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C&T, Comunicção e Transparência, já! 

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

Os rumores de extinção da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia do Amazonas (Secti),  no projeto de reforma administrativa do governador José Melo estão causando um delicioso reboliço na chamada comunidade científica. Como os mineiros, no dizer de Otto Lara Resende sobre seus conterrâneos, lembramos apenas da solidariedade na hora do câncer. Com ou sem diagóstico, porém, onde há fumaça há fogo, diziam os antigos e essa moobilização precisa continuar. Precisa, com efeito, indagar a  que veio o veterinário Luiz Renato de França,  diretor do Inpa, imposto pelo governador de Minas, à revelia dos nativos? O que fez, a quem ouviu e o que pretende fazer na investigação dos compostos orgânicos voláteis da floresta? Comunicação e transparência são essenciais no trato da coisa pública. No projeto que trata da reforma administrativa do governo Melo, há indícios de modificações com foco no desenvolvimento regional. Aquilo que Thomaz quis fazer na Suframa e não deixaram. Há uma decisão de enxugar a estrutura e outra de agregar Ciência, Tecnologia e  Inovação ao imperativo do criação de novas matrizes econômicas, especialmete para as comunidades ribeirinhas. É isso? Ali, os indicadores de desenvolvimeto humano enchem a todos de vergonha e a muitos de revolta, à vista da distribuição de riquezas para as instituições do próprio estado, aquinhoadas com recursos que merecem revisão. Auxílio-moradia para magistrados e congêneres, por exemplo, e a relação custo X benefício da classe política saltam aos olhos da indignação.

Seria obtuso extinguir Ciênci&Tecnologia & Inovação, a grande ferramenta de qualificção dos recursos humanos, definição de políticas públicas coerentes para o contexto socioambiental e econômiico,  e  consolidaçã de nossa melhor saída: a indústria do conhecimento. É deficitária na ação dos gestores públicos a formulação clara de  projetos, com alcance amplamente superior  aos cronogramas dos mandatos.  O caminho não é extinção é adequação e fortalecimento dos saberes da ciência e da cultura regional para formular novos caminhos para o desenvolvimento integral e regional. Piscicultura, agregação de valor às cadeias produtivas da Afeam,  potencializar os recursos pagos pelas  empresas de Manaus à UEA e ao CETAM exigem fortalecer C&T&I, e consolidar as instituições  que executam a função de qualificar e graduar os recursos humanos e desenvolver bio-alternativas. É insano extinguir Ciência  e Tecnologia e urgente a iniciativa de racionalizar custos, otimizar recursos, dar transparência e eficiência à dinheirama que as empresas e os cidadãos recolhem aos cofres estaduais.

Que se mantenha mobilizada a comunidade científica, não apenas para gritar contra a extinção da Secti,  mas também, e muitas vezes,  acompanhar e exigir espaço de discussão do novo modelo estadual de pesquisa e inovação atrelada ao desenvolvimento, para denunciar o confisco das verbas federais  de P&D, vitais para a pesquisa de novas modelagens econômicas para a região alcançada pela Suframa, esvaziada, aos 48 anos de idade, de seus pendores gerenciais para impedir o desvio de suas taxas e das contribuições  das empresas de Informática. Convocada pela UEA, a Fapeam, vinculada à Secti, está aproximando academia e economia, com as entidades do setor produtivo, na formulação de estudos de viabilidade de parques tecnológicos de biotecnologia e tecnologia da comunicação e da informação. Comunicação clara de propósitos e transparência permanente no trato do erário, portanto, são as chaves inovadoras de uma tecnologia da transformação que se impõe… Já!

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ZFM, as novas matrizes econômicas

Entrevista com o cientista Niro Higuchi – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)

Niro Higuchi

Niro nasceu no Paraná, em 1952, e trabalha em Manaus, no Inpa, desde 1980.  É Engenheiro Florestal (UFPR 1975), Mestre (UFPR -1978), Doutor (Michigan State University 1987) e Pós-Doutor (University of Oxford 1998). Pesquisador em Recursos Florestais e Engenharia Florestal, com ênfase em Inventário e Manejo Florestal, é  membro titular da Academia Nacional de Engenharia (ANE) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Único brasileiro a receber o prêmio Nobel da Paz, em 2007, com outros cientistas que trabalham na ONU, para estudos e defesa do Clima.

1) Follow Up – Sua premiação pela Fundação Nobel reconheceu seus estudos da floresta amazônica como fator de discussão vital das mudanças climáticas. Como compatibilizar a questão ambiental com o desenvolvimento socioeconômico da Amazônia?

Niro Higuchi – Não há incompatibilidade entre desenvolvimento e meio ambiente quando existe um plano de longo prazo  para orientar as iniciativas de intervenção na floresta. Infelizmente a Amazônia só entra em pauta mediante pressões da imprensa e da comunidade internacional. Uma discussão pontual se instala aqui e ali e depois é esquecida. Esse vai e vem sinaliza descaso, falta de rigor no trato com esse patrimônio monumental que todos os países do mundo gostariam de possuir. Precisamos de um plano persistente, consistente e eficiente de longo prazo para exportar as soluções que a humanidade precisa nessa relação emblemática do homem com a biodiversidade.

2) FUp – Em dezembro último, o Ministério do Meio Ambiente publicou as proibições da flora e da fauna supostamente ameaçadas de extinção no Brasil. Na área de floresta são quase 300 espécies que estão em risco, portanto, são proibidas de manejo. As instituições de pesquisa da Amazônia foram ouvidas na composição da “Lista Nacional Oficial de Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção”?

NH –  Temos na Amazônia os dois maiores herbários do país, o do Inpa e o do Museu Botânico Emílio Goeldi. Não me consta que tenham sido consultados e isso é mais um indicador da distância existente entre os órgãos de gestão e os interesses do cotidiano amazônico. Essa lista das espécies florestais  seleciona alguns itens e, indiretamente, autoriza a utilização sem critérios de outras espécies. Permitir tudo ou permitir nada não é caminho. É preciso cautela quando está em jogo o bioma amazônico, pois falta muito conhecimento, equipamento de Botânica e de Engenharia Genética para amparar decisões. Será que os autores dessa proibição, a definição da lista,  conhecem satisfatoriamente as espécies? A identificação botânica, a ocorrência, as coleções, os protocolos, tudo isso leva anos para definir. Certamente os nativos não foram consultados. Medidas como essa exigem audiência pública, a oitiva dos mateiros, dos empresários, dos engenheiros florestais. O INPA está  produzindo um documento para discutir as razões, critérios e implicações dessa decisão.

