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A corrupção nossa de cada dia   

Que relação existe entre a definição dos caminhos que queremos para a Ciência, Tecnologia e Inovação no Amazonas com as manifestações de milhões de brasileiros pelas ruas do país, neste 15 de março, tão simbólico para a retomada da Democracia?  Os manifestantes gritavam nas ruas sua indignação com a corrupção assustadora que tem açoitado o Brasil nas últimas décadas. Entre as lições do evento, ficou a certeza de que é possível aplainar caminhos mais adultos e conscientes do exercício democrático e fazer da indignação uma ferramenta de mudança. De quebra, restou a percepção de que a política não é necessariamente corrupta e que seu desempenho em outro nível pode ser a chave dos avanços da participação social. Cabe lembrar, a propósito,  uma frase de Marina Silva, ex-petista e conhecedora, em sua história, dos meandros da exclusa social e do poder: “A corrupção não é um problema da Dilma, do Lula, do Fernando Henrique, nem do Collor, nem do Sarney. A corrupção é um problema nosso. Enquanto se achar que o problema é deles, vamos continuar a ter corrupção feia. No Brasil, quando decidimos que a escravidão era um problema nosso, acabamos com a escravidão e quando decidimos que a ditadura era um problema nosso, reconquistamos a democracia”. Apenas acrescentaria: quando decidirmos, em conjunto, os caminhos da mudança, que implica numa conversão de atitudes, iremos formular em mutirão um Programa/Plano Estadual/Regional/Amazônico de Ciência, Tecnologia e Inovação, transformando-o em fator de um novo tempo.

Após semanas de conflito em cima da hipótese de eliminação da pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação, um dos mais afoitos críticos do governo,  verdadeira trombeta a gritar contra a junção racional de Planejamento, com Ciência e Tecnologia, é premiado com a Secretaria Nacional de Ciência, Tecnologia e Inclusão social do governo federal. A decisão implica, mantido o paradigma reinante, a permanência do tratamento hostil no trato com os atores estaduais. Essa tem sido uma conduta – atestado da imaturidade democrática reinante – que tem-se repetido na leitura e atitude vesga da relação entre política e gestão pública, onde atores do pacto federativo, que divergem na área política partidária, tratam-se como inimigos na gestão do interesse público. São condutas próprias daqueles que fazem do serviço público uma área de seu quintal. É importante lembrar ainda que esta foi a metodologia de esvaziamento da Suframa, onde os atores misturaram os alhos da questão eleitoral com os bugalhos da gestão cotidiana daquela autarquia, ajudando na perda do bonde da legalidade e a autonomia de sua autoridade para usar as verbas não-orçamentárias que recolhe, para cumprir o que a Constituição lhe confere.

A ZFM se desindustrializa e não há tempo nem faz sentido priorizar a futrica política em detrimento do interesse comum. Os cientistas, educadores, os empresários padecem da mobilização proativa na busca de saídas, uma função do gestor público e da classe política como um todo. Afinal, é da ZFM que sai a maior parte do ganha-pão geral. Daí a importância de aproximar academia e setor produtivo, suas entidades e demandas. Além da UEA é preciso mobilizar as demais instituições de ensino, pesquisa e extensão para formular o Plano Estadual/Regional de Ciência, Tecnologia e Inovação, coerente com a bio e geodiversidade da identidade natural e cultural amazônica. Sem preconceitos nem arrogância no trato interpessoal e institucional. Antes de estabilizar o clima e proteger a floresta, parece que é preciso salvar a relação das pessoas, corrompidas por um individualismo obtuso. Essa corrupção micro pouco se distingue, na natureza, da macro distorção. Trabalhar pela correção da corrupção nossa de cada dia pode ajudar a evitar – com escolhas políticas transparentes – a corrupção que corrompe a brasilidade que somos nós. As manifestações de ontem demonstraram que somos capazes de defender objetivos comuns, portanto de ter esperança num país mais transparente, onde o outro somos nós e o que importa na relação é resguardar o interesse de todos, sagrados e assegurados na caminhada de cada dia.

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Entrevista com Antônio Silva – presidente da Fiam

Líder empresarial regional reconhecido nacionalmente, ora ocupando a vice-presidência da Confederação Nacional da Indústria, Antonio Carlos da Silva, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas, e membro do Conselho Administrativo do Grupo Simões, circula entre os alunos do Barco-Escola do Senai-Sesi, Sumaúma I e II, com a mesma desenvoltura e espontaneidade com que discute os destinos da Zona Franca de Manaus com o ministro do Desenvolvimento, seu companheiro de indústria, o empresário Armando Monteiro. Simplicidade, clareza de propósitos e carisma na arte de mobilizar pessoas em torno de objetivos e projetos mobilizadores, Antonio reconhece os momentos difíceis da economia e do modelo ZFM, razão pela qual convida a todos para a luta sem ingenuidade e com obstinação, “em nome da superação e da esperança”. Confira.

Antonio Silva fieam

Follow-Up – Os indicadores do IBGE sobre o desempenho da indústria do país mostram o Amazonas nas últimas colocações da produção industrial. A que o senhor atribui isso?

Antonio Carlos da Silva – Os tempos estão difíceis, não apenas para o Amazonas. A indústria da Zona Franca atende preferencialmente o mercado interno, com produtos de qualidade e com preço competitivo. Portanto, qualquer abalo na economia do país abala o parque industrial local. Atualmente a indústria brasileira aproxima-se dos patamares do pós-guerra na construção do PIB. Estamos com uma participação abaixo de 12% e isso também se reflete na indústria da Amazônia, é por isso que a ZFM precisa estar atenta e integrar-se ao país, razão pela qual, é importante reunir a força parlamentar regional. Sozinhos, com uma bancada restrita, fica mais difícil.

FUp – Qual o atrativo para outros estados de juntar a bancada regional além da defesa da ZFM? 

AS – Há três anos a Suframa não faz convênios com os municípios da Amazônia Ocidental e Macapá-Santana, onde está sua atribuição constitucional. Faltam recursos para viabilizar portos, aeroportos, agroindústria, estradas vicinais, pequenas centrais elétricas etc. E também faltam recursos para aplicação em P&D para as instituições e projetos de perfil público-privado, como havia anteriormente. A Universidade do Acre, por exemplo, foi construída com essa verba. E agora os recursos são confiscados e usados para outras prioridades federais. Por isso temos que juntar os governadores e parlamentares, como ficou combinado na primeira reunião do ano com as entidades do setor produtivo e o governador José Melo. No âmbito da indústria da Amazônia Legal, já existe essa união, pois recentemente tivemos uma reunião das Federações das Indústrias dos nove estados, que compõem o Pró-Amazônia, com o Ministro do MDIC, Senador Armando Monteiro, a fim de fazermos reivindicações importantes para dinamizar a indústria. Temos que reiterar essa união, na próxima reunião do CAS, o Conselho de Administração da Suframa, onde outrora os problemas do modelo e da região eram debatidos.

