“Em O Futuro da Economia Brasileira, Paulo R. Haddad propõe uma transformação assentada em planejamento, inovação, justiça social e sustentabilidade. A Amazônia ocupa posição decisiva nessa travessia, embora ainda permaneça o desafio de converter suas potencialidades em projetos, indústria e poder regional de decisão.”
Por BrasilAmazoniaAgora – Alfredo Lopes
Alguns livros procuram interpretar a economia brasileira e há aqueles que tentam retirá-la de sua acomodação. O Futuro da Economia Brasileira – Narrativas de Esperança, de Paulo R. Haddad, pertence ao segundo grupo. Ao longo de 119 páginas, o economista reúne diagnóstico, história econômica, ecologia, planejamento regional e propostas de investimento para sustentar uma ideia que atravessa toda a obra: o país dificilmente resolverá seus problemas estruturais por meio de correções parciais, sucessivos ajustes fiscais e programas subordinados ao calendário eleitoral.
A expressão escolhida por Haddad é “Grande Transformação”. Trata-se de substituir a administração rotineira das dificuldades por um projeto de longo prazo, entre 2026 e 2040, capaz de articular crescimento econômico, distribuição da renda e proteção dos ecossistemas. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas funcionariam como referência para orientar essa reconstrução.
O livro parte de uma constatação conhecida, mas frequentemente dissolvida no debate conjuntural. O Brasil está entre as maiores economias do mundo e continua marcado por desigualdades sociais e espaciais profundas, baixo crescimento e uso predatório do patrimônio natural. A renda se concentra entre grupos cada vez menores, a pobreza mantém endereço, cor e gênero, enquanto regiões inteiras permanecem dependentes de transferências públicas e distantes dos centros onde se decide a política econômica.
Haddad observa que as políticas compensatórias são indispensáveis para assegurar condições mínimas de sobrevivência, porém não substituem a criação de empregos produtivos, renda própria e oportunidades. Uma sociedade que apenas administra a pobreza acaba preservando os mecanismos que a reproduzem. Daí a importância atribuída à industrialização, à ciência e tecnologia, à infraestrutura e à mobilização das capacidades econômicas locais.
Essa passagem é uma das mais férteis do livro. O autor recupera o desenvolvimento endógeno, concebido a partir da capacidade de cada comunidade ou região para mobilizar seus recursos humanos, naturais, empresariais e institucionais. O desenvolvimento regional, nessa perspectiva, depende tanto do acesso a investimentos nacionais quanto da existência de lideranças locais capazes de formular projetos, negociar recursos e coordenar interesses.
É uma advertência particularmente relevante para a Amazônia. Durante décadas, a região foi tratada como reserva de matérias-primas, fronteira de expansão econômica ou patrimônio ambiental administrado a partir de fora. Haddad propõe uma inversão desse percurso. A floresta, a biodiversidade e os conhecimentos acumulados na região precisam sustentar cadeias produtivas comandadas também por ciência, tecnologia, beneficiamento industrial e participação das comunidades.
A bioeconomia depois do discurso
Um dos capítulos mais próximos da agenda defendida pelo Brasil Amazônia Agora é dedicado à reindustrialização por meio da bioeconomia amazônica. Haddad reconhece o vasto número de possibilidades, do açaí ao pirarucu, das madeiras manejadas aos biocombustíveis e produtos de maior conteúdo científico. Mas introduz uma distinção essencial para o debate: potencialidades, por mais extraordinárias que sejam, não constituem projetos de investimento.
A frase com que resume o problema merece circular entre governos, bancos, universidades e entidades empresariais: nenhuma instituição financia ideias, mas projetos.
Boa parte da bioeconomia amazônica ainda se encontra presa ao inventário das oportunidades. Identificam-se espécies, princípios ativos, mercados possíveis e conhecimentos tradicionais, mas são raros os arranjos que reúnem pesquisa aplicada, escala produtiva, segurança regulatória, financiamento, certificação, logística e acesso aos compradores. Entre a biodiversidade e o mercado permanece um espaço institucional pouco ocupado.
O livro sugere a organização de um sistema regional de promoção industrial da bioeconomia. As atividades extrativistas e os primeiros beneficiamentos poderiam permanecer próximos às comunidades, enquanto as etapas intensivas em ciência, tecnologia e industrialização seriam realizadas nas capitais e cidades médias da Amazônia. Essa arquitetura permitiria distribuir renda no interior sem abrir mão da densidade tecnológica necessária para competir em mercados nacionais e internacionais.
Para o Amazonas, a proposta encontra uma base que o próprio livro poderia explorar mais profundamente. Manaus dispõe de parque industrial, universidades, institutos de pesquisa, empresas globais, infraestrutura tecnológica e uma política de incentivos preservada até 2073. A conexão entre o Polo Industrial de Manaus, o Centro de Bionegócios da Amazônia, a Embrapa, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, as universidades e as populações do interior pode produzir uma bioeconomia mais robusta do que a simples comercialização de produtos florestais.
A Zona Franca de Manaus aparece pouco na obra, apesar de representar a principal experiência brasileira de industrialização em plena floresta tropical. Essa ausência abre uma conversa importante com a tese de Haddad. Se a Grande Transformação exige indústria sustentável, inovação tecnológica e redução das desigualdades regionais, o modelo amazonense deveria integrar o centro dessa reflexão, inclusive para que suas fragilidades sejam enfrentadas: dependência elevada de componentes importados, baixa integração com a biodiversidade, concentração econômica em Manaus e reduzido transbordamento da riqueza para o interior.
