Reportagem analisa propostas e desafios dos governadores eleitos na Amazônia para clima, bioeconomia, conservação e desenvolvimento regional.
Com mais de 18,3 milhões de eleitores aptos a votar em 2026, cerca de 11,5% do eleitorado nacional, a Amazônia Legal encerrou o primeiro turno das eleições com o comando de seis de seus nove estados já definido. Entre os governadores eleitos na Amazônia, segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), estão: Dr. Furlan (PSD), no Amapá; Eduardo Braide (PSD), no Maranhão; Otaviano Pivetta (Republicanos), em Mato Grosso; Dr. Daniel Santos (Podemos), no Pará; Marcos Rogério (PL), em Rondônia; e Arthur Henrique (PL), em Roraima.
Nos outros três estados, a escolha dos governadores segue para o segundo turno. No Acre, Mailza Assis (PP), que recebeu 49,76% dos votos válidos, enfrentará Alan Rick (Republicanos), com 32,27%. No Amazonas, Omar Aziz (PSD) avançou à segunda etapa após liderar a votação com 40,63% e disputará o governo com Professora Maria do Carmo (PL), que obteve 24,49%. Já no Tocantins, a disputa ocorre entre Professora Dorinha (União Brasil), que terminou o primeiro turno com 45,52% dos votos válidos, e Vicentinho Júnior (PSDB), que registrou 43,94%.
O resultado revela a predominância de partidos de centro-direita e direita entre os candidatos que venceram ou avançaram para o segundo turno na região, com presença de siglas como PL, PSD, MDB, PP, Podemos, União Brasil e Republicanos. Também indica, em boa parte dos estados, a permanência de grupos políticos já consolidados nas disputas locais. A partir desse cenário, esta reportagem analisa as principais propostas e os desafios socioambientais dos governadores eleitos na Amazônia no primeiro turno, buscando entender qual cenário se desenha para a região após as eleições de 2026.
Amapá — Dr. Furlan (PSD)
Resultado eleitoral
Dr. Furlan foi eleito governador do Amapá no primeiro turno com 62,75% dos votos válidos, somando 281.595 votos. Ele derrotou o atual governador, Clécio Luís (União Brasil), que recebeu 36,97% dos votos. A vice eleita é Luciana Gurgel (PL).
Perfil político
Médico cirurgião, Antônio Paulo de Oliveira Furlan, de 53 anos, foi deputado estadual e prefeito de Macapá. Após passagens por PTB, Cidadania, Podemos e MDB, filiou-se ao PSD para disputar o governo. Sua vitória representa uma mudança no comando estadual, sustentada pela projeção política conquistada à frente da capital e por uma ampla aliança de centro-direita.
O que prevê o plano de governo?
No Amapá, Dr. Furlan propõe fortalecer cadeias da sociobiodiversidade, como açaí, castanha-do-brasil, andiroba, copaíba e pirarucu de manejo, com estímulo à agroindustrialização, criação da “Marca Amapá” e ampliação das compras públicas sustentáveis. O plano de governo também prevê soluções de saneamento e tratamento de resíduos, com microestações de tratamento de água e dessalinização para comunidades isoladas e indígenas.
Ao mesmo tempo, o programa aposta na exploração de petróleo e gás na Margem Equatorial, com previsão de direcionar parte das receitas de royalties a um fundo soberano e também para pesquisa e transição energética. Também propõe revisar limites da Floresta Estadual do Amapá (FLOTA/AP) em áreas de expansão urbana e ampliar a regularização fundiária e o Cadastro Ambiental Rural.
Desafios e avanços herdados
Furlan assume um estado em que mais de 70% do território é formado por Unidades de Conservação e Terras Indígenas. A intensificação da fiscalização em áreas protegidas, como a Floresta Nacional do Amapá e reservas extrativistas, também contribuiu para quedas recentes no desmatamento. Apesar desse patrimônio ambiental e do potencial para bioeconomia e geração de energia, o estado ainda enfrenta déficits de saneamento, abastecimento e infraestrutura em comunidades isoladas. Nesse cenário, um dos principais pontos de atenção será conciliar a valorização da floresta em pé com a revisão de áreas da FLOTA e a proposta de avanço da exploração de petróleo na Foz do Amazonas.
Maranhão — Eduardo Braide (PSD)
Resultado eleitoral
Eduardo Braide foi eleito governador do Maranhão no primeiro turno com 54,02% dos votos válidos, somando 2.104.122 votos. A vice eleita é Elaine Carneiro (PSD). A chapa ligada ao grupo do ex-governador Carlos Brandão recebeu 34,8% dos votos válidos.
Perfil político
Advogado formado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Braide foi secretário estadual de Esporte e Lazer, deputado estadual, deputado federal e prefeito reeleito de São Luís. Filiado ao PSD, chegou ao governo após consolidar sua base política na capital.
O que prevê o plano de governo?
Entre as propostas ambientais, Braide prevê atualizar o Plano Estadual de Mudanças Climáticas e a política estadual de enfrentamento ao clima, alinhando-os às diretrizes nacionais. O programa também defende a modernização e simplificação do licenciamento ambiental, com redução de prazos e burocracia, e propõe fortalecer a agricultura familiar e as cadeias da sociobiodiversidade, com destaque para o beneficiamento do babaçu e a valorização das quebradeiras de coco.
