Entre Genebra, Pequim e Brasília: a nova geopolítica industrial exige protagonismo da Amazônia

“O novo cenário geopolítico desenhado em Genebra e Pequim mostra que o comércio internacional está voltando a ser um jogo de articulação e não apenas de imposição.”

O mundo girou rápido neste último fim de semana. Em Genebra, Estados Unidos e China protagonizaram um raro gesto de convergência, encerrando parte da guerra comercial iniciada por Donald Trump com a promessa de redução mútua de tarifas e restabelecimento da cooperação estratégica.

Quase no mesmo compasso, em Pequim, Brasil e China assinaram uma série de protocolos de cooperação em áreas vitais como segurança alimentar, inovação tecnológica, logística, indústria e meio ambiente. Não foi coincidência. Foi sintonia geopolítica.

E nós, da Zona Franca de Manaus, não podemos ignorar o que está por trás dessa dança diplomática. Porque os movimentos dos gigantes sempre chegam às margens do Rio Negro — às vezes como ondas de oportunidade, outras como tsunamis de desafio.

A descompressão tarifária e seus reflexos amazônicos

O chamado “tarifaço aloprado” de Trump, que encareceu drasticamente produtos chineses nos EUA e forçou rearranjos globais de cadeias de suprimento, criou durante anos um cenário caótico para países intermediários como o Brasil. O Polo Industrial de Manaus, fortemente dependente de insumos importados, sofreu com a instabilidade, a elevação dos custos logísticos e a escassez de componentes.

Com o novo acordo sino-americano, que reduz tarifas sobre semicondutores, baterias, painéis solares e veículos elétricos, o mercado global respira — e nós também. Componentes mais acessíveis significam, a princípio, redução de custos de produção, especialmente em linhas de montagem de informática, eletroeletrônicos e bens duráveis.

O Brasil-China que interessa ao Polo Industrial

Felizmente, o governo brasileiro agiu em paralelo. O pacote de cooperação com a China sinaliza uma aposta na inserção produtiva e ambiental do Brasil no século XXI. Acordos na área de alimentos, inovação tecnológica, transporte e meio ambiente indicam que há espaço para parcerias que valorizem a floresta em pé e a capacidade industrial instalada no coração da Amazônia.

Aqui está a chave: se a China quer alimentos sustentáveis, o Brasil pode oferecer cadeias rastreáveis e bioeconomia amazônica, além de minerais. Se quer parceiros em tecnologia limpa, podemos oferecer a Zona Franca como vitrine de uma indústria verde tropical.

Hora de propor, não apenas reagir

Enquanto as grandes potências se reaproximam para garantir segurança tecnológica e alimentar, o Brasil precisa propor, e não apenas reagir. A Zona Franca de Manaus, com sua relevância fiscal e seu potencial ambiental, pode — e deve — ser parte do pacote que o país oferece ao mundo.

A Amazônia tem que estar no centro da equação

O novo cenário geopolítico desenhado em Genebra e Pequim mostra que o comércio internacional está voltando a ser um jogo de articulação e não apenas de imposição. Os países inteligentes já estão se reposicionando. O Brasil precisa estar entre eles. E a Amazônia produtiva tem que estar no centro dessa equação.

A Zona Franca de Manaus não é só um polo industrial. É uma expressão da soberania nacional no Norte do mundo. Se colocarmos a floresta em pé, a tecnologia e a diplomacia no mesmo plano, poderemos transformar esse momento em ponto de virada para o futuro da indústria brasileira e para o protagonismo amazônico.

Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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