Não podemos nos dispersar: cooperativismo e alimento produzido no Amazonas

Coluna Follow-Up

“Não podemos nos dispersar” costuma ser uma palavra de ordem dos movimentos que reconhecem os estragos da discórdia entre seus integrantes. No Amazonas, ela também serve para uma discussão que atravessa o orçamento das famílias, a sobrevivência dos produtores e as possibilidades de desenvolvimento do interior. Precisamos aproximar quem produz, quem transporta, quem financia e quem consome, dando continuidade às iniciativas capazes de transformar essa aproximação em trabalho e renda.

O cooperativismo oferece uma base concreta para esse encontro. Sua experiência nasce de uma necessidade conhecida por pequenos produtores: reunir capacidade de compra, assistência técnica, equipamentos e acesso ao mercado para enfrentar dificuldades que, individualmente, seriam muito maiores. É uma forma de organização especialmente relevante num estado onde as distâncias e a dispersão da produção tornam caro quase tudo o que se pretende fazer.

Por isso, merece reconhecimento a aprovação, pela Assembleia Legislativa do Amazonas, do Projeto de Lei nº 576/2026, encaminhado pelo Executivo por meio da Mensagem Governamental nº 80/2026. A proposta institui a Política Estadual de Apoio ao Cooperativismo e cria o Conselho Estadual do Cooperativismo do Amazonas, o CECOOP/AM. A comunicação da Assembleia registra a aprovação em 22 de setembro e o encaminhamento à sanção governamental. 

Há uma convergência institucional a preservar. A iniciativa do governo, a aprovação parlamentar e a mobilização do setor abriram uma oportunidade que precisa chegar às cooperativas e aos municípios. Seu valor será percebido na capacidade de organizar a produção, facilitar investimentos e ampliar a participação dos cooperados na economia amazonense.

Uma conquista que precisa chegar à propriedade rural

No artigo publicado pelo Jornal do Commercio, compartilhado nesta reflexão, Thomaz Meirelles reconhece a atuação da OCB/AM, sob a liderança de Petruccio Magalhães, e o empenho parlamentar de Adjuto Afonso. Esse trabalho merece apoio e continuidade. A representação exercida pela entidade ajuda a levar ao poder público problemas que, vistos apenas de Manaus, frequentemente perdem sua dimensão territorial.

A própria OCB/AM define sua missão pela construção de um ambiente favorável ao desenvolvimento das cooperativas amazonenses, por meio da representação institucional. É uma atuação que pode aproximar demandas dispersas e dar consistência às políticas destinadas ao setor. 

Meirelles também propõe os próximos passos: uma Secretaria Executiva do Cooperativismo e um fundo de apoio. São propostas que merecem debate sobre atribuições, financiamento e resultados esperados. Um conselho precisa de capacidade para acompanhar decisões; uma política precisa de orçamento, assistência técnica e instrumentos que alcancem quem trabalha.

Para o produtor, essa discussão ganha sentido quando ajuda a resolver questões muito práticas. Onde conseguir crédito compatível com o ciclo de produção? Como comprar insumos em melhores condições? Quem assegura orientação técnica? Como beneficiar, conservar e transportar o alimento? Quem vai comprá-lo, em que quantidade e por quanto tempo?

É nesse terreno que o fortalecimento das cooperativas encontra a urgência do abastecimento.

OCB/AM e FAEA na mesma articulação

Há uma instância vital para integrar esse esforço: a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Amazonas, a FAEA, presidida por Muni Lourenço. Sua experiência na representação dos produtores e seu compromisso com o setor oferecem uma contribuição indispensável ao planejamento da produção regional. 

A aproximação entre FAEA e OCB/AM pode reunir conhecimento das propriedades rurais, organização cooperativa e interlocução institucional. Com a participação do Senar, das instituições de pesquisa e dos órgãos de assistência técnica, essa articulação teria condições de trabalhar sobre necessidades concretas de formação, produtividade, gestão e acesso ao mercado.