3) FUp – Às vésperas dos 48 anos da ZFM, o que a comunidade científica tem a dizer sobre este modelo de desenvolvimento?

NH – Essa zoada política dos inimigos ou da prorrogação da ZFM carece de sentido. Uma grande bobagem. Os paulistas são maioria no polo industrial e eles não vão querer acabar com o próprio negócio. Com a prorrogação o risco agora é novamente o da  acomodação, sobretudo da classe  politica e, em parte, de alguns empresários. Por isso é preciso definir um novo modelo, a destinação dos recursos aqui produzidos para consolidar um modelo alternativo. E eu tenho um sonho a respeito, fundado numa nova indústria, a indústria do conhecimento. Algo similar ao Vale do Silício, cuja matéria prima gerou aquela experiência de êxitos. Nossa matéria prima, além da madeiras, dos genomas e dos minérios, é a do conhecimento do processo evolutivo de milhões de anos na biodiversidade.  Entender esse processo, acompanhar e partilhar as operações ocorridas no bioma amazônico, é extrair a chave de milhares de enigmas no cotidiano da humanidade. O projeto Genoma, do qual cientistas do Brasil participaram, é um exemplo singular do que estou falando. Assim como no Vale do Silício, a premissa é colocar gente talentosa, e inteligente para produzir soluções, exportar conhecimento, a partir dos talentos e da bagagem de mais de 20 mil anos de relacionamento entre o homem e a floresta. O vale da Biotecnologia, da bioengenharia genética, para equacionar os enigmas que atormentam a espécie humana é nossa maior vocação de negócios.

4) FUp – Que outras alternativas econômicas são coerentes com a vocação de negócios da região?

NH – Essa indústria do conhecimento, por si, atrairia múltiplos negócios e muitos segmentos de estudos e de novas oportunidades, para diversificar este modelo que pouco tem agregado em termos de inovação na rotina produtiva. Atrelado a essa atração de novos segmentos,  está um nicho de múltiplos negócios que o turismo representa em suas várias modalidades, além do turismo do conhecimento, o de aventuras, de gastronomia, lazer, o naturismo, entre outras vocações sem similar em outras partes do mundo. Não podemos descuidar também dos fitoterápicos da andiroba, copaíba, entre tantos outros, a indústria das fibras, celuloses e nanoceluloses, resinas. Para isso, porém, é preciso estimular talentos e novas pesquisas.

5) FUp – Você representa a comunidade científica no CAPDA, o comitê que responde pela aplicação das verbas de P&D para a região. O que fazer com esses recursos pagos pela indústria e desviado para outros fins?

NH  É preciso parar para acertar. Os membros deste Comitê não têm poder de decisão, as matérias já vêm decididas à nossa revelia. E a grande saída para a Amazônia é o investimento na indústria do conhecimento de seu bioma. Até esta semana pensávamos que o fio da seda de aranha era o material biológico mais forte, com maior potencial para ser aplicado em tudo, de coletes à prova de balas a materiais eletrônicos. Cientistas ingleses, porém, descobriram que o dente de molusco tem uma força potencialmente maior. Suas estruturas podem ser copiadas para fazer carros, navios e aviões do futuro. Moluscos têm uma língua de cerdas com pequenos dentes para coletar comida de rochas e levá-la à boca, muitas vezes engolindo partículas rochosas no processo. O conhecimento acerca dos moluscos de água doce na região amazônica está longe de ser considerado satisfatório. Desde 2004, porém, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Lago do Tupé, no Negro e o lago Tupé, pesquisadores do Inpa estudam a diversidade de espécies nestes ambientes, com o objetivo de expandir o conhecimento a respeito da distribuição dos moluscos na Amazônia, ampliar o acervo da Coleção de Moluscos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Já  foram encontradas quatro espécies de moluscos, ampliando para 33 o número de coleções da espécie.

6) FUp – Que outras linhas de pesquisa merecem atenção ou prioridade de investimentos para novos negócios na região?

NH – Os cientistas não estão focados nos negócios, essa é uma função do gestor público, que tem a obrigação de aproximar academia e setor produtivo. Nos estudos do Clima, aqui no departamento, estamos estudando os compostos orgânicos voláteis, da sigla inglesa, VOCs, os componentes químicos e bioquímicos presentes em diversos tipos de materiais sintéticos ou odores naturais que se caracterizam por possuírem alta pressão de vapor, o que faz com que se transformem em gás ao entrar em contato com a atmosfera através de um processo conhecido como fotorreação. Vamos caminhar para estudar as emissões da floresta, seus odores, eventuais danos ou benefícios à saúde das pessoas e do clima no curto ou longo prazo. Por outro lado, nesse momento de escassez da água no Sudeste e de ilações apressadas que associam o fenômeno à floresta amazônica, precisamos ampliar os investimentos na gestão da água na região, sua evapotranspiração e dinâmica efetiva e não discursiva, ou acusatória, um instrumento clássico e enganoso de responsabilizar a floresta pelos desequilíbrios climáticos incontornáveis. Em suma, é preciso pesquisar, e ficar de olho nas oportunidades à disposição.

