A visita de executivos das maiores montadoras chinesas revela mais do que novas oportunidades de investimento. Ela indica que a reorganização da economia mundial começa a alcançar a floresta.
Coluna Follow-Up
Enquanto boa parte do debate econômico brasileiro permanecia concentrada nas tarifas anunciadas por Washington, uma movimentação discreta ocorria em Manaus. Executivos responsáveis por compras globais, diretores industriais e vice-presidentes de grandes empresas chinesas percorriam as instalações da Suframa, reuniam-se com empresários no CIEAM e na FIEAM, visitavam fábricas e procuravam compreender, com a objetividade própria das decisões industriais, o que o Polo Industrial de Manaus poderia oferecer às novas cadeias internacionais de suprimentos.
As perguntas eram diretas. Quais produtos já são fabricados na região? Que fornecedores estão instalados? Qual é a capacidade tecnológica disponível? Quanto tempo seria necessário para integrar empresas locais a novos projetos industriais?
Missões empresariais desse porte não atravessam continentes por interesse protocolar. Elas costumam ocorrer quando mudanças importantes na economia internacional obrigam empresas e governos a reconsiderar suas estratégias de produção, fornecimento e acesso a mercados. Foi o que aconteceu nos últimos anos.
Durante décadas, a globalização organizou-se em torno da eficiência. Empresas concentraram a produção onde os custos fossem menores, adquiriram componentes de fornecedores dispersos por diversos países e confiaram na relativa estabilidade do comércio internacional para manter o funcionamento das cadeias produtivas.
Conflitos geopolíticos, disputas comerciais, restrições tecnológicas, sanções econômicas e sucessivas crises logísticas demonstraram que a eficiência, quando construída sobre cadeias excessivamente longas e concentradas, pode produzir dependências difíceis de administrar. Tarifas deixaram de exercer apenas uma função arrecadatória e passaram a integrar as estratégias de política industrial e de segurança econômica das grandes potências.
Nesse ambiente, as empresas procuram reduzir riscos, diversificar fornecedores, aproximar etapas produtivas dos mercados consumidores e evitar a dependência excessiva de um único país ou corredor logístico. A resiliência passou a ocupar espaço semelhante ao da produtividade nas decisões de investimento.
É nesse redesenho que Manaus começa a ser observada sob uma perspectiva diferente.
Depois de quase seis décadas de atividade industrial, o Polo Industrial de Manaus reúne uma base de fornecedores, trabalhadores qualificados, engenheiros, centros de pesquisa, estruturas logísticas e unidades produtivas capazes de operar segundo padrões internacionais. Sua presença no centro da América do Sul, durante muito tempo apresentada como uma dificuldade geográfica, pode assumir outro significado quando empresas globais passam a procurar plataformas industriais capazes de atender a diferentes mercados sem reproduzir as mesmas dependências que caracterizaram a fase anterior da globalização.
A Zona Franca de Manaus costuma ser apresentada ao restante do país quase exclusivamente por meio dos incentivos fiscais que sustentam sua competitividade. Esses instrumentos continuam fundamentais, mas já não explicam, isoladamente, o interesse de grupos industriais estrangeiros pela região.
Os executivos que visitaram Manaus não vieram apenas conhecer um regime tributário. Vieram avaliar competências acumuladas ao longo de décadas. Observaram linhas automatizadas, sistemas de controle de qualidade, capacidade de engenharia, fornecedores especializados e processos industriais relacionados à eletrônica, à mobilidade, à conectividade e ao gerenciamento de energia.
Procuravam compreender como um parque industrial instalado no interior da Amazônia conseguiu desenvolver uma estrutura tecnológica capaz de participar da transformação mais profunda vivida pela indústria automobilística desde a consolidação do motor a combustão.
A presença de empresas como BYD, Geely, GWM, Chery e Visteon ajuda a dimensionar o significado da missão. Esses grupos participam diretamente da disputa mundial por posições nos segmentos de veículos elétricos, baterias, eletrônica embarcada, sistemas digitais, conectividade e inteligência veicular.
Não procuram apenas locais onde seja possível montar produtos finais. Procuram ambientes industriais capazes de acompanhar ciclos rápidos de inovação, integrar fornecedores e adaptar processos produtivos a tecnologias que se modificam em intervalos cada vez menores.
Essa característica altera a natureza das oportunidades colocadas diante do Amazonas.
A questão não se limita à eventual instalação de novas fábricas. O ponto central é saber que posição a região poderá ocupar nas cadeias de conhecimento, tecnologia e engenharia associadas à nova mobilidade.
Uma empresa que hoje fornece displays pode, em condições adequadas, participar do desenvolvimento de interfaces digitais. Um fabricante de módulos eletrônicos pode avançar para a integração de sistemas inteligentes. Uma unidade especializada em manufatura pode incorporar atividades de projeto, testes, software e engenharia.
O amadurecimento de uma economia industrial costuma ocorrer dessa maneira. As atividades inicialmente concentradas na montagem e na produção avançam, gradualmente, para etapas de maior complexidade tecnológica e maior capacidade de geração de valor.
Manaus possui condições para participar desse movimento, mas isso dependerá de escolhas que ultrapassam a política tributária.
O relatório preparado pelo CIEAM para a missão empresarial identifica fatores conhecidos, como logística, infraestrutura, segurança jurídica, pesquisa aplicada e formação profissional. São áreas que determinarão se o interesse inicial poderá converter-se em contratos, projetos tecnológicos e investimentos duradouros.