FUP – Há 7 meses o CAS não se reúne. Isso dá a medida do esvaziamento da Suframa?

AS – Estive com o ministro do Desenvolvimento, o companheiro Armando Monteiro, no início do mês, e expus essa situação da Suframa, das verbas contingenciadas, algo em torno de R$ 3 bilhões nos últimos anos e o fim dos convênios com os municípios do interior, no âmbito da Autarquia. Obtive dele o compromisso de presidir ainda este mês a reunião do CAS e assegurar sua presença no cronograma anual do Conselho. É preciso trazer para o CAS a discussão e decisão sobre as questões da ZFM e da região.

FUP – Como vice-presidente da CNI, a entidade nacional da indústria, qual o papel dessa articulação com as entidades para a ZFM?

AS – É muito forte e organizada a presença da CNI junto aos órgãos de poder. Foi decisiva essa articulação para mostrar aos demais estados que a economia da ZFM não é uma ameaça e sim uma parceria para a geração de oportunidades em todo o território nacional. Nossa aproximação com a FIESP, historicamente refratária a um entendimento, hoje é de parceria construtiva. Basta ver os reflexos no apoio dado à prorrogação dos incentivos da ZFM. Eles compreenderam que há um polo de indústrias de componentes em São Paulo para atender nossa demanda de insumos. E tudo isso é fruto de uma boa vizinhança que a CNI permite e incentiva.

FUP – E o trabalho das entidades do Sistema S, cujo alcance às vezes remete a políticas públicas de educação e cidadania. O sistema tem essa pretensão?

AS – Trabalhar por Educação e Cidadania é dever de todos, é um pacto de toda a sociedade. Hoje a FIEAM e as entidades a ela associadas estão presentes como protagonistas do Pacto pela Educação. E isso não é público nem privado. É um grande acordo para promover o Amazonas e sua integração com o país. A FIEAM tem essa visão mais ampla de olhar a sociedade como um todo, cobrar do poder público e da classe política a tarefa de cada um com a consciência do dever cumprido, de fazermos nossa parte.

FUP – E nesse Pacto mais amplo, o que vale a pena destacar?

AS – Tive uma experiência muito emblemática com a formatura da primeira turma do Barco Samaúma II, no último dia 3 de março. Ver e sentir o orgulho, a alegria daqueles jovens e de suas famílias, os primeiros alunos formados no novo Barco-Escola do SENAI, no longínquo município de Tefé, no rio Solimões, foi muito gratificante. Depois de quase três meses de cursos em várias modalidades, 756 alunos receberam o certificado de conclusão. Foram 22 cursos oferecidos na nova embarcação-escola. Isso nos leva a uma reflexão sobre o sentido do trabalho na vida das pessoas. O sentido da superação e da esperança na vida daqueles jovens e de quem acredita no Amazonas e no Brasil. Isso deve nos tocar, aproximar nossos compromissos, partilhar esforços e talentos. Neste momento difícil que o país atravessa, vamos debater e exigir a participação da indústria nas decisões com espírito construtivo. Não podemos, porém, perder a esperança, pois temos um país rico, um estado abençoado que nos convida a trabalhar. Naquele dia, há 35 anos, no mesmo município de Tefé, era inaugurado o Samaúma I, e desde lá, foram qualificados 52 mil alunos pelo Barco-Escola.

FUp – É esse o espírito visionário que permeia o Instituto SENAI de Inovação – ISI?

AS – Como avançar na consolidação e interiorização do modelo sem investir em inovação? Esta é a raiz e o ponto de partida do ISI – Microeletrônica. Temos uma luta descomunal para conquistar a competitividade. Dela dependerá nossa sobrevivência. Para isso, temos que equacionar os gargalos de transportes, comunicação e energia, um custo elevado para as empresas. Entretanto o investimento em recursos humanos é o mais prioritário, pois sem educação não iremos a lugar algum. Nossos jovens precisam pensar com inovação e criatividade. Assim as empresas terão massa crítica, gente qualificada, talentos desenvolvidos para agregar valor. Educação é o único caminho para virar esse jogo, melhorar o padrão de tantos jovens, carentes de oportunidades. Foi com esses propósitos que surgiu o ISI, uma decisão determinada a atender às demandas locais de inovação, nosso gargalo tecnológico. Vamos atrás da competitividade apostando na infraestrutura e qualificação de recursos humanos. Fomos atrás do modelo alemão que articula as demandas das empresas, o perfil dos projetos e a necessidade de inovação, à vista do mercado. Com esse formato, produtos e empresas foram criados com base na inovação. O ISI dará ênfase à Microeletrônica, com sensores capazes de identificar bionegócios na biodiversidade amazônica. Faremos um GranPrix de inovação em abril com distribuição de prêmios para os melhores projetos.  É a indústria, fazendo sua parte.

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Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

‘Indústria destruída’

O país se mobiliza. E suas forças produtivas se recusam a receber passivamente as medidas de seu tropeço. Mais do que nunca assumem, por dever e responsabilidade, o protagonismo das decisões. Não é apenas a indústria que se vê destruída a cada dia. São as utopias de uma sociedade. Basta de assentir com a insensatez de medidas temerárias que põem em risco a história de vida e de luta de cada um, dos percalços para construir um país próspero, fazer de um país grandioso em recursos uma nação respeitada e respeitável. E essa consciência e insistência no protagonismo estão na raiz de um Documento – em fase final de edição – que reconhece nas taxas de juros, câmbio, burocracia e carga tributária, as bases de corrosão da competitividade que está destruindo a indústria brasileira. As entidades de classe do setor produtivo, unidas às centrais sindicais mais representativas do país, decidiram somar esforços para pedir mudanças na política econômica e medidas que permitam estancar a chamada “desindustrialização”, recuperar a competitividade do setor produtivo brasileiro e a manutenção dos empregos. O Documento ganhou a adesão das lideranças empresariais da Zona Franca de Manaus e se fará acompanhar de outra manifestação, a ser encaminhada aos parlamentares federais do Amazonas, para que acompanhem a discussão da matéria no Congresso com a informação sobre seus reflexos e estragos na economia local e regional.