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Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM.
Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

ZFM 48 anos: ‘quem espera nunca alcança’

Engavetadas as fantasias, o Brasil entra em quaresma para retomar o fio da meada no enfrentamento de seus desafios que são nada desprezíveis. As autoridades fazendárias já admitem publicamente  – o que todos já sabiam – que o crescimento do PIB “pode ter sido negativo”. Esta projeção já estava escrita no faturamento do modelo em 2014, expresso em reais indiferentes à inflação do período e em dólar, onde está escancarada a crueza das dificuldades encontradas pelas empresas. O “deslize fiscal” foi abertamente reconhecido pelo governo, e para enfrentá-los os ajustes incluem “reformas estruturais significativas”. Sem saber direito o que isso vai significar, uma obviedade está escrita nas estrelas: 2015 será um ano de muitos apertos, a despeito das promessas de que os ajustes ocorrerão sem novos impostos. Tarifas de energia e reajustes de combustível, a rigor, já foram consolidados. Como se tratam de preços públicos, resta saber se podem responder pelo condão de ajustar a economia, ao lado de outras medidas iminentes. Na  literatura, assim como no cotidiano, ” está provado: quem espera nunca alcança”, diz o poeta ao ironizar o contexto da passividade e dependência das iniciativas alheias. Daí a importância de refletir o sentido original da palavra esperança, entendida historicamente como atitude proativa de quem faz da expectativa a busca de saídas.  A rigor, a palavra significa procurar, ir atrás. Na entomologia, estudo dos insetos, esperanças são espécies encontradas em savanas da Amazônia, com longas antenas, os ortópteros, cuja principal função é procurar alimentos e prevenir-se dos predadores. Os predadores, para o modelo ZFM, estão expressos na raiz explicativa dos indicadores de desempenho na produção industrial em 2014, uma tendência que já vem sendo observada nos últimos anos. Em lugar nenhum do mundo de economia globalizada incentivo fiscal – sem as garantias de infraestrutura operacional –  é fator de competitividade e prosperidade industrial. Por isso, não poderia ser outro o resultado senão o encolhimento em diversos setores e polos, incluindo aqueles que, historicamente, sustentam a economia local, o de eletrônicos e o de duas rodas.

Soma de talentos

Em ZFM: o bloco da sinergia, publicado no Espaço da Indústria, do jornal A Crítica, Wilson Perico escolhe alguns ingredientes para mobilizar as saídas: ” Temos talentos e competências em estoque para empreender linhas de montagem e de produção do futuro, matrizes de uma economia sólida, focada na inteligência que mobiliza esforços numa oportunidade singular de assumir o protagonismo da transformação.” Para ele, o Amazonas, contumaz exportador de recursos aos cofres federais, precisa assumir o compromisso da mudança em lugar de celebrar mais um ano do modelo ZFM. “Mais do que festejos, é hora de encaminhar os entraves institucionais e gargalos de infraestrutura que se acumularam ao longo dos anos e que não serão resolvidos com a prorrogação dos incentivos, apesar do reconhecimento unânime do Congresso Nacional, que representa a aprovação dos acertos deste modelo na redução das desigualdades regionais.”

Autonomia e legalidade

Esta constatação dos acertos remete à necessidade de assegurar a autonomia da Superintendência da Zona Franca de Manaus, para dar sequência a essa milagrosa metamorfose que transforma o modelo de renúncia fiscal num extraordinário coletor de tributos para os cofres da União. Ironicamente, a autarquia é confiscada em seus recursos e alvo frequente de intromissões federais, que ignoram os direitos trabalhistas da equiparação salarial de seus servidores relativamente aos demais proventos dos quadros funcionais no ministério do Desenvolvimento, onde a Suframa se insere legalmente.  E mais: essa intromissão que confisca recursos e autonomia gerencial – e não cumpre o dever de prover as condições de infraestrutura – corrói a competitividade das empresas e promove a desindustrialização dos diversos polos. Nesse contexto, Perico sugere promover a mobilização dos demais estados alcançados pela atuação da Suframa – governadores, prefeitos das capitais e representação parlamentar – para resgatar as atribuições e competências dessa autarquia, sob a égide da Constituição do Brasil. “Se em menos de 50 anos, construímos o terceiro PIB industrial do Brasil, urge brecar a apropriação indébita das verbas da Suframa e dos recursos vitais de pesquisa e desenvolvimento para diversificar a economia regional, recursos pagos pelas empresas incentivadas, amparados por lei, para aplicação em cada um dos Estados atendidos pela gestão da Suframa.”

Senai Inovação: café com a indústria

Avança a passos largos, em parceira com o Senai-Diretoria Nacional, a implantação do Instituto Senai de Microeletrônica  em Manaus. Criado para atender  as empresas do polo industrial, alguns eventos estão sendo programados para estreitar parcerias e promover o enfrentamento conjunto  dos Desafios Regionais Inovadores, através de vários eventos que vão ser iniciados no próximo dia 3 de março, com o Café Com a Indústria.  O ISI-Microletrônica atuará em rede em todo o país,  com os 24 institutos que estão funcionando ou sendo criados em outros departamentos regionais do Senai para atender as áreas de produção, materiais e componentes, engenharia de superfícies e fotônica, tecnologia da comunicação e de informações, tecnologias construtivas, energia e defesa.  E para o sucesso deste ISI Manaus é preciso estruturar estratégia de relacionamento e realizar a aproximação das academias com as indústrias para que ocorra a inovação. O Senai será elo das duas áreas que possuem boa representatividade no país, e vai  agregar fatores de inovação na integração  e no desenvolvimento de pesquisas e inovações tecnológicas para as demandas do polo industrial.

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Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM.
Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Pesca, gestão e piscicultura

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

A aquicultura começa a ocupar espaço na mídia, na economia e no jargão político, deixando o cidadão frequentemente desinformado sobre o alcance e significados dos meandros dessa atividade. Desafiadas pela demanda incessante do mercado global de alimentos, as previsões do consumo de pescados já ultrapassam os 20 kg por habitante por ano, com produção estimada de mais de 160 milhões de toneladas , de acordo com a FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2013). Um negócio extremamente promissor. No Amazonas, campeão nacional de consumo per capta, ainda não conseguimos estabelecer a diferença entre pesca tradicional/extrativa e produção extensiva de peixes, a piscicultura, seus custos, demandas e premissas de infraestrutura para consolidar essa matriz econômica. Ainda vai demorar a transformação da gastronomia singular e irresistível do consumo de peixes numa atividade econômica organizada e promissora. Alguns passos, porém, precisam ser dados, a começar pela divulgação e articulação transparente de informações comprovadas.

