Da defesa dos povos indígenas à crítica de uma economia que transforma vidas em excedentes, o pensador do rio Doce nos obriga a examinar o que estamos escolhendo quando falamos em progresso, desenvolvimento e futuro da Amazônia
Anotações de Alfredo Lopes – Brasil Amazônia Agora
O Brasil aprendeu a aplaudir Ailton Krenak. Ainda encontra enormes dificuldades para aceitar as consequências do que ele diz. Sua presença em cerimônias, universidades e debates convive com uma rotina de decisões na qual rios continuam subordinados aos negócios, territórios são tratados como obstáculos e comunidades precisam justificar sua existência diante de projetos que prometem enriquecer o país.
Essa distância entre o reconhecimento e a escuta atravessa sua trajetória. Há quase quatro décadas, Krenak levou à Assembleia Constituinte a denúncia de povos ameaçados em sua própria terra. Hoje, seus livros circulam pelo mundo, enquanto a pergunta que sustenta sua intervenção permanece desconfortavelmente próxima de nós. Que ideia de civilização permite chamar de avanço a destruição das condições que tornam a vida possível?
A frase que voltou a circular nas redes dá a medida desse desconforto. Em entrevista a Thais Reis Oliveira, publicada pela CartaCapital em 31 de dezembro de 2020, ele afirmou que a próxima missão do capitalismo seria “se livrar de ao menos metade da população do planeta”. Falava da pandemia, da desproteção social e de uma transformação econômica que poderia dispensar contingentes humanos até como força de trabalho.
A formulação expressa um prognóstico político radical, sem constituir uma projeção demográfica demonstrada. Seu alvo é a possibilidade de um sistema continuar acumulando riqueza enquanto considera cada vez mais pessoas dispensáveis. [1]
O descarte como projeto
A provocação alcança um ponto sensível de nossa época. O que acontece com o direito de existir quando a dignidade depende da capacidade de produzir, comprar ou oferecer retorno? Nessa conta, a velhice vira despesa, a pobreza vira incômodo e um povo que deseja permanecer em seu território pode ser apresentado como entrave.
É nesse terreno que a advertência de Krenak adquire força profética. A palavra profecia cabe aqui como capacidade de perceber, nas práticas aceitas do presente, a violência que elas podem aprofundar. Quem conhece a história de expulsões e apagamentos não precisa esperar que a exclusão atinja toda a sociedade para reconhecer seus mecanismos.
Para nós, a consequência política dessa leitura é direta. Quando o sofrimento alheio deixa de impor limites às decisões econômicas, abre-se espaço para administrar populações como sobras. Uma sociedade pode conservar eleições, mercados e instituições enquanto se acostuma a conviver com vidas às quais reserva muito pouco.
O rio que a contabilidade não alcança
Krenak nasceu no vale do rio Doce, em Minas Gerais. Sua ligação com a Amazônia passa pela atuação no movimento indígena e pela construção de alianças entre povos da floresta. Convém preservar essa origem e essa diversidade, sobretudo quando há tanta facilidade em reunir centenas de povos sob uma imagem genérica de sabedoria indígena. [2]
Para os Krenak, o rio Doce é Watu, um avô. Depois do rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana, em 2015, essa relação passou a carregar a experiência de uma devastação íntima. Em entrevista ao Projeto Preserva, em 2024, Ailton descreveu o rio como um avô em coma. [3]
A diferença aparece no alcance da perda. É possível discutir indenização, descontaminação e recuperação ambiental, todas necessárias, e ainda assim deixar de fora o rompimento de vínculos que organizavam a vida de uma comunidade. Como registrar o desaparecimento de um lugar de aprendizagem, convivência, alimento e memória?
Essa pergunta deveria acompanhar cada decisão sobre os rios amazônicos. Um estudo que descreve vazão, profundidade e potencial econômico precisa também alcançar a vida que depende daquelas águas. A insuficiência dessa escuta pode começar no planejamento e permanecer por gerações depois da obra.
A humanidade que se colocou acima da terra
Em Ideias para adiar o fim do mundo, Krenak questiona a separação entre humanidade e natureza. A convicção de que estamos fora da trama da vida permite tratar a Terra como matéria disponível e os demais seres como acessórios de nossa trajetória. Sua crítica alcança também a uniformização dos modos de viver, como se todos os povos devessem desejar o mesmo destino. [4]
O debate sobre o Antropoceno, entendido como a dimensão planetária das transformações humanas, ganha outra exigência sob essa perspectiva. Falar da espécie como responsável pela devastação não deve apagar as diferenças entre quem decide, quem lucra e quem sofre. Um povo que protege seu território não tem a mesma participação de uma organização que enriquece destruindo-o.
A aplicação dessa reflexão ao Brasil revela um problema recorrente. Empregamos a expressão interesse nacional com uma facilidade que dispensa perguntar quais interesses foram ouvidos. A experiência indígena alarga essa pergunta ao incluir seres e relações que o debate econômico costuma admitir apenas quando recebem um preço.
A vida sob a obrigação de dar retorno
A vida não é útil aprofunda a crítica à subordinação da existência ao consumo e à economia. Organizado por Rita Carelli a partir de falas de Krenak, o livro confronta a ideia de que a continuidade da atividade econômica pode servir de justificativa suprema, mesmo diante da devastação e da morte. [5]
A provocação nos permite reconsiderar o tempo gasto sem produzir mercadorias, a conversa que não termina em negócio, o cuidado que não aparece nos indicadores, o prazer de permanecer junto. Nessa leitura, a vida vai perdendo espessura quando cada experiência precisa apresentar uma utilidade.
