“A proposta de reduzir a reserva legal na Amazônia reacende um debate estratégico sobre o futuro do país e reforça um princípio cada vez mais evidente na ciência e na economia da floresta: desmatar não é desenvolver”
Alfredo Lopes analisou com maestria, em texto publicado no dia 04/03/2026, “O suicídio hídrico do agronegócio brasileiro” a respeito do Projeto de Lei 551/2019, de autoria do senador Mecias de Jesus, que propõe permitir a redução da reserva legal na Amazônia de 80% para 50% em propriedades rurais localizadas em estados onde mais de 65% do território já esteja protegido por unidades de conservação, terras indígenas ou áreas federais.
Vou adicionar alguns aspectos ao texto que apresenta razões mais do que contundentes para a inadequação deste projeto. Para além da chuva e do equívoco que é desmatar a Amazônia para mais “agro”, a redução das áreas protegidas afeta o ecossistema da floresta. A indicação de limite de 20% que existe na legislação atual é muito acertada e, para alguns, até excessiva. Há outros usos além de agricultura para o solo Amazônico.
Leia o texto citado aqui:
A começar com o uso industrial que já existe, poderíamos incrementar o uso científico da riqueza potencial da biodiversidade. Para que ela deixe de ser potencial, precisaremos estudá-la e não a doar, nem adicionarmos mais pasto ou soja. Há outras regiões no Brasil que ainda podem ser aproveitadas para a agricultura ou pecuária.
Não precisamos adicionar mais território a partir da floresta. O que precisamos é usar a floresta e os seus potenciais. A eventual flexibilização de uma das principais salvaguardas do Código Florestal para o bioma amazônico é perigosa e desnecessária. Afinal, nem usamos os 20%. Para que mais áreas?
O fato de estarmos preservados não nos impõe a obrigação de destruir. Ao contrário, deveríamos nos esforçar para potencializar esta preservação. Não há desequilíbrio econômico – o que falta é um efetivo uso econômico destes territórios da região ou mesmo um maior uso dentro do que já existe.
Precisamos parar de acomodar o discurso destruidor no meio do discurso de desenvolvimento. Romper a visão de que só na economia agrária é que há espaço para o progresso nacional. Este hábito do passado precisa ser transcendido, até porque ele carece de uma lógica mínima, quando se verificam os indicadores de desenvolvimento humano dos diferentes tipos de atividades econômicas do país.
“A floresta amazônica não é apenas um patrimônio ambiental”, como afirmou o Alfredo Lopes e adicionou “ela funciona como infraestrutura climática da produção agrícola do país”. O Amazonas é um hábil Estado industrial. O Pará é um hábil Estado de produção mineral. O Amapá tem um belo histórico mineral e poderá ter um futuro próspero na indústria petrolífera. E tudo isso sem ampliar arcos de desmatamento. Precisamos aproveitar os potenciais da floresta. Quando teremos investimentos maiúsculos no desenvolvimento científico para uma indústria a partir da floresta, tal qual foi feito para a atividade agrícola?

Por que temos tanta resistência em cruzar as fronteiras extrativas? Elas exigem diálogo institucional e adição de valores. Elas exigem trabalho árduo e alta dose de fracasso para se chegar ao sucesso. Parece que insistimos nos ganhos fáceis e rápidos e, por isso mesmo, menos rentáveis e mais destrutivos.
A Amazônia nos impõe uma calma por sua grandeza. Uma temperança por conta de suas forças, mas, ao mesmo tempo, uma potência oculta que precisa ser desbravada com mais cuidado, pelo bem da “fábrica de chuva da Amazônia” e pelo bem de uma prosperidade única que poderemos extrair desta biodiversidade.