O plano ainda inclui apoio a cooperativas e associações de catadores para ampliar a logística reversa e a reciclagem. Ao mesmo tempo, prevê incentivos à expansão e industrialização de cadeias como grãos e couro, sem apresentar metas numéricas específicas para redução do desmatamento.
Desafios e avanços herdados
Braide assume um estado fortemente pressionado pelo avanço do desmatamento e das queimadas, sobretudo no Cerrado e na região do MATOPIBA. Segundo dados do MapBiomas e do Prodes/INPE, o Maranhão figura de forma persistente como o estado com maior área desmatada no Cerrado, respondendo por cerca de 28% da perda total de vegetação nativa do bioma. Por outro lado, o estado possui redes consolidadas de agricultura familiar, cooperativismo ligado às quebradeiras de coco babaçu e iniciativas de REDD+ e do Fundo Amazônia. Nesse contexto, um dos principais pontos de atenção será conciliar a proposta de simplificação do licenciamento e o estímulo a cadeias agroindustriais com a necessidade de conter o desmatamento e fortalecer políticas climáticas e de proteção da sociobiodiversidade.
Mato Grosso — Otaviano Pivetta (Republicanos)
Resultado eleitoral
Otaviano Pivetta (Republicanos) foi eleito governador de Mato Grosso no primeiro turno com 60,8% dos votos válidos, somando 1.128.099 votos. Wellington Fagundes (PL) ficou em segundo lugar, com 23,2%. A vice eleita é Gisela Simona (União Brasil).
Perfil político
Empresário e produtor rural, Pivetta foi prefeito de Lucas do Rio Verde por três mandatos, além de deputado estadual e vice-governador em duas gestões consecutivas. Assumiu definitivamente o governo em março de 2026, após a renúncia de Mauro Mendes. Sua eleição representa a continuidade direta do grupo político que administra o estado desde 2019.
O que prevê o plano de governo?
Na agenda ambiental, Pivetta propõe fortalecer a prevenção e o combate aos incêndios florestais, com ampliação do monitoramento, uso de tecnologia, brigadas e implementação do programa Pantanal Resiliente ao Fogo. O plano também prevê automatizar a análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e ampliar modalidades simplificadas de licenciamento ambiental.
O programa ainda aposta em bioinsumos, energias renováveis, tecnologias de baixo carbono e no mercado de créditos de carbono, além de fortalecer a regularização de Unidades de Conservação e o ecoturismo. Ao mesmo tempo, projeta a expansão industrial e de cadeias como grãos e etanol de milho, acompanhada de processos mais rápidos de licenciamento.
Desafios e avanços herdados
Pivetta assume um estado que mantém cerca de 60% de seu território sob cobertura vegetal nativa, conta com monitoramento ambiental por sensoriamento remoto e programas consolidados de financiamento climático, como o REM MT. Também herda elevada capacidade de investimento público e estrutura digital de regularização ambiental.
Por outro lado, o Mato Grosso continua sujeito à recorrência de incêndios no Pantanal e no Cerrado e às pressões associadas à expansão agropecuária e da infraestrutura. Nesse contexto, a proposta de acelerar a industrialização e simplificar o licenciamento ambiental entra em tensão com a necessidade de conter o desmatamento e as queimadas, ao ampliar o risco de novas pressões sobre áreas de vegetação nativa caso não sejam garantidas salvaguardas socioambientais.
Pará — Doutor Daniel Santos (Podemos)
Resultado eleitoral
Doutor Daniel Santos foi eleito governador do Pará no primeiro turno com 51,4% dos votos válidos, somando 2.345.721 votos. Hana Ghassan (MDB) ficou em segundo lugar, com 46,5%. A vice eleita é Ellayne D’Almeida (PL).
Perfil político
Médico ginecologista e obstetra, Daniel Barbosa Santos foi vereador e presidente da Câmara Municipal de Ananindeua, deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa do Pará e prefeito de Ananindeua por dois mandatos. Sua eleição representou uma ruptura com o grupo político que comandava o estado, apesar de alianças anteriores com setores da situação.
O que prevê o plano de governo?
O plano de governo coloca a bioeconomia como eixo estratégico e propõe ampliar a industrialização e a agregação de valor a cadeias como açaí, cacau, castanha-do-pará, pescados e óleos vegetais. Também prevê atualizar o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE), com uso de geoprocessamento e inteligência territorial, e ampliar a gestão tecnológica das Unidades de Conservação.
Outra frente é a estruturação do mercado de carbono e de mecanismos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), com incentivos a produtores rurais, povos indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas que mantêm áreas conservadas. Ao mesmo tempo, o programa defende a atração de investimentos industriais, expansão de infraestrutura e maior agilidade nos processos de licenciamento.
Desafios e avanços herdados
Daniel Santos assume um estado de dimensões continentais, com mais de 1,2 milhão de km², grandes áreas de Floresta Amazônica e forte relevância econômica em cadeias como açaí e cacau. Esse potencial convive com desigualdades de infraestrutura, logística, conectividade e saneamento entre as diferentes regiões do Pará, além das pressões decorrentes da mineração, agropecuária e expansão da fronteira produtiva.
