Protecionismo pode favorecer, mas também fragilizar a Zona Franca de Manaus: os riscos de enxergar só a oportunidade

“A Zona Franca de Manaus não precisa de mais ilusões. Precisa de visão estratégica, articulação política nacional e internacional, fortalecimento da imagem ambiental e investimentos em inovação e logística. O governo Trump pode ter criado uma janela de oportunidade, mas ela está cercada por paredes de incerteza.”

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O editorial do Jornal do Commercio (15/04) sugere que o novo protecionismo comercial dos Estados Unidos pode representar oportunidades para a Zona Franca de Manaus (ZFM). Com base no aumento das consultas empresariais, investimentos aprovados no Codam e recordes de faturamento, o texto aponta que a instabilidade internacional poderia redirecionar capitais e operações industriais para o Brasil, especificamente para o modelo fiscal incentivado da Amazônia.

É uma análise válida, mas que exige contraponto: os movimentos do governo Trump, agora em pleno vigor, são ambíguos e carregam ameaças sistêmicas que podem comprometer, em médio e longo prazo, a própria estabilidade do Polo Industrial de Manaus. O otimismo não pode ignorar os riscos que já se materializam.

O que os “tarifaços” escondem

A reeleição de Donald Trump impôs uma tarifa geral de 10% sobre todas as importações dos EUA, com sobretaxas que chegam a 125% sobre produtos chineses. Isso deve, sim, impactar negativamente a competitividade da China e de países asiáticos no mercado americano, o que abre espaço — em tese — para produtos brasileiros e até atração de investimentos.

No entanto, essa vantagem relativa é frágil. Primeiro, porque o Brasil também foi tarifado, ainda que de forma mais branda. Produtos fabricados no Polo Industrial de Manaus que são exportados para os EUA — como eletroeletrônicos, componentes de informática e motocicletas — já enfrentam essa sobretaxa, o que reduz a margem e a atratividade da produção nacional no mercado norte-americano. Segundo, porque Trump já deixou claro que não diferencia aliados ou parceiros comerciais tradicionais: seu protecionismo é unilateral, imprevisível e focado apenas no que considera “vantagem absoluta” para os EUA.

mapa mundi

Em outras palavras: não há garantias de que a ZFM será beneficiada nesse tabuleiro comercial. A lógica “se os outros perdem, a gente ganha” ignora que, no protecionismo, todos acabam perdendo em cadeia: redução do comércio, aumento de custos, quebra de acordos e instabilidade generalizada.

Impactos invisíveis: insumos, logística e concorrência desleal

Além das tarifas, o Polo de Manaus já enfrenta desafios estruturais que podem se agravar com a nova ordem mundial: a crise logística – um embaraço histórico de infraestrutura – imposta pelas secas recordes nos rios amazônicos, o aumento do frete internacional, a dependência de componentes importados — especialmente da Ásia — e a possível inundação do mercado brasileiro por produtos chineses baratos, desviados dos EUA.

Ou seja: com menos espaço no mercado americano, a China pode intensificar sua ofensiva no Brasil. Produtos de informática, eletrodomésticos e motocicletas chinesas já competem diretamente com os fabricados na ZFM. Um cenário de dumping — preços artificialmente baixos para ganhar mercado — é possível, o que pressionaria margens de lucro e a permanência de pequenas indústrias no polo.

O desmonte ambiental de Trump ameaça a legitimidade da ZFM

Outro fator pouco considerado no debate local é a dimensão geopolítica e ambiental. Trump já retirou os EUA do Acordo de Paris novamente, desmontou regulações ambientais internas e cancelou investimentos em justiça climática e energia limpa. Com isso, o Brasil perde um aliado de peso na pauta ambiental global, que é uma das bases discursivas e estratégicas da ZFM: mostrar que manter a floresta em pé é mais vantajoso que destruí-la na lógica da economia predatória do desmatamento e das queimadas.

Com menos cooperação internacional, menor pressão por fiscalização ambiental e cortes nos fundos multilaterais de proteção da Amazônia, a ZFM também perde terreno como símbolo de sustentabilidade. Isso pode comprometer parcerias com países europeus, investidores ESG e até futuros mercados, como o de carbono. A aura verde do Polo Industrial, que o diferencia de outros modelos de desenvolvimento predatório na região, está em risco.

Sim, há oportunidade — mas só com estratégia

Nada disso anula o fato de que há, sim, oportunidades. O volume de investimentos aprovados no último Codam — R$ 1,4 bilhão — e os recordes de produção confirmam o vigor da indústria local. Porém, é essencial que essa expansão venha acompanhada de diversificação de mercados, substituição parcial de importações, estímulo à inovação local e maior integração institucional na consolidação das cadeias da bioeconomia, que precisam vencer desistências e conquistar viabilidades.

Acreditar apenas na “benção do caos” global é perigoso. Se não houver planejamento logístico, diplomacia comercial e inteligência industrial, o mesmo protecionismo que parece nos favorecer hoje pode se voltar contra nós amanhã — com a mesma força com que beneficiou o México no passado e depois o abandonou.

A Zona Franca de Manaus não precisa de mais ilusões. Precisa de visão estratégica, articulação política nacional e internacional, fortalecimento da imagem ambiental e investimentos em inovação e logística. O governo Trump pode ter criado uma janela de oportunidade, mas ela está cercada por paredes de incerteza.
Imagem criada por Inteligência Artificial

A urgência da visão estratégica 

A Zona Franca de Manaus não precisa de mais ilusões. Precisa de visão estratégica, articulação política nacional e internacional, fortalecimento da imagem ambiental e investimentos em inovação e logísticaO governo Trump pode ter criado uma janela de oportunidade, mas ela está cercada por paredes de incerteza.

Se quisermos atravessá-la, é preciso enxergar além do alívio momentâneo — e preparar o modelo ZFM para os verdadeiros desafios da nova ordem global.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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