O caminho sugerido pelo próprio livro permitiria atualizar essa política. O conhecimento industrial acumulado durante mais de meio século pode ser mobilizado para fabricar medicamentos, cosméticos, alimentos funcionais, equipamentos de monitoramento ambiental, sistemas de energia limpa, baterias, componentes eletrônicos e tecnologias destinadas à adaptação climática. A indústria instalada deixaria de ser observada apenas pelo que produz atualmente e passaria a ser convocada para ajudar a construir a economia amazônica das próximas décadas.
A indústria das mudanças climáticas
Outro ponto original da obra é a proposta de transformar o Brasil em um dos maiores produtores mundiais da chamada indústria da mudança climática. Haddad pensa em uma cadeia de máquinas, equipamentos, bens duráveis e soluções tecnológicas destinadas à transição energética, ao saneamento, à recuperação de bacias hidrográficas, à logística de baixo carbono e à adaptação aos eventos extremos.
Aqui, novamente, a Amazônia deixa de ser apenas beneficiária de políticas ambientais. Pode tornar-se produtora das tecnologias necessárias à conservação da floresta e à sobrevivência das cidades. Sistemas de armazenamento de energia, embarcações menos poluentes, sensores, drones, equipamentos de comunicação, tratamento de água, monitoramento de queimadas e soluções para comunidades isoladas poderiam compor uma agenda industrial associada ao Polo de Manaus.
Essa aproximação entre política industrial e política climática provavelmente seja uma das maiores contribuições do livro. O país costuma discutir meio ambiente no âmbito da fiscalização e indústria no âmbito da produtividade. Haddad reúne os dois campos e mostra que a transição ecológica também abre mercados, demanda capital, cria empregos e reorganiza cadeias produtivas.
O autor inclui ainda entre os grandes projetos a modernização tecnológica da agricultura, o fortalecimento dos arranjos produtivos locais e a exploração de petróleo na Margem Equatorial. Neste último caso, sustenta que a transição energética será longa e que o país pode explorar seus recursos petrolíferos mediante critérios rigorosos de sustentabilidade, investindo parte do excedente na construção de alternativas renováveis.
Essa é a parte mais controversa da obra. A aposta na capacidade tecnológica para reduzir riscos ambientais precisa conviver com as limitações do licenciamento, a fragilidade da fiscalização e a singularidade ecológica da região. A experiência amazônica recomenda cautela diante da crença de que todos os impactos poderão ser antecipados, mitigados ou compensados. Ainda assim, Haddad enfrenta a contradição sem contorná-la: um país desigual, pressionado por necessidades imediatas, precisa decidir como financiar sua transição sem transformar a proteção ambiental em promessa abstrata.
Quem conduzirá a transformação?
A pergunta política permanece depois da última página. Quem possui força, continuidade e legitimidade para coordenar um projeto nacional que atravesse governos e combine interesses tão diversos?
Haddad atribui ao Estado a coordenação estratégica, ao setor privado a liderança de grande parte dos investimentos e à sociedade civil participação na definição das prioridades. O planejamento seria indicativo e negociado, com projetos submetidos a critérios de rentabilidade econômica, retorno social e sustentabilidade ambiental. A cooperação entre esses atores deveria evitar tanto a centralização burocrática quanto a dispersão de iniciativas sem escala.
O apêndice sobre planejamento participativo dá densidade a essa proposta. Haddad reconhece que a participação social não é um ritual automaticamente virtuoso. Comunidades possuem conflitos internos, informação desigual, interesses imediatos e diferentes capacidades de organização. A participação precisa ser acompanhada de conhecimento técnico, transparência sobre restrições financeiras e compromisso com a execução.
Para a Amazônia, isso implica devolver capacidade decisória às instituições regionais sem isolá-las dos recursos nacionais.Desenvolvimento endógeno não significa abandono federal. Significa permitir que universidades, empresas, comunidades, governos estaduais e entidades locais participem da concepção dos investimentos, em vez de serem consultados depois que os projetos chegam praticamente definidos.
O Futuro da Economia Brasileira é uma obra de intervenção. Sua maior virtude está em devolver ao debate econômico palavras que perderam espaço nos últimos anos: planejamento, industrialização, desenvolvimento regional, ciência, projeto nacional e longo prazo. Sua “narrativa de esperança” evita tratar o futuro como resultado espontâneo das forças de mercado ou como consequência automática de um novo governo.
O livro também deixa questões abertas. A Grande Transformação precisará definir fontes de financiamento, estruturas de governança, responsabilidades federativas e mecanismos que impeçam que os projetos sejam capturados por grupos econômicos ou interesses eleitorais. Na Amazônia, terá ainda de enfrentar a distância entre os grandes planos e as condições concretas de populações que vivem com energia precária, internet limitada, saneamento insuficiente e logística sujeita ao regime dos rios.
Mesmo com essas lacunas, a tese permanece consistente. O Brasil dispõe de recursos naturais, conhecimento científico, mercado interno, capacidade empresarial e instituições suficientes para mudar sua trajetória. O obstáculo está na dificuldade de reuni-los em torno de prioridades duradouras.
Paulo R. Haddad oferece uma arquitetura para essa mudança. Cabe à Amazônia entrar nesse desenho com voz própria, projetos maduros e ambição industrial. Afinal, se o futuro da economia brasileira será sustentável, parte decisiva dele terá de ser pensada, pesquisada e produzida dentro da floresta.