As propostas de uma Secretaria Executiva do Cooperativismo e de um fundo de apoio, defendidas por Meirelles, merecem avançar nesse ambiente. Para quem produz, uma política pública ganha sentido quando facilita crédito, orientação técnica, beneficiamento, transporte e comercialização.

A dependência começa antes de o alimento chegar à mesa

Na reflexão sobre BR-319, soja e produção de proteína, chamamos atenção para uma dependência pouco visível. Mesmo quando o peixe, o frango ou o ovo são produzidos no Amazonas, parte dos ingredientes utilizados na alimentação dos animais pode vir de outras regiões.

O tambaqui criado aqui participa de uma cadeia que começa antes do tanque. O custo da ração incorpora ingredientes, processamento, armazenamento e transporte. Cada dificuldade nesse percurso alcança a propriedade rural e pode chegar ao consumidor.

BR 319 Foto Marcos Amend WCS Brasil
Foto: Marcos Amend

O artigo de Amanda Carla Evangelista, publicado na coluna da Fecomércio AM e também compartilhado conosco, examina justamente a repercussão da estiagem sobre o frete, o abastecimento e as despesas das famílias. A conexão entre clima e economia aparece no supermercado, nos prazos de entrega e na necessidade de antecipar compras.

A produção regional merece ser considerada dentro dessa vulnerabilidade. Ela pode reduzir determinadas distâncias e ampliar a circulação de renda no estado, desde que encontre condições técnicas e econômicas para se sustentar. Também dependerá dos rios, das estradas e da capacidade de armazenar e distribuir os produtos.

Precisamos conhecer melhor essa conta. Quanto consumimos, quanto produzimos e quais alimentos ou insumos poderiam ser fornecidos localmente com qualidade, regularidade e preço competitivo? Um levantamento estadual de abastecimento permitiria orientar investimentos e escolher prioridades.

Cooperar para produzir e vender

A cooperativa pode reunir a escala que falta a muitos produtores. Pode organizar compras de ração e fertilizantes, compartilhar máquinas, contratar assistência técnica e estruturar transporte. Pode também negociar com compradores que exigem volume, regularidade e padrões sanitários difíceis de assegurar por uma propriedade isolada.

Essa capacidade interessa diretamente à piscicultura, à avicultura, à produção de ovos, de frutas, de mandioca e de hortaliças. Interessa igualmente ao beneficiamento, às câmaras frias e às pequenas agroindústrias, que precisam de matéria-prima e mercado para justificar o investimento.

Há, portanto, uma relação entre apoiar o cooperativismo e ampliar a produção alimentar. Ela precisa ser construída com gestão profissional, transparência e participação dos cooperados. A confiança entre os membros, evocada naquela palavra de ordem contra a dispersão, tem consequências econômicas. Um contrato coletivo exige compromisso com qualidade, entrega e responsabilidade na administração dos recursos.

A OCB/AM pode contribuir para organizar esse diálogo entre cooperativas, instituições de pesquisa, bancos, compradores e governos. Apoiar sua atuação significa fortalecer uma interlocução necessária para que o produtor tenha presença nas decisões sobre o desenvolvimento do estado.

BR-319 e BR-174 na mesma agenda

A reconstrução da BR-319 e a recuperação da BR-174 precisam ser defendidas dentro desse planejamento. A primeira conecta Manaus a Rondônia e à malha rodoviária nacional; a segunda liga o Amazonas a Roraima. Ambas interessam ao abastecimento, à circulação de insumos e ao acesso dos produtores aos mercados.

O argumento alimentar dá substância à cobrança por essas rodovias. Quem precisa transportar ração, pescado, frutas ou produtos refrigerados depende de previsibilidade. A perda de uma carga perecível pode comprometer a receita de meses de trabalho.

Sua recuperação deve integrar uma rede que inclui hidrovias, portos, armazenamento e distribuição. A estiagem torna ainda mais importante dispor de alternativas logísticas, enquanto a produção local exige condições para alcançar Manaus e outros destinos.

