída, armazenamento energético, microrredes e eletrificação de comunidades isoladas.
Seria também uma forma de aproximar a capacidade tecnológica instalada em Manaus das necessidades concretas do interior amazônico.
Mobilidade também virou eletrônica. Outra transformação ocorre na mobilidade. Motores elétricos, controladores, baterias, sensores e softwares estão redesenhando cadeias produtivas que durante décadas foram essencialmente mecânicas.
O próprio PIM começa a participar dessa transição. Na reunião anterior do CAS, realizada em junho, esteve entre os projetos aprovados uma diversificação da Jabil destinada à fabricação de bicicletas elétricas.
O exemplo merece atenção porque mostra como as cadeias industriais começam a se cruzar. Uma bicicleta elétrica reúne mecânica, eletrônica, energia e software.
Algo semelhante ocorre nos veículos elétricos, nos drones, nos equipamentos logísticos automatizados e em inúmeras máquinas industriais.
A fronteira entre indústria eletroeletrônica e indústria de mobilidade ficará cada vez mais tênue. Para Manaus, isso representa possibilidade concreta de diversificação.
Reforma tributária e horizonte industrial
Qualquer planejamento de longo prazo exige segurança jurídica.
Depois de anos de incerteza sobre os impactos da reforma tributária, a regulamentação construída para preservar a competitividade da Zona Franca permitiu ao setor industrial trabalhar novamente com horizontes mais longos.
A própria Suframa relacionou o novo ambiente jurídico à continuidade dos investimentos e vem tratando a modernização tecnológica do Polo dentro do período de transição da reforma. Na 324ª reunião, a instituição voltou a destacar a segurança jurídica e a manutenção de aproximadamente 131 mil empregos diretos.
Investimento industrial depende de previsibilidade.
Linhas de produção, máquinas, laboratórios e centros de engenharia são decisões tomadas para muitos anos.
Quando empresas continuam apresentando projetos de implantação, atualização e diversificação, existe uma informação econômica implícita nesses movimentos: o capital acredita que haverá mercado e condições de produção no futuro.
Espaço físico também entrou na equação. Existe ainda uma questão menos tecnológica e igualmente decisiva.
O Distrito Industrial de Manaus começa a enfrentar limitações físicas e de infraestrutura acumuladas durante décadas.
Na reunião de agosto, o governo federal informou que estão avançadas as articulações para a implantação do chamado Polo Industrial número 4, na zona Leste da cidade, conectado à expansão do sistema viário.
Esse anúncio precisa ser acompanhado de planejamento urbano e logístico.
Um novo espaço industrial oferece oportunidade rara para incorporar desde o início infraestrutura digital, energia eficiente, conectividade, tratamento de resíduos, economia circular, mobilidade dos trabalhadores e padrões ambientais mais avançados.
Pode surgir ali um laboratório da nova indústria amazônica.
Sustentabilidade entra na contabilidade industrial
Durante muito tempo, a contribuição ambiental da Zona Franca permaneceu sustentada sobretudo por estudos acadêmicos e pela correlação entre industrialização urbana e conservação florestal.
Essa discussão começa a adquirir instrumentos mais objetivos.
Na 324ª reunião, a Suframa informou que prepara indicadores ambientais destinados a mensurar as externalidades positivas da Zona Franca e relacionou o modelo econômico à preservação superior a 97% da cobertura vegetal em seu entorno.
Para o setor eletroeletrônico, essa agenda poderá ser particularmente relevante.
Mercados internacionais, consumidores e cadeias globais de fornecedores estão exigindo rastreabilidade ambiental, redução de emissões, eficiência energética, circularidade e comprovação de origem.
Produzir dentro de uma região que abriga a maior floresta tropical do planeta impõe responsabilidades adicionais, mas também pode oferecer uma vantagem competitiva extraordinária.
Para isso, sustentabilidade precisa deixar de ser apenas narrativa institucional e passar a integrar indicadores industriais verificáveis.
O desafio do adensamento
A evolução tecnológica do PIM também recoloca uma velha questão.
Quanto daquilo que as fábricas utilizam poderia ser produzido no próprio Polo, na Amazônia ou em outras regiões brasileiras?
Placas, componentes, subconjuntos, embalagens técnicas, sistemas eletrônicos, softwares, serviços de engenharia e outros insumos podem ampliar significativamente o efeito multiplicador da indústria.
Adensar cadeias produtivas reduz vulnerabilidades logísticas, aumenta o valor agregado regional e cria novos fornecedores.
Não significa imaginar autossuficiência industrial. Nenhuma grande cadeia eletrônica mundial funciona dessa maneira. Significa escolher estrategicamente quais competências podem ser desenvolvidas localmente.
Esse talvez seja um dos debates mais importantes da próxima década. Formação profissional passa a ser política industrial
Toda essa transformação encontrará um limite se a qualificação profissional não avançar na mesma velocidade. O trabalhador da indústria eletroeletrônica continuará sendo essencial, mas seu perfil mudará progressivamente.
A manutenção será mais digital. A produção será mais automatizada. Os equipamentos estarão conectados. Decisões serão apoiadas por dados. Sistemas de inteligência artificial participarão do controle de qualidade, da logística e do planejamento industrial.
O novo ciclo do PIM precisa aproximar empresas, universidades, institutos tecnológicos, escolas técnicas e organizações de trabalhadores.
Para o SINAEES, esta deve ser uma agenda prioritária. A defesa do emprego industrial precisa incluir a qualificação tecnológica permanente dos trabalhadores que já estão