O dinheiro do clima que não chega até a floresta

Diretora do Fundo Brasil, Allyne Andrade, explica por que editais públicos e resposta emergencial são essenciais para proteger indígenas, quilombolas e territórios preservados no país.

A diretora executiva do Fundo Brasil, Allyne Andrade, afirma que boa parte do financiamento climático discutido nas grandes rodadas internacionais não chega a quem mais precisa dele: os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que vivem nos territórios mais preservados do país. Em entrevista à Agência Brasil, ela detalhou como a fundação tenta reverter esse cenário e traçou um balanço dos 20 anos da instituição, completados em 2026.

Allyne assumiu a diretoria executiva em maio deste ano. Carioca de Realengo e formada pela Uerj por meio da política de cotas, ela é advogada, doutora e especialista em Teoria Crítica, com trajetória construída em paralelo ao ativismo no movimento social antirracista. 

Segundo ela, o problema tem origem estrutural. “Esses recursos não chegavam aos povos e comunidades tradicionais — aquelas pessoas que estão mais próximas do território, que sofrem os efeitos da crise climática mas que também são aquelas que mantêm os territórios mais preservados dentro do Brasil”, relembrou. O diagnóstico levou o Fundo Brasil a criar, em 2023, o programa Raízes, uma linha dedicada à justiça climática, voltada a indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais.

O programa combina dois formatos. De um lado, editais públicos, nos quais organizações que atuam nos territórios apresentam projetos avaliados por comitês externos de especialistas. De outro, aportes emergenciais de resposta rápida, destinados a proteger lideranças ameaçadas, uma necessidade que, segundo Allyne, decorre da própria lógica do desmatamento. 

“A gente sabe que o desmatamento atende a uma lógica de conflito territorial, que expõe lideranças a ameaças durante a proteção do território contra processos de grilagem, de avanço ilegal da fronteira agrícola, de desmatamento por mineração, madeireiras”. A mesma estrutura de resposta rápida foi acionada em situações de extremos climáticos, como as enchentes no Rio Grande do Sul.

Os números dão dimensão ao trabalho, em duas décadas, o Fundo Brasil já doou R$ 141 milhões a 2,5 mil iniciativas. Somente em 2025, foram R$ 32 milhões destinados à sociedade civil organizada, um aumento de quase 20% em relação a 2024. Já o Raízes soma mais de R$ 6 milhões em doações diretas desde sua criação.

Para os próximos anos, Allyne projeta uma comunicação mais próxima dos movimentos sociais e das organizações da sociedade civil, orientada por uma concepção de direitos humanos construída a partir dos próprios povos: “queremos tratar de direitos repensados para os desafios atuais, a partir de povos e comunidades tradicionais e de um movimento decolonial, antirracista, com diversidade, inclusão e que respeite as cosmovisões e cosmogonias dos povos e comunidades tradicionais”. 

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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