BR 174

Essa defesa envolve também responsabilidades territoriais e ambientais. Na área de influência da BR-319, a infraestrutura precisa ser acompanhada por presença do Estado, fiscalização e proteção contra ocupações ilegais. Na BR-174, as intervenções devem observar os direitos e a proteção dos territórios indígenas atravessados pela rodovia.

O compromisso com a floresta em pé precisa orientar a execução e o uso dessas obras. É parte da qualidade do desenvolvimento que reivindicamos.

Milho e soja com destino e território definidos

A possibilidade de produzir uma parcela dos insumos para ração merece pesquisa aplicada. Milho e soja entram nessa discussão pela demanda das cadeias locais, mas sua viabilidade depende de solo, clima, produtividade, processamento, armazenamento e custo final.

Áreas já abertas e degradadas podem ser avaliadas, com exclusão dos territórios protegidos e respeito às restrições ambientais e fundiárias. A existência de uma área alterada, por si só, não assegura aptidão agrícola nem disponibilidade legal para cultivo.

Embrapa, INPA, universidades e instituições de assistência técnica devem participar dessa avaliação. Também é necessário estudar ingredientes regionais e coprodutos que possam integrar formulações de ração, conforme sua qualidade nutricional, segurança e disponibilidade.

As cooperativas podem ajudar a transformar os resultados dessas pesquisas em produção organizada. Para isso, precisam participar desde o diagnóstico, trazendo as condições reais das propriedades e das cadeias que pretendemos fortalecer.

A indústria pode ajudar a organizar a demanda

O Polo Industrial de Manaus e seus fornecedores de refeições coletivas constituem um mercado importante para os alimentos produzidos no Amazonas. Uma aproximação com as cooperativas poderia começar por produtos cuja oferta já permita atender exigências de qualidade, regularidade e inspeção sanitária.

Contratos com metas progressivas de aquisição regional dariam aos produtores melhores condições de planejar. Ao conhecer a demanda e os critérios de compra, uma cooperativa pode dimensionar investimentos, organizar entregas e negociar financiamento com maior consistência.

Esse encontro interessa também à indústria. A diversificação de fornecedores e a construção de relações locais podem contribuir para o abastecimento e ampliar os efeitos econômicos de sua presença no estado. O compromisso social ganha uma aplicação concreta na compra de alimentos produzidos por trabalhadores e famílias do interior.

O mesmo raciocínio pode orientar compras públicas, dentro das regras de cada programa. A demanda das escolas, hospitais e demais instituições merece ser considerada no planejamento da oferta regional.

Um compromisso capaz de reunir

A política de apoio ao cooperativismo abre uma oportunidade para aproximar iniciativas que costumam caminhar separadamente. Estradas, produção, pesquisa, crédito e mercado precisam conversar. Uma propriedade dificilmente amplia sua produção sem comprador; um comprador dificilmente assume compromissos sem oferta organizada.

Reconhecer a iniciativa do governo, o trabalho parlamentar e a mobilização da OCB/AM é dar continuidade a uma convergência útil ao Amazonas. As diferenças políticas permanecerão, como permanecem em qualquer sociedade democrática. Podemos trabalhar sobre objetivos compartilhados e acompanhar seus resultados.

“Não podemos nos dispersar” ganha, assim, um significado muito concreto. Significa sustentar a articulação necessária para que uma conquista institucional alcance o tanque de piscicultura, o aviário, a roça, o armazém e a mesa das famílias.

A reconstrução da BR-319, a recuperação da BR-174 e o fortalecimento das cooperativas pertencem a esse esforço. O Amazonas precisa de condições para produzir, conservar e comercializar mais do que consome, conforme a vocação de cada território. E precisa fazer isso distribuindo oportunidades entre seus municípios, com a floresta em pé e os produtores participando das decisões sobre o próprio futuro.


A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, portal brasilamazoniaagora.com.br 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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