O cavalo selado do protagonismo

Finalmente, cabe uma reflexão: já chegou ou passou da hora de assumirmos o papel que a História nos conferiu. Ora, nessa briga/tragédia recente sobre a falta de oxigênio nas unidades hospitalares, com inaceitáveis perdas de vidas, o que se viu foi a caça às bruxas e suas responsabilidades. A indústria não se meteu na discussão mas assumiu mais do que sua obrigação e foi à luta para superar a escassez mortal do oxigênio. Mas ninguém falou que nosso Estado é um dos cinco na Federação que mais paga impostos, ajudando a levar o país nas costas.

Nelson Azevedo
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Chegou a vacina, mas a luta vai continuar com as precauções e com a habitual e crescente determinação. Não podemos nos iludir muito menos nos deixar abater. O critério de prioridades para a vacinação foi correto, nada a acrescentar, a não ser que não podemos mais brincar com nossa vida e a das pessoas e sim agradecer a benção de estarmos vivos e atuantes. E quais seriam as prioridades de nossa ação empresarial? Afinal, sabemos que a pandemia está longe de acabar, e não vai ser agora que iremos adotar a postura do avestruz e fingir que nada aconteceu e os riscos e tarefas deixaram de existir.

Nelson Azevedo 2
Nelson Azevedo é economista, empresário, conselheiro do CIEAM, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus e vice-presidente da FIEAM.

Segurança jurídica

Temos que manter o afastamento da política partidária que está se infiltrando em todas as brechas da vida social. Entretanto, não podemos deixar de manter interlocução permanente com as representações parlamentares, a melhor que tivemos nos últimos anos. Sorte nossa que precisamos do espírito aguerrido dessa representação federal não apenas para que as reformas sejam feitas, especialmente a fiscal e a administrativa, e que nelas possamos resguardar e fortalecer a segurança jurídica de nosso programa de desenvolvimento regional.

O direito de ir e vir

Além disso, precisamos resgatar o direito constitucional de ir e vir. Nesta crise de oxigênio que explodiu em Manaus, o Brasil tomou conhecimento de que o Amazonas é uma região remota e isolada, e que o socorro só chega aqui por água e ar, um modal lento e outro muito caro. Quando é que vamos enfrentar a pressão internacional e dos desafetos nacionais para integrar nosso estado ao resto do Brasil, recuperando definitivamente a BR319? Temos promessas e algumas iniciativas da atual gestão federal. Será que haverá recursos, na continuidade da pandemia até Deus sabe quando? Ou a pressão internacional, que não para de crescer, vai exigir a exclusão do Amazonas no tabuleiro de negociações com o governo Biden?

Embargo da diversificação

Será, também, que seguiremos com esse embargo disfarçado chamado PPB Processo Produtivo Básico, inventado para que não possamos ampliar e diversificar nossa rotina fabril, a indústria de transformação que mais agrega tecnologia no ranking nacional. Por que manter o Polo Industrial de Manaus em 0,6 % o percentual de estabelecimentos indústrias do Brasil. A desculpa de ameaças ambientais não convence mais ninguém. Somos especialistas em sustentabilidade e é robusta nossa responsabilidade socioambiental. Isso é reconhecido e chancelado por organismos internacionais como a União Europeia e a Organização Mundial do Comércio. Vamos desconstruir essa farsa, pois ele nada tem de brasilidade.

Somos especialistas subaproveitados

Finalmente, cabe uma reflexão: já chegou ou passou da hora de assumirmos o papel que a História nos conferiu. Ora, nessa briga/tragédia recente sobre a falta de oxigênio nas unidades hospitalares, com inaceitáveis perdas de vidas, o que se viu foi a caça às bruxas e suas responsabilidades. A indústria não se meteu na discussão mas assumiu mais do que sua obrigação e foi à luta para superar a escassez mortal do oxigênio. Mas ninguém falou que nosso Estado é um dos cinco na Federação que mais paga impostos, ajudando a levar o país nas costas. Ora, se quem paga R$25 bilhões aos cofres públicos é o setor produtivo, é justo e inteligente integrar a mente empreendedora e a ação empresarial como membro efetivo da gestão dos recursos que este setor produz. Somos especialistas subaproveitados. Temos à nossa frente Um cavalo selado do qual não temos o direito de apear, pois sabemos quanto custa cada centavo e podemos sugerir o melhor empreendimento em que se deve aplicar.

Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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