Competitividade e Desenvolvimento

O Manifesto, denominado Capital-Trabalho, uma coalização para a competitividade e o desenvolvimento equivale a um levante político dos mais densos. Trata-se do resultado de mobilização das categorias que geram riqueza no país, pagam a “parte do leão” em termos de percentual tributário e são coagidas a aceitar medidas descabidas para corrigir ações e distorções administrativas. Ali está expressa a participação de mais de 40 entidades industriais, pilotada pelas lendárias e combativas Associação Brasileira da Industrial Têxtil e de Confecção(Abit), a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a Câmara Brasileira da Indústria a Construção (CBC), o Instituto Aço Brasil, (IAB) além das principias centrais sindicais como Força Sindical e CUT. A intenção é divulgar o documento junto à opinião pública, endereçá-lo à presidente Dilma Rousseff e envolver o tecido social no debate das questões que lhe dizem respeito, interferem em sua vida e podem modificar seu futuro.

Câmbio, juros, tributos, infraestrutura

Como fazer ajuste fiscal em cima de aumento de impostos e redução de investimentos, sem mexer no custeio. Todos defendem ajuste da Economia, mas a expectativa, ao menos da área industrial, era que o ajuste fosse feito muito mais voltado para corte de despesas. Reduzir o Reintegra, o Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários, de 3% para 1%, tem um impacto perverso no setor. Ninguém tem dúvida que o ajuste fiscal é prioridade absoluta e tem por objetivo criar condições para que o país cresça. Mas se não tiver indústria, na hora que estiver pronto o ajuste, não haverá crescimento. O dólar ainda está defasado historicamente, e no médio prazo será absorvido nas empresas da ZFM. O problema assustador é questão dos juros, que com esse novo aumento piorou ainda mais, voltou a ser o mais alto do planeta, a carga tributária, a falta de infraestrutura que afeta custos de logística.

Sequela social

O compromisso de empresários e sindicatos é algo extraordinário e tem razão pontual, decisiva… salvar a indústria. O emprego entra em queda, muitas indústrias estão fechando, outras indo embora. O remédio está errado. Cortar a cabeça de quem está com dor de cabeça não resolve o problema, agrava. O ajuste fiscal tem outras frentes a atacar como a taxação de grandes fortunas e da remessa de lucro das empresas, argumentam os representantes de trabalhadores. Segundo informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em janeiro as demissões superaram as contratações em 81.774 empregos. Foi o pior resultado para meses de janeiro desde 2009. Em Manaus, a situação não é diferente. No setor de construção, janeiro é o mais negativo desde 2008. É preciso rever o foco de política econômica, que só reduz a atividade econômica. Não somos contra ninguém. O que queremos discutir e propomos são diretrizes na linha de não ser criar um ambiente recessivo.

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Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

C&T&I: que caminhos queremos?

Enquanto as críticas cosméticas sobre os riscos de extinção da Ciência, Tecnologia e da Inovação no Estado se desmobilizaram em  lamúrias estéreis é hora voltar à argila da construção e retomar, a propósito, o  estudo de viabilidade do Parque Tecnológico de Produtos Naturais para o Polo Industrial de Manaus. As razões são as mais prosaicas e remetem à obviedade de mobilizar atores e propostas que promovam a sinergia dos objetivos comuns dessa aproximação fecunda entre a academia e a economia. Constituída sob a batuta da UEA, e mediada pela dinâmica animação da  Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas, a iniciativa  já consolidou intuições clássicas, todas amparadas numa certeza: em lugar de chorar pitangas, vamos fabricar lenços com suas fibras.

O que compete ao Planejamento do Estado neste momento – em que a obviedade da inovação tecnológica emerge como uma concordância absoluta e impostergável – senão promover, num formato de interatividade holística, a junção de atores públicos e privados que digam o que estão produzindo, demandando e podem integrar  para racionalizar custos, adensar resultados e fazer circular os benefícios de C&T&I? É claro que isso remete à liderança acadêmica organizada e arrojada, a proatividade das entidades de classe, o respaldo político para viabilizar as mudanças e a mobilização geral na direção de configurar  a cadeia do conhecimento com as cadeias produtivas na perspectiva do mercado, única forma de conquistar efetivo crescimento econômico e promover a interiorização do desenvolvimento.

Eis, pois, as premissas da aproximação institucional de UEA/FAPEAM/CIEAM e FIEAM, universidade e chão de fábrica,  implantada formalmente  em dezembro último, com colaboração especial da Universidade de São Paulo, o companheiro Jacques Marcovitch, cuja visão de pioneirismo brasileiro trouxe para o Amazonas um convite para reflexão sobre nossos pioneiros, suas contribuições e lições da viabilidade de nossas utopias. O mote é contundente e intransferível: mobilizar as ações em curso e aquelas que ficaram pelo caminho por falta de apoio, profissionalismo, ou visão de mercado. É curioso, oportuno e necessário  recordar, por exemplo, para refletir e adaptar a correlação entre academia e economia na perspectiva do projeto indiano, um dos Brics que olhou para Ciências da Computação, Bioengenharia  e Engenharia Digital, inseridas na perspectiva da inovação. Com apenas cinco anos de incentivos fiscais e um modelo  tecnológico bem delineado, eles atraíram investidores e financiaram a estrutura de pesquisa. Com o Instituto Indiano de Ciências, o de Bioinformática e Biotecnologia Aplicada e o de Tecnologia da Informação, três mil laboratórios de pesquisa produzem soluções digitais e produtos da bioindústria para o planeta.

São quase 50 anos de incentivos fiscais do modelo ZFM. É bem verdade que neste período, apesar de discretos indicadores, o Amazonas saiu na frente no desafio de agregação tecnológica à indústria de transformação e se destaca nos primeiros lugares no ranking nacional de investimentos  em inovação tecnológica, notadamente no quesito microeletrônica. É preciso, agora, determinar essa etapa específica e coerente do desenvolvimento cientifico e tecnológico e então disponibilizar um cardápio de serviços para investidores e parceiros da indústria do conhecimento. Aqui, porém, não importa copiar ou vetar este ou aquele modelo global, adaptar ou transplantar suas premissas. Interessa afirmar apenas e tão somente antes de seguir em frente: que caminho queremos?

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Entrevista com Muni Lourenço, presidente da FAEA

Muni Lourenço

Uma liderança empresarial nova e atuante no Estado, o pecuarista e presidente da Federação da Agricultura do Estado do Amazonas, Muni Lourenço, integra uma elite pensante dos novos cenários de um Amazonas mais próspero e mais equilibrado na distribuição e geração de riquezas. Sua presença na Ação Empresarial, no Conselho de Administração da Suframa e nos órgãos de gestão federal do setor primário sinaliza avanços, integração, visão de futuro e modernidade. Confira…

Follow-Up – Com quase 50 anos da ZFM e a prorrogação promulgada até 2073, qual sua avaliação sobre os benefícios/expectativas para o setor agropecuário no Estado?

