”Os alertas para um novo El Niño colocam a infância amazônica no centro da emergência climática. Proteger as crianças significa assegurar água, saúde, alimentação, educação e mobilidade, transformando prevenção e responsabilidade socioambiental em prioridades permanentes do poder público e de toda a sociedade”.
Na Amazônia, proteger a infância significa preparar a sociedade para enfrentar um clima que já mudou. Os alertas para um novo El Niño exigem que a proteção das crianças ocupe o centro das políticas públicas.
Existe uma forma de medir a gravidade de uma crise climática que vai além dos níveis dos rios, dos mapas meteorológicos ou dos indicadores ambientais. Ela se revela na situação das crianças.
Quando uma estiagem extrema impede que um barco escolar chegue à comunidade, quando a fumaça das queimadas dificulta a respiração de uma criança, quando a água deixa de ser potável ou o alimento deixa de chegar às famílias, a emergência climática deixa de ser uma projeção científica para tornar-se uma realidade humana.
É exatamente esse cenário que volta a preocupar a Amazônia diante das previsões de intensificação do fenômeno El Niño ao longo do segundo semestre de 2026.
Os órgãos responsáveis pelo monitoramento climático vêm alertando para a possibilidade de um novo período de seca severa. A experiência recente recomenda que esses avisos sejam recebidos com a máxima atenção. As estiagens de 2023 e 2024 deixaram marcas profundas sobre a economia, a mobilidade, a saúde pública e, principalmente, sobre as populações mais vulneráveis.
Entre elas, nenhuma merece maior prioridade do que a infância.
Estudos recentes indicam que aproximadamente 94% dos municípios da Região Norte encontram-se em faixa de alta prioridade para riscos climáticos que afetam diretamente crianças e adolescentes. O dado chama atenção não apenas pela dimensão territorial envolvida, mas porque evidencia que milhões de brasileiros vivem em regiões onde os efeitos dos eventos extremos podem comprometer direitos fundamentais.
Respirar ar de qualidade, frequentar a escola, ter acesso à água potável, alimentar-se adequadamente e receber atendimento de saúde são direitos que passam a depender, cada vez mais, da capacidade de adaptação das políticas públicas às mudanças do clima.
Na Amazônia, essa adaptação possui características muito próprias.
Os rios constituem as principais vias de transporte da região. Quando seus níveis caem drasticamente, comunidades inteiras tornam-se inacessíveis. Barcos escolares deixam de navegar. Equipes médicas enfrentam dificuldades para chegar às localidades mais distantes. O abastecimento de alimentos, medicamentos e água passa a depender de operações logísticas complexas.
Ao mesmo tempo, a redução do volume dos rios favorece a concentração de contaminantes, enquanto o aumento das queimadas deteriora a qualidade do ar justamente durante o período de maior calor.
As crianças são particularmente sensíveis a esse conjunto de fatores.
Seu organismo reage mais rapidamente às altas temperaturas, à desidratação e à poluição atmosférica. Infecções respiratórias, crises de asma, doenças diarreicas e problemas nutricionais tendem a aumentar justamente quando o acesso aos serviços públicos se torna mais difícil.
Essa combinação amplia desigualdades que já existem. As comunidades ribeirinhas, indígenas e periferias urbanas convivem historicamente com limitações de infraestrutura. Em períodos de seca extrema, essas fragilidades tornam-se ainda mais evidentes.
É por isso que a preparação para um novo El Niño não pode restringir-se às respostas emergenciais.
Ela precisa começar muito antes, por meio do fortalecimento das escolas, da ampliação dos sistemas de abastecimento de água, da melhoria da atenção básica em saúde, da organização dos planos de contingência municipais e da integração entre os diversos órgãos públicos responsáveis pela proteção da população.
A prevenção representa, nesse contexto, uma das formas mais eficientes de garantir direitos. Também cabe reconhecer o papel da educação ambiental nesse processo.
As novas gerações crescerão convivendo com uma realidade climática diferente daquela conhecida por seus pais e avós. Prepará-las significa desenvolver conhecimentos, habilidades e valores capazes de fortalecer a convivência responsável com o ambiente amazônico.
Cada escola que incorpora práticas sustentáveis, cada comunidade que aprende a utilizar melhor seus recursos naturais e cada instituição pública que transforma responsabilidade socioambiental em política permanente contribui para formar uma sociedade mais resiliente.
A proteção da infância depende dessa construção coletiva. As mudanças climáticas desafiam governos, universidades, empresas e organizações da sociedade civil. Mas desafiam, sobretudo, nossa capacidade de colocar as pessoas no centro das decisões.
Quando protegemos nossas crianças, protegemos também o futuro da Amazônia.
Porque uma região capaz de cuidar de sua infância será igualmente capaz de enfrentar os desafios ambientais, sociais e econômicos que já batem à sua porta. E essa, não tenhamos duvidas , é a medida mais concreta do desenvolvimento que desejamos construir.