Apesar da recorrência temática o assunto padece de objetividade e sistematização em todos os níveis. Não há informação confiável a respeito do monitoramento da pesca sazonal, cujas entidades deram amplo espaço ao proselitismo eleitoreiro. Em 2010, segundo o IBGE, 585 mil pescadores receberam o seguro-defeso, apesar do Censo registrar apenas 275 mil pescadores artesanais em atividade. Em janeiro último, foram flagrados mais nos 300 mil credenciamentos falsos. Por isso, e por absoluta inépcia no trato da questão, é consenso que a quantidade de pescado no setor esteja diminuindo. Hoje, as câmaras municipais do interior amazônico são também escritórios de registros dessa modalidade de bolsa para pescadores que jamais seguraram o caniço. Alardeamos promover a aquicultura, na perspectiva de uma cadeia organizada, mas ainda somos incapazes de organizar a atividade pesqueira, racionalizar a safra, regular estoques e o aproveitamento integral das espécies, para alimentos e outras cadeias relacionadas. O pesquisador do Inpa, Efrem Ferreira, destaca a necessidade de ordenar a pesca artesanal, pois dela dependem os segmentos mais desfavorecidos do extrato social. Piscicultura é atividade diferenciada para os segmentos mais aquinhoados, pois peixe de cativeiro é caro. E continuará caro na medida em que as cadeias produtivas não estiverem consolidadas por uma agricultura consolidada para ração de baixo custo, com energia barata, infraestrutura de transportes e proximidade do mercado. Paralelamente, o pesquisador recomenda investimentos em inovação tecnológica ajustados às espécies e condições climáticas e culturais regionais e uma rede de informações já consolidadas e acessíveis aos interessados.

Truta, salmão, tilápia, tambaqui… são espécies consagradas porque responderam até aqui ao conjunto dessas recomendações, lembrando sempre que o Nordeste padece escassez de água mas consolidou a criação de tilápias em cativeiro. Variedade de espécies, dimensões imensas do espelho d’água na Amazônia, entre outras megalomanias não são garantias nem saídas factíveis de uma vocação da Amazônia para produzir e exportar peixes, sobretudo enquanto perdurar a desarticulação entre pesquisa e mercado, entre intervenção política – aqui entendida como transformação da atividade produtiva em fabricação de sufrágios para o imediatismo do jogo eleitoral – e produção pra valer. Estamos, pois, devendo transparência, emergência e didatismo na informação, para degustar o sabor e os benefícios dessa deliciosa economia.

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ZFM: temos o quê celebrar?

Uma pergunta desconcertante ficou parada no ar nesta última quarta-feira, na reunião ordinária dos associados do CIEAM, por ocasião do debate sobre a escassez crônica de servidores federais na fiscalização diária nos portos de Manaus, fonte de graves prejuízos às empresas que dependem do desembaraço de mercadorias: por que as empresas não denunciam abertamente o desinteresse federal na relação deste problema histórico? Fosse este o único descaso, teríamos motivo de fazer um festejo extraordinário para celebrar mais um ano do modelo Zona Franca de Manaus. Com toda certeza não é. Em quase meio século de existência, é preocupante o enfraquecimento crescente, imposto à ação institucional da Suframa, e por consequência a própria ZFM, em detrimento da defesa e encaminhamento das questões cruciais que envolvem a estrutura e o funcionamento do modelo de desenvolvimento aqui implantado.

Prorrogação do descaso

O poder de decisão da autarquia se reduz em vários níveis, oportunidades e definição de rumos. E é visível que se esvazia a capacidade e a autonomia do órgão no encaminhamento dos problemas enfrentados pelas empresas. A falta de fiscais, que obriga custos adicionais de armazenagem portuária, é um problema residual no conjunto dos embaraços que impedem a dinâmica produtiva, o adensamento do modelo, a regionalização de seus estabelecimentos produtivos e benefícios. O confisco de verbas para fazer funcionar a Suframa remete a outra questão mais instigante: por que não recorrer à justiça para brecar essa ilegalidade?  É bem verdade que outros segmentos da esfera federal que atuam em Manaus padecem da mesma agonia e descaso. À luz da relevância institucional da Superintendência, porém, é eloquente refletir sobre o significado do frequente embargo e recentes vetos do GTPPB, o Grupo de Trabalho dos ministérios de Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Ciência e Tecnologia. Temos sido omissos em repudiar ou acionar na justiça a não liberação de itens que já são produzidos em Manaus, sem incentivos, e que são importados historicamente no resto do país. É preocupante o silêncio obsequioso da Suframa a respeito. Trata-se de um desacato frontal à Constituição do país e de anuência a um dano que ganha jurisprudência descabida e com implicações imprevisíveis, portanto inquietantes e assustadoras.

Suframa: agência ou cartório?

Criada para gerenciar o modelo de desenvolvimento fundado na renúncia fiscal e consolidado como fonte generosa de exportação de recursos para a União, cabe perguntar a que se destina a autarquia senão assegurar a distribuição criteriosa de incentivos na promoção do desenvolvimento? E como justificar que temos assentido, nos últimos anos, com esta conduta e tratamento, que confirma o crescente esvaziamento de sua função promotora de investimentos/desenvolvimento e transformação num cartório de permissões burocráticas?  Os recentes episódios, que confirmam o esvaziamento do CAPDA, o comitê que avalia e define a gestão e distribuição das verbas de Pesquisa & Desenvolvimento, confirmam o risco de concordância com o boicote explícito vital a um novo patamar de agregação de valor para o modelo ZFM. Estamos abrindo mão da competitividade e diversificação do setor produtivo local? A última reunião do CAPDA, em novembro último, última e única de 2014, repete e reprisa, ano a ano, a persistência do descaso, indicador dessa falta de visão estratégica e de ausência de priorização do interesse regional.

O divórcio entre discurso e conduta no oba-oba da prorrogação, se repete no paradoxo entre coleta e gestão dos recursos para P&D&I, Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação para a Amazônia. De camarote, até quando vamos engolir decisões equivocadas, obscuras, perdulárias entregues à incúria e descompromisso de resoluções de gabinetes, da centralização burocrática de Brasília, que se atribuem a habilidade de conhecer as reais necessidades da região, ou definir o que fazer com os recursos que, por Lei Maior, lhe pertencem? Voltaremos?