Nesse cenário, a aposta em industrialização, infraestrutura e aceleração de licenças cria uma contradição com a proposta de fortalecer a conservação e a economia de baixa emissão. A capacidade de expandir investimentos sem fragilizar a fiscalização ambiental e aumentar a pressão sobre áreas de floresta será uma das questões centrais da próxima gestão.
Rondônia — Marcos Rogério (PL)
Resultado eleitoral
Marcos Rogério foi eleito governador de Rondônia no primeiro turno com 56,9% dos votos válidos, somando 537.370 votos. Em segundo lugar ficou o candidato da oposição à sua chapa, Adailton Antunes Ferreira (PSD), com 20,1%. O vice eleito é o Delegado Rodrigo Camargo (Podemos).
Perfil político
Formado em Direito e Jornalismo, Marcos Rogério foi vereador, deputado federal e senador por Rondônia. Ele disputou o governo estadual pela segunda vez e chegou à eleição de 2026 defendendo mudanças na administração pública, segurança e saúde.
O que prevê o plano de governo?
Na agenda ambiental, Rogério propõe zerar o passivo do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e adotar licenciamento autodeclaratório e automatizado, com emissão em até 48 horas para atividades agropecuárias de baixo e médio impacto. O plano também prevê ampliar o Pagamento por Serviços Ambientais, com o programa Renda Verde e o Selo Verde Rondônia para remunerar produtores e comunidades que preservam vegetação nativa.
Entre outras medidas estão a criação de um sistema de detecção precoce de incêndios, brigadas municipais e um batalhão especializado em emergências ambientais. O programa ainda aposta em sistemas agroflorestais com cacau, café, açaí e castanha e na expansão da microgeração de energia solar em propriedades rurais e prédios públicos.
Desafios e avanços herdados
Rondônia reúne cadeias produtivas relevantes do agronegócio e da bioeconomia, com destaque para café robusta amazônico, piscicultura e produção pecuária. Ao mesmo tempo, enfrenta desmatamento ilegal, recorrência de queimadas e graves déficits de infraestrutura: cerca de 74% da malha rodoviária estadual não é asfaltada e menos de 10% da população conta com coleta de esgoto.
Nesse cenário, a proposta de acelerar e automatizar o licenciamento ambiental para impulsionar atividades agropecuárias contrasta com a necessidade de conter a perda de vegetação nativa. Ao transferir parte relevante do controle para a fiscalização posterior à autorização, o modelo pode ampliar os riscos de pressão sobre áreas amazônicas caso não seja acompanhado de monitoramento e fiscalização suficientes.
Roraima — Arthur Henrique (PL)
Resultado eleitoral
Arthur Henrique foi eleito governador de Roraima no primeiro turno com 69,1% dos votos válidos, somando 220.809 votos. Francisco dos Santos Sampaio (Republicanos) ficou em segundo lugar, com 29,2%. O vice eleito é Haroldo Cathedral (NOVO).
Perfil político
Arthur Henrique iniciou a trajetória pública em Boa Vista, onde foi secretário extraordinário de Inclusão Digital, secretário municipal de Educação e Cultura, vice-prefeito e, depois, prefeito por dois mandatos. Sua eleição representa uma mudança no comando estadual, ao mesmo tempo em que busca levar para Roraima o modelo de gestão similar ao adotado na capital.
O que prevê o plano de governo?
Na agenda ambiental, Arthur Henrique propõe fortalecer o programa Roraima Verde e o sistema jurisdicional de REDD+, com regras para pagamentos por serviços ambientais, créditos de carbono e repartição de benefícios. O plano de governo também prevê modernizar e acelerar o licenciamento ambiental e ampliar políticas de logística reversa, compostagem e economia circular nos municípios do interior.
Outra proposta é criar o Fundo Raiz, destinado ao financiamento do ensino médio com recursos provenientes de royalties da mineração e da comercialização de ativos ambientais. O programa também defende a revisão de marcos legais para ampliar o aproveitamento mineral do estado, associando a expansão da atividade a salvaguardas socioambientais.
Desafios e avanços herdados
Arthur Henrique assume um estado que passou a contar com a integração ao Sistema Interligado Nacional por meio do Linhão de Tucuruí, reduzindo a dependência de termelétricas a diesel, mas gerando também conflitos com povos originários e territórios tradicionais, e que possui potencial para ampliar mecanismos de REDD+ e créditos de carbono. Por outro lado, permanecem fortes desigualdades de infraestrutura: nas áreas não urbanizadas, apenas 9,2% da população tem cobertura de água tratada, enquanto Boa Vista registra 96,4% de abastecimento e 92,1% de esgotamento sanitário.
Também persistem pressões de queimadas, desmatamento e dificuldades de regularização fundiária no interior. Nesse cenário, a aposta na expansão da mineração como fonte de receita pública cria uma contradição com a proposta de reforçar salvaguardas ambientais e a proteção dos territórios e comunidades originárias.