O salário cai na conta e desaparece: siga o dinheiro

O Brasil registrou em agosto a maior deflação dos últimos quatro anos. Na prática, isso significa que, na média, alguns preços ficaram um pouco menores do que no mês anterior. A energia elétrica e determinados alimentos ajudaram a puxar o índice para baixo.

Então por que tanta gente continua endividada? Por que o salário acaba antes do fim do mês? Para entender, é preciso seguir o dinheiro desde o momento em que ele entra na conta da família.

Há uma diferença importante entre queda de preços e custo de vida baixo.

Se um produto passou de R$ 10 para R$ 15 ao longo dos últimos anos e depois caiu para R$ 14, ele ficou mais barato em relação ao mês anterior. Continua, porém, muito mais caro do que antes.

É isso que acontece com boa parte das despesas domésticas. Uma queda mensal da inflação traz algum alívio, mas não apaga os aumentos acumulados. O aluguel continua alto. O remédio pesa no orçamento. O transporte custa caro. A compra do supermercado permanece distante da realidade de muitas famílias.

Além disso, a inflação é calculada a partir de uma média. Cada família sente os preços de maneira diferente. Quem ganha pouco utiliza quase toda a renda para pagar necessidades básicas. Qualquer aumento na comida, no gás, na energia ou no transporte produz um impacto muito maior nesse orçamento.

SIGA O DINHEIRO
Pesquisa revela que pessoas do sexo masculino são a maioria dos apostadores. Foto: Agência Brasil

Antes mesmo de entrar, parte do salário já tem destino certo.

São parcelas do cartão de crédito, empréstimos, prestações de eletrodomésticos, financiamentos e contas atrasadas. Muitas famílias passaram a usar o crédito para comprar comida e pagar despesas comuns. O cartão deixou de ser uma facilidade e virou uma extensão da renda.

O problema aparece no mês seguinte. A conta chega acrescida de juros. Quando a família não consegue pagar o valor total, a dívida cresce. Para cobrir uma despesa, faz-se outro empréstimo ou um novo parcelamento. Aos poucos, o orçamento fica preso a compromissos antigos.

De acordo com a Confederação Nacional do Comércio, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em agosto de 2026, o maior percentual da série histórica. Quase 30% tinham contas atrasadas.

Entre as famílias que recebem até três salários mínimos, a situação é ainda mais grave. Nessa faixa, 85,1% estavam endividadas e 38,8% tinham pagamentos em atraso. Cerca de 18% afirmavam não possuir condições de quitar essas contas.

Esses números ajudam a compreender por que a queda de alguns preços quase não é percebida. O pequeno alívio obtido no supermercado pode ser rapidamente engolido pelos juros cobrados no cartão.

Quando uma família compra alimentos na feira, paga o conserto da geladeira ou adquire roupas no comércio do bairro, o dinheiro continua circulando.

O feirante paga seus fornecedores. A oficina compra peças. A loja repõe o estoque. Esses estabelecimentos mantêm empregados, recolhem impostos e contratam outros serviços. Um mesmo recurso passa por várias mãos e movimenta a economia.

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Uma parte crescente da renda familiar está sendo depositada em plataformas digitais. O apostador geralmente recebe algum valor de volta, mas a casa de apostas fica com uma parcela. No conjunto, são bilhões de reais retirados do consumo das famílias.

Em 2025, os brasileiros depositaram aproximadamente R$ 220,6 bilhões nas casas de apostas autorizadas pelo governo federal. Depois do pagamento dos prêmios, cerca de R$ 36,9 bilhões permaneceram com as empresas.

Outras estimativas, que consideram um universo mais amplo de transferências, calculam perdas líquidas das famílias próximas de R$ 62,5 bilhões.

Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo estima que as bets podem ter retirado até R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025.

Esse número não significa que R$ 141 bilhões foram simplesmente transferidos para as contas das empresas de apostas. Trata-se da estimativa mais elevada de um modelo que calcula também o efeito do dinheiro que deixou de circular em outros setores.

Imagine uma família que perdeu R$ 200 em apostas. Com esse valor, ela poderia comprar alimentos, pagar uma conta, adquirir material escolar ou contratar algum serviço. O comerciante que receberia esses R$ 200 também utilizaria parte do dinheiro para pagar fornecedores e trabalhadores.

