Entrevista com Muni Lourenço, presidente da FAEA

Muni Lourenço

Uma liderança empresarial nova e atuante no Estado, o pecuarista e presidente da Federação da Agricultura do Estado do Amazonas, Muni Lourenço, integra uma elite pensante dos novos cenários de um Amazonas mais próspero e mais equilibrado na distribuição e geração de riquezas. Sua presença na Ação Empresarial, no Conselho de Administração da Suframa e nos órgãos de gestão federal do setor primário sinaliza avanços, integração, visão de futuro e modernidade. Confira…

Follow-Up – Com quase 50 anos da ZFM e a prorrogação promulgada até 2073, qual sua avaliação sobre os benefícios/expectativas para o setor agropecuário no Estado?

Muni Lourenço – Nossa expectativa é que nesse período da Zona Franca de Manaus prorrogada possamos construir um Amazonas novo, com mais desenvolvimento econômico e social nos municípios do interior do Estado, coexistindo com o nosso Polo Industrial de Manaus, que queremos cada vez mais pujante. Com os 50 anos da prorrogação da ZFM, nós, do setor rural, temos a esperança de que as políticas públicas possam emprestar grau de prioridade ao setor primário, isso sobretudo na perspectiva de geração de oportunidades de emprego e renda para os amazonenses que residem e trabalham no interior. Óbvio que sabemos da complexidade da busca pela interiorização de nossa economia, mas será pouco inteligente se em 2073 continuarmos com o elevadíssimo grau de concentração econômica na capital, condição que nos parece incômoda, face a dependência quase que total, de um Estado inteiro, das riquezas produzidas por um único segmento, no caso o PIM.

FUp – As entidades da indústria insistem na necessidade de implantação de novas matrizes econômicas para interiorizar/regionalizar a economia da ZFM. Quais as exigências e premissas dessa proposição no ponto de vista do setor primário?

Muni – É premente que nosso Estado implemente atividades econômicas complementares ao Polo Industrial de Manaus, notadamente segmentos que tenham como base insumos regionais, aproveitando assim racionalmente nossas riquezas, proporcionando sustentavelmente resultados econômicos e sociais a partir do setor primário, da aquicultura, das atividades decorrentes da biodiversidade, dentre outras. As premissas dessas novas matrizes econômicas são de que a exploração produtiva decorra de processos caracterizados pela sustentabilidade econômica, social e ambiental. Ademais, não é difícil vislumbrar que temos plenas condições de começar a conectar melhor as linhas de produção do PIM com os insumos regionais, para que a exemplo da nossa borracha extrativa, já utilizada na fabricação de pneus para as motocicletas e bicicletas fabricadas no PIM, outros mais exemplos sejam tornados realidade, para o bem do Amazonas e de sua população.

FUp – O Decreto 288/67, que criou a ZFM, preconizava o Distrito Agropecuário, hoje praticamente abandonado. O que seria necessário para sua recuperação funcional e econômica?

Muni – Muito importante ressaltar realmente que o Decreto 288/67 prevê que a Zona Franca de Manaus existe para fomentar o desenvolvimento dos três setores econômicos, daí surgiu a iniciativa da SUFRAMA em criar o Distrito Agropecuário que, já há alguns anos vem enfrentando severas dificuldades para a viabilização de seus empreendimentos. Os principais entraves atuais ao Distrito Agropecuário são a morosidade na regularização fundiária dos imóveis rurais dos produtores lá instalados, o que restringe enormemente a possibilidade desses empreendedores terem acesso a crédito rural, sem falar na insegurança jurídica de quem produz e não tem o documento da terra. Além disso há uma carência no Distrito Agropecuário de infraestrutura, principalmente na parte de eletrificação rural e manutenção das vicinais denominadas de ZF’s, o que dificulta o escoamento da produção. Em nossa opinião o Governo Federal deveria incrementar o orçamento e a disponibilidade financeira da SUFRAMA para investimentos no Distrito Agropecuário, área que melhor apoiada e dada a sua proximidade de Manaus, poderia se transformar em um “celeiro” de produção de alimentos para diminuir o custo da cesta básica e a dependência de importação de alimentos de outras regiões para abastecimento da capital amazonense. Agora, é bom que se diga, até para provar que o Distrito Agropecuário da SUFRAMA tem condições de dar certo, é que com todas essas dificuldades, temos lá, em produção, boa parte das granjas de ovos, grande extensão de lâmina d’água com criação de peixes e atividade de citricultura, com empreendimentos que até exportam laranja para Roraima.

