Pesquisas analisam como menos poluição por enxofre, mudanças nas nuvens e oceanos mais quentes influenciam o ritmo recente do aquecimento global.
A redução da poluição atmosférica tem um efeito climático paradoxal, embora seja essencial para a saúde pública e para a proteção de ecossistemas, ela também elimina partículas que, por décadas, ajudaram a refletir parte da radiação solar de volta ao espaço. O resultado é a perda de um resfriamento temporário que mascarava parcialmente o aquecimento global provocado pelos gases de efeito estufa.
O mecanismo não altera a causa central da crise climática. O dióxido de carbono, liberado sobretudo pela queima de carvão, petróleo e gás, continua sendo o principal responsável pelo aumento da temperatura média do planeta. Assim, o ar mais limpo não cria o problema; ele reduz uma compensação artificial que amenizava parte de seus efeitos.
Entre os poluentes associados a esse processo está o dióxido de enxofre, emitido principalmente por usinas, indústrias e navios. O composto forma aerossóis de sulfato na atmosfera, partículas microscópicas capazes de dispersar a luz solar. Elas também influenciam as nuvens, favorecendo formações mais claras e duradouras, que refletem mais energia antes que ela alcance a superfície terrestre.
Nas últimas décadas, regras ambientais reduziram de forma expressiva as emissões de enxofre na Europa, na América do Norte, na China e no transporte marítimo. A medida evitou danos respiratórios, chuva ácida e impactos sobre florestas e rios. Mas, como esses aerossóis permanecem na atmosfera por apenas dias ou semanas, seu efeito resfriador desaparece rapidamente quando as emissões caem.
O professor e cientista climático Piers Forster, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, estima que a diminuição dos aerossóis possa acrescentar entre 0,05 °C e 0,1 °C ao aquecimento global por década. É uma contribuição relevante, mas menor que a dos gases de efeito estufa, associados a cerca de 0,2 °C de elevação da temperatura a cada dez anos no ritmo atual.
O debate ganhou força após a sequência de anos recordes de calor no planeta. Foster aponta que a redução da poluição por sulfato ajuda a explicar parte da aceleração recente das temperaturas, mas não é o único fator em análise. Eventos naturais, como o El Niño, também elevam temporariamente a temperatura global e dificultam a separação entre variações de curto prazo e tendências duradouras.
Outro ponto de atenção é a mudança na cobertura de nuvens sobre os oceanos. As nuvens baixas são altamente refletivas, por isso, quando diminuem, mais radiação solar alcança a água escura do mar, que absorve energia na forma de calor. Isso pode formar um ciclo de retroalimentação: oceanos mais quentes reduzem determinadas nuvens, permitindo ainda mais absorção de calor.
Esse conjunto de fatores é observado no chamado desequilíbrio energético da Terra: a diferença entre a energia solar absorvida pelo planeta e o calor devolvido ao espaço. Estudos indicam que esse desequilíbrio cresceu fortemente nas últimas duas décadas, sinalizando que o sistema climático está acumulando energia em ritmo maior.
As incertezas sobre nuvens e aerossóis permanecem entre os maiores desafios para os modelos climáticos. Algumas pesquisas recentes sugerem que o planeta pode ser mais sensível às emissões do que se estimava, o que significaria maior aquecimento global para a mesma quantidade de carbono lançada na atmosfera. Porém, ainda há cautela, pois as observações disponíveis cobrem períodos relativamente curtos e sofrem influência da variabilidade natural.
A conclusão consolidada pela ciência é que o combate à poluição do ar deve continuar, pelos benefícios à saúde e ao ambiente, mas não substitui o corte das emissões de gases de efeito estufa. Sem reduzir o uso de combustíveis fósseis, a retirada desse antigo “escudo” de partículas apenas torna mais visível o aquecimento global já em curso.