Floresta, Ciência e Indústria – Os ativos da Economia dos Serviços Ambientais Industriais

Coluna Follow-Up

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Toda economia se apoia sobre um conjunto de ativos. Alguns são facilmente identificáveis. Outros permanecem invisíveis durante décadas, até que mudanças tecnológicas, institucionais ou culturais permitam reconhecer seu verdadeiro valor. Na Amazônia, essa percepção começou a mudar recentemente.

Durante muito tempo, a riqueza regional foi associada quase exclusivamente aos recursos naturais. A floresta, os rios, os minérios e a biodiversidade ocupavam o centro das análises. Era uma visão compreensível. Afinal, poucos territórios concentram tamanha diversidade biológica ou desempenham papel tão relevante nos grandes ciclos ambientais do planeta.

A economia que começa a emergir na região não se limita aos recursos que a natureza oferece. Ela depende da capacidade de compreender esses processos, medi-los com precisão, protegê-los institucionalmente e transformá-los em atividades econômicas compatíveis com sua conservação. Nesse sentido, a floresta continua sendo o primeiro grande ativo, mas deixou de ser o único.

Sua importância não decorre apenas da quantidade de espécies que abriga ou do patrimônio genético ainda desconhecido. Ela produz continuamente serviços ambientais indispensáveis ao funcionamento de sistemas ecológicos e econômicos muito além de seus limites geográficos. A regulação climática, a reciclagem da água, a proteção dos solos, o armazenamento de carbono, a manutenção da biodiversidade e dos ciclos hidrológicos constituem processos naturais que durante séculos foram tratados como externalidades gratuitas simplesmente porque não existiam instrumentos capazes de lhes atribuir valor econômico.

A ciência começou a alterar essa realidade

Instituições como o INPA, o CBA – Centro de Bionegócios da Amazônia, o Museu Paraense Emílio Goeldi, a Embrapa, universidades e centros de pesquisa vêm construindo, há décadas, um patrimônio intelectual que hoje se revela decisivo. Medições de biomassa, estoques de carbono, fluxos hidrológicos, dinâmica da vegetação, biodiversidade e trocas gasosas deixaram de ser apenas temas acadêmicos para se converterem em informações estratégicas para governos, empresas e mercados.

O próprio Projeto PSA/DAS se insere nesse movimento ao desenvolver metodologias replicáveis para estimar biomassa, carbono, água e fluxos gasosos, ao mesmo tempo em que propõe instrumentos técnicos e jurídicos destinados à remuneração dos serviços ambientais.

Sem esse conhecimento, a floresta continuaria exercendo exatamente as mesmas funções ecológicas. O que mudaria seria apenas nossa capacidade de reconhecê-las, mensurá-las e incorporá-las às decisões econômicas. Toda economia depende de confiança. E confiança exige instituições.

Vista aérea da Foz do Amazonas, região da Margem Equatorial onde há interesse na exploração de petróleo em águas profundas.
Foto: Victor Moriyama/Greenpeace

Por isso, um dos ativos menos lembrados da Amazônia encontra-se justamente na arquitetura institucional que começa a ser construída em torno da agenda climática. A Política Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais, os mecanismos de REDD+, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões e os diversos instrumentos de certificação e governança representam muito mais do que um conjunto de normas. Eles estabelecem as condições necessárias para que informações científicas possam sustentar contratos, investimentos e novos mercados.

Nenhum desses instrumentos produz riqueza por si só. Sua função consiste em reduzir incertezas e criar segurança para relações econômicas que, até poucos anos atrás, simplesmente não existiam. Essa transformação também depende de uma infraestrutura tecnológica cada vez mais sofisticada.

Satélites, sensores remotos, georreferenciamento, inteligência artificial, modelagem climática, inventários florestais digitais e biotecnologia ampliaram extraordinariamente a capacidade de observar a floresta em tempo real. Processos ecológicos antes invisíveis passaram a produzir séries históricas, indicadores verificáveis e bases de dados auditáveis. Em outras palavras, a tecnologia tornou possível converter fenômenos naturais em ativos passíveis de monitoramento, certificação e remuneração.

Existe, entretanto, um componente dessa arquitetura que raramente aparece nas discussões sobre economia ambiental. Trata-se da própria base industrial instalada na Amazônia.

O Polo Industrial de Manaus costuma ser analisado exclusivamente pela ótica da produção manufatureira, da arrecadação tributária ou da geração de empregos. Todas essas dimensões são relevantes, mas talvez não revelem sua contribuição mais ampla.

Ao concentrar investimentos, renda, empregos formais e inovação tecnológica em uma área urbana relativamente reduzida, o modelo industrial diminui a pressão econômica pela conversão de extensas áreas florestais para atividades de baixa produtividade. Essa função territorial produz efeitos ambientais concretos, ainda que indiretos. Não se afirma, evidentemente, que a indústria substitua a floresta na prestação de serviços ambientais. A relação é mais complexa.

Enquanto a floresta mantém os processos ecológicos, a indústria ajuda a criar as condições econômicas que tornam socialmente viável sua conservação. É dessa interação que emerge a ideia de Serviços Ambientais Industriais: um sistema em que desenvolvimento industrial e preservação ambiental deixam de ser objetivos concorrentes para atuar como elementos complementares de uma mesma estratégia territorial.

Há ainda um último ativo cuja importância atravessa todos os demais.

Nenhuma dessas estruturas existiria sem pessoas capazes de produzi-las, operá-las e aperfeiçoá-las. Pesquisadores, engenheiros, técnicos, empreendedores, comunidades tradicionais, universidades, instituições públicas e empresas formam um patrimônio humano acumulado ao longo de décadas. É nele que reside a capacidade permanente de inovar, adaptar tecnologias, desenvolver metodologias e construir novos modelos econômicos.

Bancos de areia avançam pelo leito do Rio Negro durante seca extrema associada aos impactos do El Niño no Brasil.
Seca extrema no Rio Negro, na Amazônia. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

Em poucas regiões do mundo encontram-se reunidos, sobre um mesmo território, uma floresta com importância planetária, uma base científica consolidada, um parque industrial de alta complexidade, instituições em processo de amadurecimento e um conjunto crescente de tecnologias voltadas ao monitoramento ambiental.

Nenhum desses ativos, isoladamente, explica a economia que começa a surgir.

Seu verdadeiro valor aparece quando passam a funcionar como partes de um mesmo sistema.

A floresta fornece os processos naturais. A ciência os interpreta. A tecnologia os torna mensuráveis. As instituições lhes conferem segurança jurídica. A indústria cria estabilidade econômica e capacidade produtiva. O capital humano conecta todas essas dimensões em uma estratégia de desenvolvimento.

É dessa convergência, e não de qualquer ativo isolado, que começa a tomar forma a Economia dos Serviços Ambientais Industriais.

E, como acontece com toda economia em seus primeiros estágios, talvez seus ativos mais valiosos ainda não tenham sido completamente identificados.


Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal  https://brasilamazoniaagora.com.br 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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