Quando o recurso é retirado desse circuito, vários negócios deixam de acontecer. A soma dessas perdas ajuda a explicar o impacto estimado sobre o Produto Interno Bruto.

Segundo o mesmo estudo, a redução da atividade econômica pode ter provocado uma perda de até R$ 46 bilhões na arrecadação pública. É dinheiro que poderia financiar saúde, educação, segurança e outros serviços.

Como se trata de uma estimativa baseada em cenários econômicos, o valor de R$ 141 bilhões precisa ser apresentado com cautela. Mesmo assim, ele revela o tamanho do problema e mostra que os efeitos das apostas ultrapassam a vida de quem joga.

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Pesquisa revela que pessoas do sexo masculino são a maioria dos apostadores. Foto: Agência Brasil

As apostas atingem com maior força as famílias de renda baixa.

Segundo os dados apresentados no estudo, 75% dos apostadores pertencem a famílias que recebem até cinco salários mínimos. Desse total, 43% vivem com até dois salários mínimos.

Para quem tem renda elevada, perder R$ 100 pode representar uma despesa de lazer. Para quem ganha um salário mínimo, o mesmo valor pode significar parte da compra de alimentos, uma conta de energia ou um medicamento.

Outra pesquisa mostrou que 53% dos apostadores já atrasaram contas para continuar jogando. Cerca de 59% reduziram despesas domésticas. Há também estudos indicando que apostadores apresentam probabilidade maior de entrar na inadimplência.

A promessa de dinheiro rápido encontra terreno fértil justamente onde falta renda. Muitas pessoas apostam porque desejam sair de uma situação difícil, pagar uma dívida ou melhorar a vida da família. A chance de perda, porém, faz parte do funcionamento do negócio. A plataforma lucra porque, no conjunto das apostas, os jogadores perdem mais do que ganham.

O trajeto do dinheiro ajuda a explicar a situação:

Forma-se um ciclo. O crédito utilizado para completar a renda produz juros. A aposta feita na esperança de resolver a dificuldade pode aumentar o prejuízo. A família perde capacidade de comprar, enquanto o comércio também deixa de vender.

Na outra ponta desse caminho estão os bancos, as administradoras de cartão e as plataformas de apostas.

Os bancos recebem juros. As empresas de apostas ficam com a diferença entre os depósitos e os prêmios pagos. Parte das plataformas pertence a grupos internacionais, permitindo que uma parcela dessa receita saia do país.

O Estado arrecada impostos sobre essas atividades, mas a receita tributária precisa ser comparada aos prejuízos sociais e econômicos. Entram nessa conta o aumento do endividamento, a redução do consumo, os problemas de saúde mental, a desestruturação familiar e a necessidade de atendimento público às pessoas que desenvolveram dependência.

O Brasil precisa tratar as apostas como uma questão econômica, social e de saúde pública.

A publicidade merece limites mais rigorosos, principalmente quando associa o jogo a sucesso, investimento ou solução financeira. Também podem ser estabelecidos limites de depósitos e de perdas, mecanismos para impedir apostas feitas com recursos de programas sociais e ferramentas que permitam ao usuário bloquear voluntariamente seu acesso às plataformas.

É necessário fiscalizar as empresas ilegais, controlar melhor as movimentações financeiras e exigir informações claras sobre as probabilidades de perda. Pessoas que desenvolveram dependência precisam encontrar atendimento no sistema de saúde.

A educação financeira ajuda, mas tem alcance limitado quando a família não possui renda suficiente para as necessidades básicas. O combate ao endividamento também depende de juros menores, empregos estáveis, salários adequados e acesso a crédito em condições menos abusivas.

A deflação de agosto trouxe algum alívio, sobretudo na energia e em determinados alimentos. Para milhões de famílias, porém, o problema está no que acontece com a renda depois que ela chega.

O salário paga dívidas antigas, alimenta juros elevados e, cada vez mais, escorre pelas telas dos celulares em apostas que prometem uma saída rápida. Quando seguimos o dinheiro, entendemos por que os preços podem cair nas estatísticas enquanto a mesa e o bolso do brasileiro continuam apertados.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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