Muni Lourenço – Nossa expectativa é que nesse período da Zona Franca de Manaus prorrogada possamos construir um Amazonas novo, com mais desenvolvimento econômico e social nos municípios do interior do Estado, coexistindo com o nosso Polo Industrial de Manaus, que queremos cada vez mais pujante. Com os 50 anos da prorrogação da ZFM, nós, do setor rural, temos a esperança de que as políticas públicas possam emprestar grau de prioridade ao setor primário, isso sobretudo na perspectiva de geração de oportunidades de emprego e renda para os amazonenses que residem e trabalham no interior. Óbvio que sabemos da complexidade da busca pela interiorização de nossa economia, mas será pouco inteligente se em 2073 continuarmos com o elevadíssimo grau de concentração econômica na capital, condição que nos parece incômoda, face a dependência quase que total, de um Estado inteiro, das riquezas produzidas por um único segmento, no caso o PIM.

FUp – As entidades da indústria insistem na necessidade de implantação de novas matrizes econômicas para interiorizar/regionalizar a economia da ZFM. Quais as exigências e premissas dessa proposição no ponto de vista do setor primário?

Muni – É premente que nosso Estado implemente atividades econômicas complementares ao Polo Industrial de Manaus, notadamente segmentos que tenham como base insumos regionais, aproveitando assim racionalmente nossas riquezas, proporcionando sustentavelmente resultados econômicos e sociais a partir do setor primário, da aquicultura, das atividades decorrentes da biodiversidade, dentre outras. As premissas dessas novas matrizes econômicas são de que a exploração produtiva decorra de processos caracterizados pela sustentabilidade econômica, social e ambiental. Ademais, não é difícil vislumbrar que temos plenas condições de começar a conectar melhor as linhas de produção do PIM com os insumos regionais, para que a exemplo da nossa borracha extrativa, já utilizada na fabricação de pneus para as motocicletas e bicicletas fabricadas no PIM, outros mais exemplos sejam tornados realidade, para o bem do Amazonas e de sua população.

FUp – O Decreto 288/67, que criou a ZFM, preconizava o Distrito Agropecuário, hoje praticamente abandonado. O que seria necessário para sua recuperação funcional e econômica?

Muni – Muito importante ressaltar realmente que o Decreto 288/67 prevê que a Zona Franca de Manaus existe para fomentar o desenvolvimento dos três setores econômicos, daí surgiu a iniciativa da SUFRAMA em criar o Distrito Agropecuário que, já há alguns anos vem enfrentando severas dificuldades para a viabilização de seus empreendimentos. Os principais entraves atuais ao Distrito Agropecuário são a morosidade na regularização fundiária dos imóveis rurais dos produtores lá instalados, o que restringe enormemente a possibilidade desses empreendedores terem acesso a crédito rural, sem falar na insegurança jurídica de quem produz e não tem o documento da terra. Além disso há uma carência no Distrito Agropecuário de infraestrutura, principalmente na parte de eletrificação rural e manutenção das vicinais denominadas de ZF’s, o que dificulta o escoamento da produção. Em nossa opinião o Governo Federal deveria incrementar o orçamento e a disponibilidade financeira da SUFRAMA para investimentos no Distrito Agropecuário, área que melhor apoiada e dada a sua proximidade de Manaus, poderia se transformar em um “celeiro” de produção de alimentos para diminuir o custo da cesta básica e a dependência de importação de alimentos de outras regiões para abastecimento da capital amazonense. Agora, é bom que se diga, até para provar que o Distrito Agropecuário da SUFRAMA tem condições de dar certo, é que com todas essas dificuldades, temos lá, em produção, boa parte das granjas de ovos, grande extensão de lâmina d’água com criação de peixes e atividade de citricultura, com empreendimentos que até exportam laranja para Roraima.

FUp –  Borracha, castanha, fibras, as vedetes do extrativismo, ainda podem ocupar destaque na economia regional? O que precisa ser feito, em caso afirmativo?

Muni –  Com certeza a nossa borracha, a castanha e as fibras naturais podem sim se destacar, principalmente porque no caso da borracha, o Brasil não produz o suficiente para seu parque fabril, tendo que importar de outros países. A castanha indiscutivelmente tem enorme mercado no Brasil e no mundo e as fibras de malva e juta tem grande utilização na produção de sacaria e agora com perspectiva de novos usos, para a indústria da construção civil, automobilística e da medicina. Agora a nosso ver, a produção extrativa precisa continuar a ser fomentada, até pela relevância social, mas também devemos investir no cultivo racional, que possa permitir maior escala econômica a essa produção. Um exemplo disso, é a difusão do plantio racional da seringueira tricomposta, desenvolvida pela EMBRAPA, resistente ao mal das folhas.

FUp – A Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas está apoiando o 11º Encontro Brasileiro de Bubalinocultores em Manaus. Criticada pelos ambientalistas, essa atividade traz avanços para a economia regional?

Muni – Com muito orgulho a FAEA irá sim apoiar a realização do XI Encontro Brasileiro de Bubalinocultores, promovido pela Associação Brasileira dos Criadores de Búfalo – ABCB, a Faculdade de Ciências Agrárias da UFAM, e o criador Rodrigo Baraúna Pinheiro, evento de renome nacional e internacional que pela primeira vez será sediado no Amazonas, Estado com o terceiro maior rebanho do Brasil. Temos convicção que a criação de búfalos, atividade plenamente adaptada às condições da Amazônia, é um desses segmentos complementares ao PIM. Nós produtores rurais sempre procuramos o “caminho do meio”, acreditando que é possível um ponto de equilíbrio entre produzir alimentos e preservar o meio ambiente. Para nós não há antagonismo entre produção rural e promover o desenvolvimento sustentável, até porque dispomos hoje de tecnologias que viabilizam o aumento da produtividade agropecuária sem gerar novos desmatamentos, com isso estamos desenvolvendo no Amazonas um modelo de desenvolvimento agropecuário que não é e não será predatório com a natureza. Com apoio do Sebrae, Suframa, CIEAM e FIEAM e outros parceiros federais e regionais, este evento cumprirá, também, o papel de vitrine para inúmeras oportunidades de negócios do setor primário.

