C&T: comunicação e transparência – Parte II

Secti ou não Secti, ainda é esta a questão? Convenhamos que há uma discreta dose de pavulagem na discussão sobre a extinção da Secretaria da Ciência e Tecnologia do Amazonas (Secti), projeto de reforma administrativa, ora em discussão na Assembleia Legislativa, uma Casa que – é importante anotar – tem padecido de sustança adequada para analisar, debater e encaminhar com autonomia o interesse maior da coletividade. Há um distanciamento crônico dos reais problemas que explicam os desajustes socioeconômicos que o Estado tem experimentado, a despeito de ser exportador de recursos para a União e posar como uma das seis maiores economias do país.

Onde estavam os detratores da mudança – ou extinção da estrutura da Secti – que não se insurgiram contra o confisco das verbas de P&D, promovido pelos arautos do oportunismo com sequelas de múltiplos estragos? E qual a razão do silêncio obsequioso em torno do esvaziamento crescente é conivente do CAPDA, o comitê da Suframa que deveria acolher demandas e debater prioridades de pesquisa na região?

Não seria mais proveitoso inovar e fazer desse reboliço a convocação dos atores dessa trama vital para definir, todos juntos, desarmados e proativos, o rumo a tomar.? Afinal, o que queremos para o Amazonas e para esta região inóspita e descuidada na perspectiva de um Brasil inserido na globalidade em alvoroço? Que modelo de conhecimento assumir, como integrar as ações dispersas e as vaidades superpostas para utilizar os recursos de P&D, formalmente abundantes e frequentemente confiscados ou utilizados sem racionalidade ou articulação? É preciso parar para acertar ponteiros e egos, em nome de um projeto regional, coerente com a vocação de negócios, oportunidades e prosperidade social. Assim, assegurado o pacto de decisões transparentes e compartilhadas, a nomenclatura é um detalhe e o compromisso de avançar em conjunto ganha estatuto da essencialidade.

O fio da seda de algumas espécies de aranhas da Amazônia era considerado o material biológico mais resistente, com maior potencial para ser aplicado em coletes à prova de balas a materiais eletrônicos. Nenhuma coleção da espécie saiu do bioma para o laboratório na perspectiva do polo industrial de Manaus em 5 décadas. Cientistas ingleses foram adiante e descobriram, recentemente, que o dente de molusco tem uma força potencialmente bem maior, numa configuração molecular adequada para fazer diversos tipos de veículos, incluindo navios e aviões do futuro. Aplaudimos os ingleses, certamente, sem saber que há mais de uma década, no quintal de casa, cientistas do Inpa ampliam inventários de moluscos na Reserva BioTupé, com o objetivo de expandir o conhecimento a respeito da sua distribuição na Amazônia. Depois de meio século do modelo ZFM, somente agora academia e setor produtivo somam esforços para viabilizar ações que integrem pesquisa, desenvolvimento, bionegócios, inovação e mercado, num reboliço pra valer, em nome da diversificação produtiva e do atendimento das demandas ribeirinhas, uma sugestão que ensaia comunicação e transparência na proposição das mudanças que se impõem…

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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