FUp –  Borracha, castanha, fibras, as vedetes do extrativismo, ainda podem ocupar destaque na economia regional? O que precisa ser feito, em caso afirmativo?

Muni –  Com certeza a nossa borracha, a castanha e as fibras naturais podem sim se destacar, principalmente porque no caso da borracha, o Brasil não produz o suficiente para seu parque fabril, tendo que importar de outros países. A castanha indiscutivelmente tem enorme mercado no Brasil e no mundo e as fibras de malva e juta tem grande utilização na produção de sacaria e agora com perspectiva de novos usos, para a indústria da construção civil, automobilística e da medicina. Agora a nosso ver, a produção extrativa precisa continuar a ser fomentada, até pela relevância social, mas também devemos investir no cultivo racional, que possa permitir maior escala econômica a essa produção. Um exemplo disso, é a difusão do plantio racional da seringueira tricomposta, desenvolvida pela EMBRAPA, resistente ao mal das folhas.

FUp – A Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas está apoiando o 11º Encontro Brasileiro de Bubalinocultores em Manaus. Criticada pelos ambientalistas, essa atividade traz avanços para a economia regional?

Muni – Com muito orgulho a FAEA irá sim apoiar a realização do XI Encontro Brasileiro de Bubalinocultores, promovido pela Associação Brasileira dos Criadores de Búfalo – ABCB, a Faculdade de Ciências Agrárias da UFAM, e o criador Rodrigo Baraúna Pinheiro, evento de renome nacional e internacional que pela primeira vez será sediado no Amazonas, Estado com o terceiro maior rebanho do Brasil. Temos convicção que a criação de búfalos, atividade plenamente adaptada às condições da Amazônia, é um desses segmentos complementares ao PIM. Nós produtores rurais sempre procuramos o “caminho do meio”, acreditando que é possível um ponto de equilíbrio entre produzir alimentos e preservar o meio ambiente. Para nós não há antagonismo entre produção rural e promover o desenvolvimento sustentável, até porque dispomos hoje de tecnologias que viabilizam o aumento da produtividade agropecuária sem gerar novos desmatamentos, com isso estamos desenvolvendo no Amazonas um modelo de desenvolvimento agropecuário que não é e não será predatório com a natureza. Com apoio do Sebrae, Suframa, CIEAM e FIEAM e outros parceiros federais e regionais, este evento cumprirá, também, o papel de vitrine para inúmeras oportunidades de negócios do setor primário.

Desindustrialização e arrocho

A indústria brasileira vai precisar de muita criatividade para contornar a expectativa de novos percalços na gestão de sua sobrevivência. A devolução da Medida Provisória 669 – à parte o estremecimento político que entorna o clima de animosidades em curso – já tem seu contraponto para assegurar a elevação das alíquotas em 150% de contribuição para a Previdência das empresas sobre sua receita bruta. Este estrago vai atingir 56 setores produtivos, alguns contemplados com o benefício desde 2011. Adeus à redução dos gastos com a mão de obra, estimulação do mercado de trabalho e, alento à competitividade. Alguém teria que arcar com as sequelas do amadorismo e a corda começa a romper no segmento em que está mais corroída. A participação da indústria no PIB decresce a patamares do pós-guerra, menos de 12%, quando o Brasil era predominantemente agrário. Passamos de 25% nos anos 80, para 13% no ano passado. É bem verdade que a tendência é universal, mas se agrava no Brasil pela fragilidade de sua infraestrutura, a insensatez burocrática e, principalmente pela voracidade tributária. No caso das indústrias, o recolhimento de 2,5% vai abranger empresas do segmento têxtil, aves e suínos, móveis, brinquedos, medicamentos, fabricação de aviões, navios e ônibus, material elétrico, equipamentos médicos e odontológicos, pneus e câmaras de ar, tintas e vernizes, borracha, vidros, entre outros. E o que tem a ver com isso a bancada parlamentar do Amazonas e da Amazônia Ocidental? Tudo e o que mais vier. Essa lógica de fazer benemerência ou pagar penitência com o chapéu e a devoção alheia não tem limites e o alcance de seus danos é imprevisível.

(Foto: Igo Estrela)

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Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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