Desindustrialização e arrocho

A indústria brasileira vai precisar de muita criatividade para contornar a expectativa de novos percalços na gestão de sua sobrevivência. A devolução da Medida Provisória 669 – à parte o estremecimento político que entorna o clima de animosidades em curso – já tem seu contraponto para assegurar a elevação das alíquotas em 150% de contribuição para a Previdência das empresas sobre sua receita bruta. Este estrago vai atingir 56 setores produtivos, alguns contemplados com o benefício desde 2011. Adeus à redução dos gastos com a mão de obra, estimulação do mercado de trabalho e, alento à competitividade. Alguém teria que arcar com as sequelas do amadorismo e a corda começa a romper no segmento em que está mais corroída. A participação da indústria no PIB decresce a patamares do pós-guerra, menos de 12%, quando o Brasil era predominantemente agrário. Passamos de 25% nos anos 80, para 13% no ano passado. É bem verdade que a tendência é universal, mas se agrava no Brasil pela fragilidade de sua infraestrutura, a insensatez burocrática e, principalmente pela voracidade tributária. No caso das indústrias, o recolhimento de 2,5% vai abranger empresas do segmento têxtil, aves e suínos, móveis, brinquedos, medicamentos, fabricação de aviões, navios e ônibus, material elétrico, equipamentos médicos e odontológicos, pneus e câmaras de ar, tintas e vernizes, borracha, vidros, entre outros. E o que tem a ver com isso a bancada parlamentar do Amazonas e da Amazônia Ocidental? Tudo e o que mais vier. Essa lógica de fazer benemerência ou pagar penitência com o chapéu e a devoção alheia não tem limites e o alcance de seus danos é imprevisível.

(Foto: Igo Estrela)

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Sob o pantanoso domínio do laissez-faire

Encerrados os festejos de aniversário da Zona Franca de Manaus, e dos esquecidos alicerces jurídicos e operacionais do modelo de incentivos fiscais, regidos pelo Dec-Lei 288/67, é hora de reler, ajustar e fazer valer o sentido e a urgência de seu arcabouço legal. Não dá para seguir em frente sem recuperar o alcance e a necessidade deste marco regulatório.  E sem esta obviedade jurídica, com certeza, caminharemos às cegas e sem ter a quem apelar nem onde apoiar, posto que se não há lei não há crime, momento seguinte se instaura o império do laissez-faire, onde tudo vale e não adianta reclamar direitos. No propósito de retomar o fio da meada outra saída não há, neste momento de indefinição funcional e operacional, que não seja o caminho da Lei. E é nesse contexto que se insere a discussão do remanejamento/extinção da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação, alvo de retumbante alvoroço que poderia muito bem pautar, coletivamente, as diretrizes de um novo projeto de Amazonas e Amazônia Ocidental, onde se insere o papel da pesquisa e inovação tecnológica. Ficar debulhando sem sair do lugar o mesmo tema, e não pontuar a legalidade que lhe dá suporte é ir a lugar algum, na lógica perigosa e marginal do lasaiz-faire. A Constituição do Amazonas não estabelece a estrutura administrativa que cada governante deve adotar para cumprir a lei maior do Estado no que diz respeito a C&T&I. Entretanto, é muito clara em assegurar que se cumpra a aplicação de ao menos 1% da arrecadação em Ciência e Tecnologia, com eficiência e participação da sociedade. Garantida a legalidade, resta apenas um grande desafio de melhor comunicação e transparência de gestores e do tecido social em interação.

 

 

Sed Lex

A mesma lógica se aplica ao debate da escolha do novo superintendente da Suframa. Também aqui o ponto de partida é a atenção à frieza da Lei, ao conhecimento e capacidade de mobilizar o tecido institucional e social para recuperar a ação da Suframa, suas atribuições e tarefas a cumprir, tendo em vista o dinheiro que recolhe e as atribuições que lhe competem. Quem tiver o perfil com essas premissas que seja aclamado. Os caminhos, assim como as lições destes 48 anos, nós sabemos de cor, só nos resta caminhar, fazer o dever de casa, principalmente, emprestar apoio, energia e compromisso ao desafio da legalidade. As leis, regulamentos e portarias ordinárias, que complementam a ação da Lei Maior são absolutamente claras na definição dos caminhos a seguir. O que não dá é para caminhar com os recursos confiscados arbitrariamente, R$ 1,4 bilhão nos últimos 10 anos, Taxas pagas pelas empresas para que a Suframa cumpra os serviços que lhe cabem oferecer. Esta, sim, é uma discussão relevante, pois dessas verbas saíram obras como a Universidade Federal do Acre, as estruturas e iniciativas de desenvolvimento da Suframa nos demais municípios da região, estradas vicinais, portos, geradores de energia, agroindústrias e uma infinidade de convênios de promoção de oportunidades. Nessa mesma lógica, é pura contravenção a ilegalidade da aplicação das verbas de P&D, R$ 1,3 bilhão nos últimos anos, de acordo com dados da própria Suframa. Verbas que seriam suficientes – em qualquer país sério – para fazer uma revolução tecnológica, como repetia Thomaz Nogueira. Imaginar cenários de aplicação com qualificação dos jovens talentos, implantação de parques tecnológicos, focados nas demandas de tecnologia da comunicação e da informação e na obviedade dos bionegócios, ajuda a entender as sequelas das ações públicas desamparadas do estatuto legal. Essas verbas não apenas deveriam “aprimorar os mecanismos para aplicação dos recursos para P&D, Pesquisa e Desenvolvimento, na região”, como dizia o convite para as entidades, há quase dois anos, com o objetivo de discutir novos critérios para tais recursos. Aprimorar, que significa na base latina, agregar perfeição, remete a brio, esmero, elevação de patamar, quando se fala de verbas de P&D, este volume de recursos, está longe dessa atribuição. Ninguém aprimora em cima de nada e nada tem sido aplicado na região já há alguns anos. Basta ver os relatórios do CAPDA.

 

No contexto da Amazônia Ocidental

No debate da FIEAM, no último dia 5, quando foram lidas as inquietações e proposições do setor produtivo ao governador José Melo, expressas numa carta com a qual S. Exa. manifestou integral concordância, estava em jogo  a busca de novos caminhos, focados na somatória de energia de habilidades, onde foi retomada a proposta de redução do embaraço burocrático, o estabelecimento de um canal de comunicação direta entre as entidades e o governo e, estrategicamente, a mobilização dos atores locais e regionais, incluindo governos e bancadas federais da Amazônia Ocidental para defender a Lei, assegurar seu cumprimento, resguardar a aplicação local/regional dos recursos aqui gerados, com a determinação obstinada de empreendedores e trabalhadores. Um deles, as verbas de P&D, nunca é demais recordar, foi alvo, em 18 de julho de 2013, por parte de FIEAM/CIEAM, de um documento que ainda aguarda um debate consistente, com algumas dessas questões encaminhadas à Suframa.  As entidades se mostravam incomodadas com a indefinição em torno do Centro de Biotecnologia – pago pelas empresas do Polo Industrial de Manaus – e com o redirecionamento dos recursos de biotecnologia para projetos de pesquisa do agronegócio, no Centro-Oeste do país. O documento ponderava a necessidade de promover revoluções nos paradigmas e demandas tecnológicas e desenvolver a inovação das fibras, resinas, bioativos regionais para espalhar oportunidades na área em que compete à Suframa atuar, a Amazônia Ocidental. Um ano depois, verbas que deveriam ser aplicadas na região foram redirecionadas ao programa Ciência sem Fronteira, à revelia dos contribuintes e dos destinatários.