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Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Educação: o pacto e o desafio

O site AMAZONAS ATUAL, na semana que antecede a celebração dos 48 ano da Suframa, começa a publicar a Coluna Follow Up de responsabilidade do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam). Abre-se assim um espaço para debater o modelo econômico da Zona Franca de Manaus e o compromisso do estabelecimento de Novas Matrizes Econômicas para regionalizar, por toda a Amazônia Ocidental, com suas vocações de negócios, a economia e o desenvolvimento social que deverá irradiar-se a partir do Polo Industrial de Manaus.

Leia a coluna desta quarta-feira, 11.

Há dois anos, às vésperas do 46º aniversário da Zona Franca de Manaus, representantes do Centro da Industria do Estado do Amazonas (Cieam), Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) e outras organizações, que hoje já somam quase duas dezenas, assinaram, no auditório da Suframa, o Pacto pela Educação. A iniciativa, inicialmente modesta, e movida operacionalmente pela boa vontade operacional de alguns dos envolvidos, visava aproximar o setor produtivo das entidades de ensino superior e profissionalizante para promover o alinhamento dos cursos de graduação e profissional, de acordo com a demanda da indústria, comércio e setor agropecuário/extrativista por trabalhadores qualificados. Além da carência de técnicos e engenheiros nas fábricas do PIM, onde 36% dos profissionais de nível técnico, 33% dos engenheiros e 31% dos trabalhadores de nível superior ainda são oriundos de outros estados, estudos e relatos do Pacto, OCDE, PISA… confirmam a tragédia educacional pela qual atravessa o país em geral e o Amazonas muito em particular, onde o ensino fundamental e médio, segundo alguns indicadores, em lugar de formar, estão deformando os jovens, não apenas em Ciências, Matemática e Linguagem, mas também em valores humanos e éticos. Respeito, solidariedade, honestidade, responsabilidade… são algumas das deformações graves que aparecem no cotidiano das empresas. As empresas precisam, além de técnicos qualificados do ponto de vista do conhecimento e do desempenho cotidiano, cidadãos responsáveis no exercício profissional, éticos, proativos, comprometidos com a organização, a sociedade em que vivem e o país em que nasceram. O desafio educacional, portanto, é amplo, interdisciplinar e interinstitucional e exige que a sociedade, os gestores públicos, educacionais e demais entes relacionados à gravidade dessa situação estejam atentos e mobilizados para seu equacionamento.

Voluntariado e profissionalismo

Educação, o único fator real e essencial de transformação da sociedade, é coisa muito séria. Merece aplauso a atitude de todos os envolvidos, graciosamente, nas iniciativas para enfrentamento da questão. Por sua gravidade, urgência e necessidade, entretanto, Educação não se enfrenta com voluntariado, mas com vontade política e prioridade institucional. Os atores do Pacto, incluindo as entidades públicas que gerenciam o modelo ZFM, e as entidades representativas do setor privado, as empresas que sustentam a economia e, a partir dela, toda a base material da vida social, podem, devem e precisam profissionalizar a mobilização dos atores dessa iniciativa. Isso não pode ser tratado como uma ação altruísta das horas de folga de pessoas diferenciadas e comprometidas com o bem-comum. A Confederação Nacional da Indústria – na interface com a sociedade – trata a questão com profissionalismo. Em 2010, num estudo inédito e rigoroso, a entidade traçou o perfil da Educação para o Mundo do Trabalho que se transformou em guia para as suas associadas tratarem do tema com a seriedade que ele merece e a gravidade que representa a manutenção de seu status. A entidade mobiliza periodicamente 25 membros de seus Conselhos Temáticos, onde atuam técnicos qualificados, para discutir educação brasileira, nos vários níveis e modalidades, a partir da visão da indústria e com o objetivo de promover uma formação de qualidade para os jovens, de modo a capacitá-los para os desafios do mercado. O Conselho também identifica e apoia a difusão de boas práticas educacionais, além de recomendar ações que fortaleçam a educação no país e o desenvolvimento do empreendedorismo. Voluntariado é sintoma da situação dramática, mas não a solução eficaz e efetiva para seu equacionamento, que demanda parcerias institucionais e um projeto de ações estratégicas com objetivos, cronogramas e resultados, com as respectivas estruturas e condições de viabilidade. No caso da CNI, a iniciativa é moeda de troca, e fator de autoridade, nas negociações com o poder público.

Educação: os países estão trabalhando

Em janeiro último, em amplo caderno da BBC Brasil, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou um estudo em que estão assinalados: o que os países ricos estão fazendo para melhorar a educação? O Estudo inédito analisou 450 iniciativas de 34 países para melhorar educação, preocupados em aperfeiçoar seus sistemas de ensino. A mudança mais popular no grupo, que reúne majoritariamente países ricos e não inclui o Brasil, diz respeito à preparação dos estudantes para o mercado de trabalho, voltado principalmente para o ensino profissional e técnico. Este tipo de mudança tem forte impacto, segundo especialistas, na produtividade dos trabalhadores – o que colabora para fortalecer a economia dos países. A segunda reforma mais popular envolveu melhorias no ambiente escolar, com foco principalmente na preparação de professores. A OCDE analisou iniciativas adotadas nos últimos sete anos. Segundo a organização, ainda é preciso analisar os resultados da maior parte destas políticas. Embora os pesquisadores ressaltem que as soluções dizem respeito a cada país e não podem ser simplesmente copiadas para outras realidades, algumas ideias podem fornecer material para o debate geral de como melhorar a educação. Um dos grandes acertos relaciona mercado de trabalho ou continuidade dos estudos. Quase um terço (29%) das reformas implementadas tiveram como objetivo preparar os estudantes tanto para o mercado de trabalho como para continuar seus estudos. O foco principal foram reformas nos sistemas nacionais de ensino profissional ou técnico. Portugal, por exemplo, criou uma estratégia com o objetivo de aumentar o número de jovens matriculados no ensino profissional. Os cursos oferecidos são compatíveis com a demanda do mercado de trabalho. Outra inovação: estão em teste programas de ensino profissional que começam mais cedo, a partir dos 13 anos. Já a Dinamarca reformou seu sistema de ensino profissional com foco na redução da desistência.