Para uma sociedade preocupada com emprego e renda, a discussão exige seriedade. Há necessidades materiais urgentes, sobretudo onde faltam comida, saneamento e atendimento médico. Justamente por isso, importa perguntar que organização econômica atende a essas necessidades e qual apenas transfere para os mais vulneráveis os custos de sua expansão.
Adiar o fim também exige imaginação
Na obra de Krenak, contar histórias, cantar, dançar e preservar diferentes experiências de mundo fazem parte da resistência à homogeneização. A possibilidade de continuar narrando a existência mantém abertos caminhos que a ideia de um destino único pretende encerrar. [4]
Essa dimensão ajuda a compreender por que a cultura ocupa tanto espaço em sua intervenção. Uma língua carrega maneiras de perceber relações, transmitir experiências e nomear o que importa. Seu desaparecimento empobrece também as possibilidades de pensar.
Daí decorre uma tarefa que alcança a educação e a comunicação. Uma escola amazônica precisa oferecer acesso ao conhecimento científico e, ao mesmo tempo, reconhecer a inteligência do território em que está situada. A criança pode aprender sobre o mundo sem receber, como primeira lição, a ideia de que o lugar de onde veio representa atraso.
Em Futuro ancestral, essa abertura ganha uma formulação decisiva. Krenak desloca a expectativa de salvação sempre adiada para o reconhecimento de relações e saberes que já sustentam a vida. A ancestralidade participa da construção do porvir; sua permanência permite imaginar outros futuros. [6]
O incômodo que a amazônia precisa preservar
Para o Brasil Amazônia Agora, que defende desenvolvimento com a floresta em pé, o encontro com Krenak deve conservar sua dificuldade. Seria cômodo incorporá-lo como avalista de qualquer atividade anunciada como sustentável. Seu pensamento exige examinar também a linguagem com que apresentamos nossas próprias propostas.
Bioeconomia, inovação e transição energética precisam ser avaliadas por seus efeitos. Quem controla o conhecimento? Quem recebe a renda? Que autonomia permanece com as comunidades? Quais danos são considerados aceitáveis e quem terá de conviver com eles?
Essa é uma aplicação editorial de suas provocações ao nosso território. A defesa da indústria, da pesquisa e das oportunidades de trabalho ganha consistência quando admite limites e distribui benefícios. A proximidade geográfica da floresta, por si só, não torna uma atividade comprometida com sua permanência.
Há uma diferença concreta entre ampliar a capacidade de decisão dos habitantes da Amazônia e torná-los fornecedores de matéria-prima, informação genética ou imagens para projetos decididos longe dali. Ela merece acompanhar a análise de cada investimento, inclusive daqueles apresentados com o vocabulário mais sedutor.
A voz que entrou na academia
Em 4 de setembro de 1987, Krenak pintou o rosto de preto enquanto defendia os direitos indígenas na Assembleia Constituinte. O gesto tornou visível uma denúncia que a linguagem habitual do poder conseguia manter à distância. [7]
Em 5 de abril de 2024, tomou posse na cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras, tornando-se o primeiro indígena a integrar a instituição. O reconhecimento ampliou o espaço de circulação de sua voz e das questões que ela carrega. Os saberes que chegaram com ele, porém, possuíam história e legitimidade muito antes dessa acolhida. [8]
É possível admirar a solenidade e continuar incomodado com o que permanece fora dela. Ouvir Krenak implica reconhecer povos contemporâneos, com direitos, divergências e projetos próprios. A celebração da ancestralidade se esvazia quando vem acompanhada da recusa de seus portadores como participantes das decisões presentes.
O que faremos depois dos aplausos
Num momento de escolhas políticas, o pensamento de Krenak oferece critérios exigentes. Obriga a observar quais projetos dependem do enfraquecimento de direitos, quais promessas transferem prejuízos para o futuro e quais interesses pedem que uma comunidade aceite o desaparecimento de seu mundo em nome do bem de todos.
A força de sua voz está também em retirar conforto de quem a escuta. Seus argumentos atravessam a preferência partidária e alcançam as concessões que fazemos quando o empreendimento é de nosso interesse, o governante é nosso aliado ou o prejuízo parece suficientemente distante.
A Amazônia tem razões para acolher essa inquietação. Precisamos de renda, ciência, indústria, saúde e educação, e precisamos discutir com mais profundidade as condições em que serão construídas. O futuro ancestral ganha sentido nesse trabalho cotidiano, quando o conhecimento acumulado por gerações participa das escolhas sobre o território.
Krenak continuará sendo convidado a falar. Resta saber quanto de sua palavra encontrará lugar nos orçamentos, nas escolas, nos projetos econômicos e nas decisões sobre a terra. Ali, longe do conforto dos aplausos, poderemos reconhecer a extensão de nossa escuta.
Referências
[1] Thais Reis Oliveira. Entrevista com Ailton Krenak. CartaCapital, 31/12/2020.
https://www.cartacapital.com.
[2] Academia Brasileira de Letras. Biografia de Ailton Krenak.
https://www.academia.org.br/
[3] Projeto Preserva. Ailton Krenak II: “O Watu, o nosso avô, está em coma”, 02/11/2024.
https://www.projetopreserva.
[4] Ailton Krenak. Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras, 2019.
https://n.companhiadasletras.
[5] Ailton Krenak. A vida não é útil. Organização de Rita Carelli. Companhia das Letras, 2020.
https://www.
[6] Ailton Krenak. Futuro ancestral. Companhia das Letras, 2022.
https://www.
[7] Discurso de Ailton Krenak na Assembleia Constituinte, 04/09/1987. Reprodução na revista GIS, USP.
https://revistas.usp.br/gis/
[8] Academia Brasileira de Letras. Ailton Krenak toma posse na ABL e diz representar pluralidade indígena.
https://www.academia.org.br/