 

A aranha, o molusco e o grafeno

Uma pesquisa desenvolvida na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, de Brasília, e liderada pelo pesquisador Elíbio Rech, desde 2003, levou para indústria a seda de aranhas da Amazônia, um produto com alta aplicabilidade comercial e a forma como pode ser produzida define o conceito de sustentabilidade e uso racional da biodiversidade. Sem colocar em risco o bioma, o mais importante.  Basta conhecer as propriedades e coletar alguns poucos organismos necessários ao produto final sintético. É o caso da artemisina, produzida pela planta artemísia, um forte componente contra a malária. A pesquisa da Embrapa com aranhas começou com a prospecções na Amazônia, de aranhas que produzem fibras e o mapeamento genético das glândulas que produzem as proteínas que vão dar origem à seda da teia, até então considerado o material biológico mais resistente, com maior potencial para ser aplicado em coletes à prova de balas a materiais eletrônicos. Nenhuma coleção da espécie saiu do Inpa ou Embrapa para o laboratório por encomenda do polo industrial de Manaus em 5 décadas. Em janeiro, cientistas ingleses anunciaram que o dente de molusco tem força potencialmente bem maior, numa configuração molecular e proteica. Poucos sabem que há mais de uma década, no quintal de casa, cientistas do Inpa ampliam inventários de moluscos na Reserva BioTupé, com o objetivo de ampliar coleções à espera de transformar essa pesquisa em desenvolvimento e oportunidades. Eis algumas das aplicações promissoras dos recursos confiscados com a complacência geral. O mesmo raciocínio se aplica à associação de nanotecnologia ao grafeno, um tema que vai sacudir a lógica dos materiais e da produção industrial. Investir nessa seara daria ao polo industrial de Manaus associados a outros focos de pesquisa da indústria do conhecimento daria visibilidade, respeitabilidade e inserção da ZFM no sumário da política industrial, ambiental e de ciência, tecnologia e inovação do Brasil. De quebra, esse arcabouço de saber seria bem-vindo ao segmento regional da agroindústria, as cadeias produtivas que utilizam os recursos pagos pela indústria para a interiorização do desenvolvimento, com acertos comprovados pela Afeam, a agência estadual de fomento. Em nome do bom senso, da inteligência proativa e da Lei!!!!

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

 

C&T: comunicação e transparência – Parte II

Secti ou não Secti, ainda é esta a questão? Convenhamos que há uma discreta dose de pavulagem na discussão sobre a extinção da Secretaria da Ciência e Tecnologia do Amazonas (Secti), projeto de reforma administrativa, ora em discussão na Assembleia Legislativa, uma Casa que – é importante anotar – tem padecido de sustança adequada para analisar, debater e encaminhar com autonomia o interesse maior da coletividade. Há um distanciamento crônico dos reais problemas que explicam os desajustes socioeconômicos que o Estado tem experimentado, a despeito de ser exportador de recursos para a União e posar como uma das seis maiores economias do país.

Onde estavam os detratores da mudança – ou extinção da estrutura da Secti – que não se insurgiram contra o confisco das verbas de P&D, promovido pelos arautos do oportunismo com sequelas de múltiplos estragos? E qual a razão do silêncio obsequioso em torno do esvaziamento crescente é conivente do CAPDA, o comitê da Suframa que deveria acolher demandas e debater prioridades de pesquisa na região?

Não seria mais proveitoso inovar e fazer desse reboliço a convocação dos atores dessa trama vital para definir, todos juntos, desarmados e proativos, o rumo a tomar.? Afinal, o que queremos para o Amazonas e para esta região inóspita e descuidada na perspectiva de um Brasil inserido na globalidade em alvoroço? Que modelo de conhecimento assumir, como integrar as ações dispersas e as vaidades superpostas para utilizar os recursos de P&D, formalmente abundantes e frequentemente confiscados ou utilizados sem racionalidade ou articulação? É preciso parar para acertar ponteiros e egos, em nome de um projeto regional, coerente com a vocação de negócios, oportunidades e prosperidade social. Assim, assegurado o pacto de decisões transparentes e compartilhadas, a nomenclatura é um detalhe e o compromisso de avançar em conjunto ganha estatuto da essencialidade.

O fio da seda de algumas espécies de aranhas da Amazônia era considerado o material biológico mais resistente, com maior potencial para ser aplicado em coletes à prova de balas a materiais eletrônicos. Nenhuma coleção da espécie saiu do bioma para o laboratório na perspectiva do polo industrial de Manaus em 5 décadas. Cientistas ingleses foram adiante e descobriram, recentemente, que o dente de molusco tem uma força potencialmente bem maior, numa configuração molecular adequada para fazer diversos tipos de veículos, incluindo navios e aviões do futuro. Aplaudimos os ingleses, certamente, sem saber que há mais de uma década, no quintal de casa, cientistas do Inpa ampliam inventários de moluscos na Reserva BioTupé, com o objetivo de expandir o conhecimento a respeito da sua distribuição na Amazônia. Depois de meio século do modelo ZFM, somente agora academia e setor produtivo somam esforços para viabilizar ações que integrem pesquisa, desenvolvimento, bionegócios, inovação e mercado, num reboliço pra valer, em nome da diversificação produtiva e do atendimento das demandas ribeirinhas, uma sugestão que ensaia comunicação e transparência na proposição das mudanças que se impõem…

ZFM: a interferência desastrosa

O que celebrar, nos 48 anos do modelo Zona Franca de Manaus, “o maior acerto fiscal da história do Brasil para redução das desigualdades regionais”, no dizer do tributarista Airton Claudino, se a Suframa, a autarquia que a administra, perdeu substantivamente sua autonomia ao ter cortados seus recursos não-orçamentários – as Taxas de Serviços Administrativos TSA – confiscados pela União e, em função disso, proibida de promover ações de desenvolvimento e de diversificação econômica na Amazônia Ocidental, onde lhe compete atuar. O mesmo confisco se estende, amplia à revelia da comunidade legalmente beneficiária, com as verbas de pesquisas, recolhidas pelas empresas de informática, para criar mudanças no paradigma industrial vigente. Ao todo, de acordo com dados da Suframa e do CIEAM, foram aproximadamente R$ 3 bilhões, sendo R$ 1,4 bilhão de TSA, confirmados junto ao portal da Receita Federal nos últimos 10 anos, e R$ 1,6 bilhão pelas estimativas da Suframa nos últimos anos, “…valores suficientes para qualquer país sério promover uma revolução em inovação tecnológica, segundo apreciação da própria autarquia. A isso se agregam os constantes embargos de gaveta, promovidos por técnicos da burocracia federal, credenciados com o poder do veto de PPB – Processo Produtivo Básico, necessário para o início da produção industrial na ZFM. Além disso o modelo industrial agoniza pela falta de competitividade no mercado global em virtude dos custos elevados que decorrem de uma estrutura energética, logística e de comunicação, absolutamente precária, onerosa e de equacionamento improvável, no curto prazo. Os indicadores de desempenho no faturamento, que encolhem a cada ano, são o retrato em branco e preto dessa interferência da ação federal, beneficiaria, paradoxalmente, de mais de 54% da riqueza aqui produzida.