Melhorias no ambiente das escolas

Reduzir o número dos alunos por turma, implementar reformas curriculares e, principalmente, capacitar professores foram o objetivo de 24% das reformas analisadas. A Austrália criou um instituto dedicado apenas ao aprendizado de professores, e a Holanda desenvolveu um programa que visa a atrair os melhores estudantes para faculdades de educação. Já a França reformulou o conteúdo e a estrutura de seus programas de treinamento de educadores, criando escolas que aliam treinamento prático ao teórico. Isso significa garantir qualidade e equidade na educação. As reformas implementadas pelos países da OCDE também tiveram como objetivo implementar políticas para garantir que todos os cidadãos tenham acesso a um nível mínimo de educação, independentemente de circunstâncias pessoais ou sociais. Ações deste tipo foram 16% das implementadas. O Chile, por exemplo, introduziu um sistema que proíbe que a seleção para escolas de ensino fundamental tenha como critério renda ou performance. A regra também limita a possibilidade de as escolas expulsarem alunos com resultados ruins. Na Nova Zelândia, foram implementadas estratégias para melhorar a educação dos maoris, população nativa que representa cerca de um quarto dos habitantes do país. Entre as iniciativas está um programa para engajar adolescentes com idades entre 14 e 18 anos na área de educação. Na Inglaterra, um programa concede fundos adicionais às escolas para que elas consigam manter nas classes crianças em risco social. A ideia teve um impacto positivo. Adicionalmente, os Sistemas de avaliação são considerados importantes pela OCDE porque apontam áreas em que é preciso melhorar. Implementar essas políticas, que visam a medir os resultados tanto dos alunos quantos das escolas, responderam por 14% das reformas. No México, um instituto nacional de avaliação ganhou, em 2013, autonomia para desenvolver uma estratégia de acompanhamento válida para todo o país. Padronizar as avaliações facilita a comparação de resultados. Na Itália, um projeto piloto acabou sendo expandido devido a seu sucesso. O projeto permite que as escolas decidam se serão avaliadas ou não. O processo envolve uma auto-avaliação da escola e uma avaliação externa, que é usada para estabelecer metas. Essas informações são divulgadas publicamente.

Financiamento e Governança

Conseguir melhorar as formas de financiar os sistemas de educação é um dos grandes desafios das escolas. Incrementar o financiamento foi o objetivo principal de 12% das medidas avaliadas. Nos EUA, teve início em 2009 o programa Race to the Top, que atrela o financiamento das escolas à implementação de reformas e inovações na área de educação. Os Estados recebem fundos com base em seus planos para o futuro e também na qualidade dos professores, alunos e escolas. Eles precisam também ter competência para processar dados e informações estatísticas de educação. Na Alemanha, dentro de um projeto criado para estimular a atividade econômica durante a crise financeira, o governo federal deu apoio a investimentos de Estados e comunidades em educação. Foram destinados 8,7 bilhões de euros (cerca de R$ 26,5 bilhões) a áreas como educação infantil, estrutura escolar e universitária e pesquisa. E, por fim, o tema da Governança. A organização do sistema educacional e a definição de uma política nacional de educação foram foco das ações de 9% das reformas. Ter uma estratégia nacional é importante, de acordo com estudiosos, porque proporciona parâmetros que devem ser seguidos nacionalmente. Na Dinamarca, uma reforma nas escolas públicas, possibilitada por um acordo que envolveu todos os partidos políticos, foi feita para elevar expectativas, simplificar objetivos curriculares e abrir escolas para as comunidades. Já a Estônia estabeleceu cinco metas para a educação no país. Entre elas está o uso de tecnologia digital no processo de aprendizado e uma maior correspondência entre o que é ensinado e as necessidades do mercado de trabalho. (fonte: BBC).

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Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do Cieam. Editor responsável: Alfredo MR Lopes.
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O Inpa, o pinhão e o parque Parte II 

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

O debate sobre a relação entre o Inpa, Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, o pinhão-manso, seu potencial de biocombustível e o parque tecnológico que se esboça na relação entre as entidades da economia e da academia, foi sacudido pelas redes sociais com uma zoada bem intencionada envolvendo a escolha do novo dirigente da Suframa. É como se essa fosse a questão essencial do debate sobre o futuro deste modelo de desenvolvimento focado  em renúncia fiscal. A zoada tem um tempero xenófobo – absolutamente inaceitável, posto que  nativos à parte, sempre desconsiderados, todos somos estrangeiros  – e um alarmismo despropositado.  O debate mais urgente, tudo indica, sugere a definição daquilo que se espera daquela autarquia e, a partir disto, identificar as pessoas efetivamente qualificadas para topar a expectativa. Nomes se discutem a partir de propostas, que se colocam na mesa com prévias oitivas dos atores envolvidos na questão.  A começar pela população – aquela em nome da qual todo poder se deveria pautar como diz a Carta Magna –  as entidades representativas dos setores organizados de empreendedores, trabalhadores e demais associações,  o poder local, da Amazônia Ocidental  e o país: o que se espera da Suframa?

Na semana passada, as entidades diretamente ligadas ao polo industrial de Manaus, na sede da Federação das Indústrias,  reafirmaram a disposição de trabalhar em conjunto com o governador do Estado para “enfrentamento conjunto de desafios que nos são postos”.  Ninguém falou em nomes e sim em pactos, fundados na “…consciência clara de que iremos vencer os embates de sobrevivência e crescimento do modelo se estivermos coesos”, diz o documento das entidades do setor produtivo.  Nomes, promessas, a própria Lei… tudo se transforma em arroubos, passes de mágica, demagogia ou ideologia, no sentido da falsificação do real se não for precedida pelo pacto abrangente, coerente e representativo do tecido social. Por isso, promulgar a prorrogação da Zona Franca por mais 50 anos pode acabar virando arroubo eleitoreiro, caso não haja mobilização coletiva para resolver problemas agudos, antigos e crônicos, deste modelo de acertos.