Também será necessário ampliar a conexão entre o parque industrial, as universidades, os institutos de pesquisa e os centros de inovação. A nova indústria automobilística depende cada vez menos da mecânica tradicional e cada vez mais de semicondutores, sensores, algoritmos, baterias, sistemas de comunicação, softwares e materiais avançados. A capacidade de produzir componentes continuará relevante, mas será insuficiente sem uma estrutura capaz de desenvolver e adaptar tecnologia.
A visita chinesa deve ser compreendida ainda dentro de uma mudança mais ampla na inserção internacional brasileira.
O Brasil construiu sua tradição diplomática procurando dialogar com diferentes polos de poder, preservar margens de autonomia e diversificar relações econômicas. Essa orientação adquire novo valor quando tarifas, sanções e restrições comerciais passam a ser utilizadas como instrumentos permanentes de competição entre as grandes economias.
Em vez de reproduzir escolhas excludentes, o país pode ampliar interlocutores e estabelecer relações industriais com diferentes mercados. A Amazônia ocupa posição particular nessa estratégia porque reúne ativos que normalmente aparecem separados em outras regiões.
A floresta interessa à ciência e à agenda climática. A biodiversidade amplia as possibilidades da bioeconomia. Os minerais estratégicos são relevantes para a transição energética. O Polo Industrial de Manaus oferece uma base manufatureira consolidada. Universidades, institutos e centros de pesquisa acumulam conhecimento sobre sistemas naturais que ganharão importância econômica crescente nas próximas décadas.
A força da região não reside em cada um desses elementos isoladamente, mas na possibilidade de articulá-los.
Foi essa combinação que começou a aparecer nas reuniões realizadas em Manaus. A missão empresarial não encontrou apenas fábricas, assim como não encontrou apenas floresta. Encontrou um território onde indústria, conhecimento científico, recursos naturais e relações internacionais podem formar uma plataforma econômica de características pouco comuns.
Durante muito tempo, Manaus precisou explicar por que existia um parque industrial no interior da maior floresta tropical do planeta. A visita de alguns dos principais grupos industriais chineses sugere uma inversão importante. Agora, são empresas com atuação global que procuram compreender como essa estrutura produtiva foi construída, quais competências acumulou e que papel poderá desempenhar nas cadeias industriais em reorganização.
Essa mudança de perspectiva não significa que a Amazônia tenha deixado sua condição periférica. Indica, porém, que começa a ser considerada em decisões que envolvem tecnologia, comércio, segurança de fornecimento e estratégia industrial.
A missão também não inaugura as relações entre a China e a Amazônia. Essas relações já existem no comércio, nos investimentos, na aquisição de produtos e na presença crescente de empresas chinesas no mercado brasileiro. O que parece surgir agora é uma etapa mais complexa, na qual a discussão se desloca da simples circulação de mercadorias para a integração de fornecedores, competências tecnológicas e capacidades industriais.
Quase simultaneamente, o reconhecimento do Teatro Amazonas e do Theatro da Paz como Patrimônio Mundial oferece uma referência histórica particularmente oportuna.
Os dois edifícios foram erguidos durante o ciclo da borracha, quando a Amazônia ocupou posição central no comércio internacional de uma matéria-prima indispensável à industrialização. A região produzia a riqueza, mas não controlava o conhecimento, a tecnologia nem as estruturas comerciais que organizavam aquela cadeia de valor.
Quando as sementes de seringueira foram levadas para a Ásia e transformadas em plantações de alta produtividade, a Amazônia perdeu rapidamente sua posição. O episódio permanece como uma demonstração histórica dos limites de uma economia baseada na exportação de recursos sem domínio tecnológico e institucional sobre a cadeia produtiva.
A oportunidade atual possui natureza distinta.
A região pode participar não apenas como fornecedora de insumos ou local de montagem, mas também das etapas de engenharia, desenvolvimento, integração tecnológica e governança industrial. Para isso, deverá transformar as competências já existentes no Polo Industrial em capacidade permanente de inovação.
É essa passagem, da economia da matéria-prima para a economia do conhecimento, que aproxima simbolicamente os teatros da missão empresarial chinesa.
O ciclo da borracha mostrou que a Amazônia era capaz de gerar uma riqueza de dimensão mundial. A experiência também revelou que prosperidade sem controle sobre tecnologia, mercados e cadeias de valor pode ser intensa e, ao mesmo tempo, passageira.
O novo ciclo que se desenha oferece a possibilidade de construir uma relação diferente com a economia internacional. Uma relação na qual a floresta permaneça em pé, a indústria avance para atividades de maior densidade tecnológica e a região participe das decisões que determinam o valor econômico de seus recursos e de suas competências.
A presença dos executivos chineses em Manaus não garante que essa transformação ocorrerá. Mostra, contudo, que o Polo Industrial já entrou no campo de observação das empresas que estão redefinindo algumas das cadeias produtivas mais estratégicas do século XXI.
Caberá ao Amazonas decidir se continuará apresentando-se apenas como um lugar onde se produz com eficiência ou se passará a atuar como um território onde também se desenvolvem conhecimento, tecnologia e inteligência industrial.
Os teatros de Manaus e Belém permanecem como testemunhos de uma época em que a Amazônia participou intensamente da economia mundial, embora não comandasse os mecanismos que organizavam sua própria riqueza.
A missão chinesa permite imaginar uma trajetória diferente. Desta vez, a região poderá não apenas fornecer aquilo que o mundo procura, mas participar da concepção, da engenharia e da organização das cadeias que definirão a economia das próximas décadas.
Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br