Os desvios da constitucionalidade

O retrato da inconsequência que a gestão da ZFM exibe obriga a debruçarmo-nos sobre os Artigos 43 e 170 da Constituição Federal. Ali estão alguns dos fundamentos dos desmandos que remetem à urgente mobilização institucional, política e social para recuperar direitos e responsabilidades, para que se cumpra o Estatuto Constitucional. O Art. 43 é muito claro quando trata das origens e fundamentação do modelo ZFM: “Para efeitos administrativos, a União poderá articular sua ação em um mesmo complexo geoeconômico e social, visando a seu desenvolvimento e à redução das desigualdades regionais.”, detalhando em Lei complementar as condições para integração de regiões em desenvolvimento. Daí se origina a composição dos organismos regionais que executarão, na forma da lei, os planos regionais, integrantes dos planos nacionais de desenvolvimento econômico e social, aprovados juntamente com estes. Para tanto, foram criados os incentivos regionais que compreenderão, além de outros, na forma da lei: “I – igualdade de tarifas, fretes, seguros e outros itens de custos e preços de responsabilidade do Poder Público; II – juros favorecidos para financiamento de atividades prioritárias; III – isenções, reduções ou diferimento temporário de tributos federais devidos por pessoas físicas ou jurídicas; IV – prioridade para o aproveitamento econômico e social dos rios e das massas de água represadas ou represáveis nas regiões de baixa renda, sujeitas a secas periódicas. § 3º – Nas áreas a que se refere o § 2º, IV, a União incentivará a recuperação de terras áridas e cooperará com os pequenos e médios proprietários rurais para o estabelecimento, em suas glebas, de fontes de água e de pequena irrigação. ”

Roteiro preliminar das mudanças

Nos últimos 10 anos, estudos levados a efeito pelo CIEAM, mostram que o gargalo na logística de transportes tem sido o maior embaraço competitivo, obrigando a algumas empresas despender até 20% em sua planilha de custos. Confirmadas os estudos da FEA/USP, segundo o qual 54,42 % da riqueza produzida na ZFM é apropriada pelo Governo Federal, porque não invocar o preceito constitucional para exigir “o investimento de no mínimo 3% de tudo o que é recolhido pelo Governo junto a indústrias em infraestrutura…”’ em nome do enfrentamento das desigualdades regionais. Esse provimento precisa estar atrelado à adoção de outros expedientes, na operação de resgate da autonomia da Suframa, incluindo a utilização da TSA nos termos da Lei, a recuperação dos ditames legais e originais de aplicação das verbas de  P&D, com a reestruturação do CAPDA, o comitê responsável pela aplicação dessas verbas, o que permitiria a  elaboração de um projeto regional de C&T&I, coerente as demandas de vocações regionais, coordenado pela UEA, a Universidade do Estado do Amazonas – maior do Brasil em quantidade de campi acadêmico – com a participação das demais instituições correlatas dos Estados da Amazônia Ocidental e Amapá. Adicionalmente, a criação de um fórum permanente de discussão da autarquia, além da recomposição institucional do Conselho de Administração da Suframa, propiciaria, assegurado o respaldo político da representação parlamentar regional, e envolvimento das entidades de classe, a retomada do papel da Suframa como Agência de promoção do desenvolvimento, previsto nos ditames históricos da Constituição. Assim, com as tábuas da Lei em mãos, não iríamos apenas equacionar o vexame dos buracos nas ruas do polo industrial de Manaus, e dos escombros das edificações da Suframa na Amazônia Ocidental, como um todo. Poderíamos conferir à região o direito universal de ir e vir com a recuperação da BR-319, a modernização dos portos, conferir ao polo industrial de Manaus, a paisagem justa e coerente de um cartão postal. Daí em diante, as interferências danosas seriam enfrentadas com a transparência das condutas, a participação nos conselhos de aplicação dos fundos com finalidades de promoção do interesse público.

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ZFM 48 anos: ‘O melhor acerto fiscal da História do Brasil’

Entrevista com o Airton Claudino

Presente em mais de três décadas em Manaus, no cotidiano do modelo Zona Franca, o secretário de Planejamento do Governo do Amazonas, Airton Claudino, é um observador/ator privilegiado para avaliar os 48 anos deste arranjo fiscal de sucesso: “… o maior acerto na redução das desigualdades regionais baseado em renúncia fiscal da História do Brasil”. Confira!

Follow-Up – Na sua opinião, quais são os principais acertos do modelo Zona Franca de Manaus nestes 48 anos?

Airton Claudino: No cômputo final do projeto de integração nacional e de redução das desigualdades regionais não existe outra iniciativa da União mais exitosa do ponto de vista social, econômico, ambiental e fiscal como a ZFM. É o maior acerto fiscal de nossa História para a redução das desigualdades regionais. De quebra, o modelo transformou a renúncia fiscal em exportação robusta de recursos para os cofres federais, que aqui recolhe metade dos tributos da Região Norte e se beneficia com mais de 54% da riqueza produzida no Amazonas. A grande lição é associar redução de impostos como impulso para novos empreendimentos, com o bônus da preservação, ambiental que beneficia o Brasil e o planeta. O Congresso Nacional reconheceu isso e aprovou a prorrogação sobre a qual nos compete refletir para criar novos arranjos socioeconômicos.

FUp: E quais são os grandes desafios considerando agora as desigualdades entre a capital e o interior e a pobreza da Amazônia Ocidental?

AC: O grande embaraço do projeto, que também é nosso maior desafio, é a dependência quase absoluta da desoneração tributária. Não podemos ficar reféns de uma caneta. E esses acertos de bons resultados descuidaram da infraestrutura para diversificar o modelo. Além disso, ainda é discreto o investimento em inovação em comparação com outros países que investem bilhões em capital humano e inovação tecnológica. Não podemos reclamar os recursos contingenciados pela União se não desenharmos novos projetos, com visão de totalidade, que sejam mobilizadores num espectro mais amplo. Insisto na base de infraestrutura para desencadear o desenvolvimento, pois incentivos sem as premissas da competitividade nos leva a lugar algum. E para avançar na direção de novas bases produtivas, já temos um projeto de ordenamento e estruturação do naval, das alternativas no polo mineral, a microeletrônica, a inovação para os insumos regionais, as cadeias produtivas da Afeam, que são estimuladas com fundos estaduais recolhidos pela indústria. E essas cadeias, de óleos, resinas, fibras, fitoterápicos e de alimentos, são atividades vitais e complementares na integração com o polo industrial aqui instalado.