Por isso, é ponto de partida e premissa essencial assegurar/recuperar a  autonomia da Suframa para pilotar a infraestrutura de transporte, energia e comunicação em toda a extensão de sua presença na Amazônia Ocidental. Para tanto, é necessário garantir que os fundos aqui arrecadados pelas taxas da Suframa e contribuições das empresas para Pesquisa & Desenvolvimento, deixem de ser confiscados, oficialmente desviados para pagar despesas do Programa Ciências Sem Fronteira, do ministério da Educação. Não procede a aplicação ilegal. Os estudantes não recebem desde setembro e as instituições parceiras desde o início do tal Programa.  Elucidadas essas anomalias, ficará mais fácil entender e reverter as razoes pelas quais este modelo está esvaziando seus polos e tem boicotado a consolidação de um novo, o de bioindústria, o mais coerente com a vocação regional de negócios. Por que não agitar essa bandeira nas redes sociais? Esclarecido o imbróglio, aí sim, cabe discutir nomes e temas como o Inpa, sua cartela preciosa e arquivada de coleções e inventários, entre os quais  o pinhão-manso, seu cultivo experimental nos municípios excluídos do Sistema Interligado de energia no país, e sua transformação em item prioritário de pesquisas para a produção de biocombustível regional no Parque Tecnológico de Produtos Regionais para a Zona Franca de Manaus.  Um ponto de partida com perspectiva clara da utopia que queremos alcançar….

O Inpa, o pinhão e o parque

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

No início deste ano, a Embraer e a Boeing inauguraram, no Parque Tecnológico da Embraer de São José dos Campos, o Centro de Pesquisa em Biocombustíveis Sustentáveis para a Aviação. Ali, há décadas, os cientistas da Aeronáutica criaram o primeiro motor brasileiro com biodiesel tropical, movido a dendê e mamona. A indústria de aviação precisa reduzir à metade a emissão de CO2, até 2050, tomando por base 2005 e a Boeing esteve em Manaus, em diversas oportunidades, para conversar com cientistas e empreendedores da região, sobre as oleaginosas nativas, e seu potencial energético e ambiental. Entre elas, o pinhão manso, o Jatropha curcas, uma espécie de planta da América tropical, já foi exaustivamente estudada nos laboratórios de universidades americanas e israelenses é usada pelas populações primitivas da Amazônia há mais de 10 mil anos, para funções terapêuticas e cosméticas. A demanda da Boeing , segundo o empresário Moysés Israel, especialista no assunto, é para fins comerciais civis e militares do Pentágono, cujas aeronaves precisam de economia, prontidão e eficácia, sendo  o pinhão manso – pelos repetidos testes – é imbatível nessa função.

Outras oleaginosas já foram inventariadas pelo INPA, Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, desde os anos 80, numa das grandes crises do petróleo. No total,  15 castanhas/amêndoas nativas foram inventariadas na Amazônia, com protocolo universal de reconhecimento energético/alimentar. O dendê teve acolhida empresarial  no Pará, onde foi instalada a primeira refinaria de óleo vegetal com fins energéticos e empresariais. No Amazonas, já tivemos a EMADE, Empresa Amazonense de Óleo de Dendê, extinta pelo critério político e inépcia estatal para empreender. Oleaginosas, resinas, alimentos, bioenergia, fertilizantes orgânicos, bioinseticidas, tecnologia da madeira, várzeas, são alguns dos tesouros de oportunidades levantados pelo INPA em 63 anos de existência. O que fazer com este acervo e coleções que pertencem à sociedade? Sim, os inventários, a instituição, seus avanços, resistência e contribuições históricas pertencem ao cidadão, mesmo neste clima melindroso e perigoso de alguns gestores que tratam a coisa pública como extensão de seu patrimônio particular, sem declarar no Imposto de Renda.

Nos próximos 10 anos, 60% dos servidores que ali atuam estarão fora do combate pelo saber  por idade ou doença.  Clima e Ambiente, Biodiversidade, Biologia Aquática, Ecologia e Economia Ambiental, Silvicultura… quem vai suceder Estevão Monteiro de Paula, Philip Fearnside, Niro Higuchi, Adalberto Val, Antônio Manzi – os que me vem à lembrança neste instante – para tocar o futuro da sistematização do saber e sua transformação em benefícios para a sociedade? Como configurar a evolução desse saber para orientar o fazer nas nuvens da informação para as gerações  futuras? E se a Amazônia é a pátria do combustível ambientalmente adequado, o saber precisa circular em forma de pesquisas e planos de negócios para socializar os bens na ótica da prosperidade social.  Este é o ponto de partida do estudo de viabilidade do parque tecnológico de produtos naturais sustentáveis para, ou a partir do Polo Industrial, que reúne a academia  e o setor produtivo mediatizado pela FAPEAM.  Diagnosticar demandas de mercado em biotecnologia e tecnologia da informação e comunicação, e os recursos humanos necessários, numa perspectiva multidisciplinar e interinstitucional é propor alternativas e complementos ao modelo ZFM, descobrindo e promovendo competências, focando nas próximas décadas  numa relação proativa e colaborativa entre a produção do conhecimento e da riqueza. Voltaremos.

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CBA: a métrica autoritária

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

Está em andamento a inteligente e emergencial aproximação entre academia e setor produtivo, agregando inicialmente a Universidade Estadual, a Fundação de Amparo à Pesquisa e as entidades que representam a indústria. Entre as diversas iniciativas, foi urgente aprofundar o estudo de viabilidade do Parque Tecnológico de Produtos Regionais para o Polo Industrial de Manaus, o fio de uma meada que se originou de um diálogo entre os ministérios do Desenvolvimento e da Ciência e Tecnologia, Suframa e Inpa. Esta nova investida envolverá progressivamente todos os atores locais e regionais interessados em partilhar experiências, especializações e compromisso de saltar os obstáculos que impedem as novas matrizes econômicas. Nesse meio tempo, correm informações sobre a transferência do CBA para o Inmetro, como a saída encontrada para este enigma da burocracia federal em que foi transformado o Centro de Biotecnologia da Amazônia, que se arrasta há 13 anos em busca de um modelo de gestão. Para credenciar esse arranjo estranho, com um órgão da burocracia do governo federal cuja missão é  “…executar as políticas nacionais de metrologia e da qualidade, cuidar da observância das normas técnicas e legais etc….”, surgiu uma aproximação com o governo estadual sem consulta aos demais atores envolvidos, especialmente, os patrocinadores da despesa. O Centro de Biotecnologia da Amazônia teve suas instalações pagas pelas empresas do polo industrial através das taxas da Suframa, que desembolsou aproximadamente R$ 120 milhões. Nenhuma entidade do setor produtivo foi consultada em mais esse desrespeito autoritário, que se soma à inércia em relação à contrapartida de infraestrutura para um modelo tão generoso em contribuições fiscais.

Há dois anos, o Centro da Indústria propôs, através de ofício, a transferência do CBA para a Embrapa, um orgulho nacional, com quase meio século na gestão de bionegócios, referência internacional de biotecnologia e de suporte técnico e conhecimento científico para alavancar pesquisa e desenvolvimento de projetos em fármacos, cosméticos, resinas, oleaginosas e segurança alimentar. A sugestão se fez acompanhar da chancela de 35 entidades, empresas, instituições de ensino e pesquisa. E jamais teve resposta. Criado com objetivos de promover  o desenvolvimento local de produtos, processos e serviços biotecnológicos, nas áreas de saúde humana, agronegócio e industrial, visando sua comercialização e inserção em cadeias produtivas nacionais e globais, caberia ao CBA promover o conhecimento da biodiversidade amazônica, associado às tecnologias necessárias ao seu aproveitamento econômico, agregando valor às cadeias produtivas não-predatórias da região.

Sob a batuta da pasta de Planejamento, a cargo de Airton Claudino – cujo carisma viabilizou a atração do Banco Interamericano de Desenvolvimento, e seus recursos robustos para reduzir a pobreza, sem detonar a floresta –  o Estado avança na ampliação, certificação, logística e mercado das cadeias produtivas da Agência de Financiamento do Amazonas, que incluem guaraná, açaí, fibras vegetais, borracha para a indústria, fitoterápicos, cítricos e aquicultura, entre outros. Com investimento original de R$ 80 milhões/ano, 10% dos recursos pagos pela indústria através dos Fundos de Interiorização do Desenvolvimento, o desafio é fortalecer, com parceria do BID, o empreendedorismo regional não-predatório, visando colocar produtos de qualidade no Sudeste e no mercado internacional, com certificação e inovação tecnológica. Daí a presença da UEA, Inpa, Embrapa, IDAM, Sepror, Fucapi, e o lamento com a ausência histórica do CBA, cuja contribuição poderia inaugurar – houvesse transparência e proatividade – novas trilhas de prosperidade econômica e promoção social, na gestão dos recursos públicos na perspectiva do bem-comum. Ou não é isso que importa?

‘Tu não morrerás!’

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

Antes da onda empresarial que começou a promover a imagem das organizações pelas condições de trabalho oferecidas, a BrasilJuta, empresa de Mário Guerreiro e Adalberto Vale, fundada nos anos 50, de juta e malva para a indústria têxtil, era o sonho do consumo laboral de quem vivia em Manaus nos anos 80. Lá estava Ozeneide Casanova, assegurando condições dignas para os trabalhadores da tecelagem: assistência médica, alimentar, esportiva e comunitária. O foco de sua trajetória era a pessoa, todas as pessoas. Este valor e visão de mundo aparecem no best seller  “Tornar-se Pessoa”, do psicólogo americano Carl Rogers. Ele redimensionaria sua obra se tivesse conhecido Ozeneide. Tornar o indivíduo em pessoa foi razão de ser e viver, o sujeito e o objeto de sua obstinação. Por isso, a desconcertante e alegre afirmativa do filósofo francês Gabriel Marcel “Amar alguém é poder dizer à pessoa amada: tu não morrerás!”  se aplica ao legado deixado por ela, em seus textos escritos com atitudes, testemunhos, escolhas e utopias. E se a perenidade – a negação da morte como um muro contra o qual se despedaçam nossos projetos de vida, no existencialismo Sartreano,  – é a grande ambição da humanidade, Ozeneide se eterniza em cada gesto de quem fez da própria vida a negação do outro como mercadoria e sua afirmação como pessoa, portadora inalienável da dignidade humana.

A afirmação de Gabriel Marcel, um filósofo francês que se contrapôs ao niilismo e dadaísmo dos anos sombrios da opressão nazista, emerge na postulação da vida em contraponto à angústia do caos e da morte experimentadas nas duas guerras que abalaram o mudo no século XX. Ele faz a leitura do existencialismo ateu de Sartre e Merleau-Ponty e cristão de Albert Camus, para desfraldar  a bandeira da vida, muito além da componente transcendental, religiosa da doutrina eclesial, e pontuar a beleza do verbo amar, no sentido original e dramático da palavra que remete a gestos, conjugados sempre na primeira do plural. Contra a morte, cabe recordar Salomão no livro da Sabedoria: “Deus não fez a morte nem se compraz com a morte dos viventes… Ele tudo criou para que subsista”. Ou seja, nossa vocação é a imortalidade desde que avancemos na direção da descoberta humana, demasiadamente humana, posto que divina,  do sentido amoroso da partilha.

Num de seus últimos textos, sempre carregados pela energia transformadora da comunhão, Ozeneide Casanova Nogueira escreveu os desafios de um ano novo: “… no campo profissional é hora de atentar para as mudanças de profissões que o mundo moderno exige. Novas áreas de atuação exigem novos talentos e novos conhecimentos, representando novas oportunidades no mercado de trabalho. Ecorrelações, lixólogo,  condutor de drones, curador digital, tutor de curiosidades são apenas alguns exemplos de novas profissões advindas do mundo tecnológico e de um novo mundo novo. A emoção será entender o que cada uma exige de habilidades e competências para exercê-las, tanto no campo pessoal como familiar, onde as emoções ficam por contas da formação de novas relações, novas famílias, formaturas, vestibulares, viagens, nascimentos, festas comemorativas, as novas conquistas (…)  O importante mesmo é aproveitar 2014-15 mesmo que seja rápido, mas que seja intenso e que não haja arrependimentos por deixar de aproveitar qualquer que seja a oportunidade, o momento, o convite, o evento, a ação. O ideal é passar por ele, não deixar ele passar por você.” Com essa vibração, foco e fé, ela nos deixa uma missão: revisitar para compreender, consolidar, ampliar e perenizar seu Pacto pela Educação, a maneira mais oportuna de simbolizar seu compromisso com a vida, repartida pela informação/formação de novas posturas, para as novas gerações, fincadas nos antigos e eternos valores que a Educação representa:  o tornar-se pessoa!

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