FUp:  A Lei que criou as Taxas da Suframa -TSA é clara em sua definição: ajudar a autarquia a cumprir sua função constitucional. O que fazer para garantir isso?

AC: Defendo a mobilização de todos para exigir da Corte Suprema que se cumpra a Lei, não apenas da TSA, mas de todos os descasos e infringência constitucional. PPB, por exemplo, não pode ser embargado. Isso trava muitos investimentos no modelo e nos torna reféns de um Grupo de Trabalho federal, que desconhece a região, o GT-PPB. Está na Constituição que apenas 5 itens não podem ser produzidos em Manaus com incentivo fiscal. Na Receita Federal criamos mecanismos legais para, diante de projetos reconhecida, ente essenciais, como modernização da estrutura digital de arrecadação, utilizar verbas não-orçamentárias recolhidas por determinadas sanções administrativas. Por que não adotar essa alternativa legal para deixar na Amazônia Legal, mediante apresentação de projetos, as verbas da TSA e do próprio recurso de P&D? Demandas essenciais é o que não nos faltam. Defendo que o Conselho da Administração da Suframa seja resgatado em suas funções originais, afinal, nele tem assento os ministros do Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia…, governadores, prefeitos das citais. Estes deixaram de aparecer porque não fomos capazes de assegurar as verbas que aqui são produzidas e deixaram de ser aplicadas.

FUp:  E as contribuições das empresas dos fundos estaduais como devem ser tratadas na sua proposta de diversificação?

AC: Em recente encontro com as entidades do setor produtivo, na Federação das Indústrias, o governador José Melo reafirmou seu compromisso de reativar os Conselhos de Acompanhamento dos fundos estaduais pagos pelas empresas, propôs, ele mesmo, a redução da burocracia e a formalização de um canal de comunicação direta entre as empresas e seu gabinete. Isso é muito promissor, pois permite que tenhamos espaço e apoio político para reivindicar a estadualização da Suframa, sem prejuízo de sua gestão federal no âmbito da Amazônia Ocidental. Isso significaria, também, uniformizar cadastros e exigências na linha da simplificação de processos e procedimentos.

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Senai celebra a ZFM com inovação

Enquanto a mídia despeja na opinião pública informações desencontradas sobre a celebração de mais um aniversário do modelo Zona Franca de Manaus, prova do distanciamento nocivo que a sociedade experimenta em relação ao arranjo produtivo e de desenvolvimento que lhe propicia as bases materiais cotidianas, a vida continua e cada um, na medida de seu compromisso, vai fazendo sua parte. Neste clima de desinformação e busca de novos roteiros, vale a pena destacar o projeto que se materializa com o ISI – Instituto Senai de Inovação, uma ideia que saiu do papel para atender às demandas locais de inovação, o gargalo tecnológico de um polo industrial que irá consolidar-se ou desconstruir-se na medida exata em que as premissas de competitividade, infraestrutura e qualificação de recursos humanos sejam ou não aceitas. E em se tratando da busca de novos caminhos, não há melhor debate atrelado a estudos de viabilidade econômica na perspectiva da indústria do conhecimento do que compreender e apostar nas promessas da inovação

Divulgação de competências

Ao ISI Instituto Senai de Inovação, neste momento, caberá o desafio de divulgação das suas competências, a efetiva viabilidade de atender as demandas locais do polo industrial em Microeletrônica, um pacote tecnológico que, habitualmente, as empresas contratam fora de Manaus. Poucos sabem que na área de microeletrônica, o ISI Instituto Senai de Inovação vai atender, em rede, as demandas de inovação de 23 unidades Senai pelo Brasil afora, todas elas articuladas em rede para responder prontamente às demandas nas respectivas competências num ambiente de produção industrial. No caso do ISI Instituto Senai de Inovação de Manaus, a novidade é que os sensores de microeletrônica podem alcançar encomendas para protocolos relacionados a extratos florestais das moléculas. O que abrange Biologia Molecular, e supõe interatividade com o Inpa e demais instituições locais de modelagem com fins bioindustriais de uma cadeia produtiva.

Gran Prix de Inovação 

Projetos com limite de R$ 300 mil para produzir um protótipo para um plano de negócios exequível serão oferecidos para indústria. Trata-se de uma iniciativa da Instituição Senai para transformar o insight de uma Invenção nos desdobramentos necessários da inovação. A ideia básica é compatibilizar academia e economia, pesquisa, desenvolvimento e fomento para inovação. As informações estão no site www.editaldeinovacao.com.br. Este é uma adaptação às condições locais do modelo alemão de produção industrial que aproxima a produção acadêmica das demandas da indústria não apenas para atender às demandas de inovação mas para dizer à indústria o que ela pode adotar para avançar com a ajuda da inovação em produtividade e melhores resultados. O ISI Instituto Senai de Inovação de Manaus – para atender encomendas de inovação – vai mobilizar outras 4 unidades do Brasil relacionadas à microeletrônica. São, portanto, 5 unidades de inovação com laboratórios abertos e atualizados tecnicamente, aptos a executar os protótipos escolhidos pelo Edital. Cada protótipo selecionado receberá R$ 50 mil como prêmio.

Café com a indústria

No próximo dia 3, O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai Amazonas) promove, às 9 horas, na Escola Senai Antônio Simões (Avenida Rodrigo Otávio, 2394, Distrito Industrial) o café de apresentação do Grand Prix Senai de Inovação para empresas Polo Industrial de Manaus (PIM) e organizações tecnológicas do Amazonas. Será o momento inicial da divulgação das competências e oportunidades.  Com o tema “Desafios Regionais Amazonas”, essa será a Primeira Edição do Grand Prix no Estado, competição que tem como finalidade levantar ideias inovadoras que contribuam para os novos desafios enfrentados pelas indústrias locais e nacionais. Durante o café, as empresas e organizações participantes terão a oportunidade de conhecer os desafios do evento previsto para acontecer entre os dias 8 e 10 de abril deste ano, na sede do Senai Amazonas. Os participantes terão ainda a oportunidade de discutir sobre os desafios encontrados na indústria, e apresentar soluções que transformarão significativamente as demandas, visando o aumento da competitividade e um salto à frente em tecnologias do futuro, motivando as Micro e Pequenas Empresas (MPE), empreendedores, estudantes e academias, a proporem pesquisa, protótipos e novos modelos de negócios para o PIM.

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