Dia da Amazônia: avanço contra o desmatamento não encerra crise no bioma 

Dia da Amazônia chega com menos alertas de desmatamento, mas secas, queimadas e atividades ilegais se somam à nova corrida por recursos, ampliando os riscos para comunidades e biodiversidade. 

O Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro, chama atenção para o bioma que ocupa cerca de 49% do território brasileiro, abriga a maior floresta tropical do mundo e exerce papel essencial na conservação da biodiversidade e na regulação do clima. A data também acentua que a floresta não deve ser tratada como mero reservatório de recursos naturais, mas como território de vida, conhecimento e inovação.

Entre agosto de 2025 e julho de 2026, o sistema Deter registrou 2.874,38 km² de áreas sob alerta de desmatamento, o menor resultado para esse intervalo, desde a série iniciada em 2016.  A redução, porém, não encerra os desafios na Amazônia. A floresta continua pressionada pela agropecuária, pela degradação e pelas atividades ilegais. 

Ao mesmo tempo, o bioma que já convive com extremos enfrenta a probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte entre setembro e novembro, com risco de chuvas abaixo da média, ondas de calor, vazantes acentuadas e queimadas.

Em paralelo, carbono, petróleo, minerais críticos e infraestrutura digital colocam a região no centro de uma nova disputa econômica. No contexto dos desafios atuais, proteger a Amazônia é também debater qual modelo de desenvolvimento será adotado, quem participará das decisões e quanto da riqueza produzida permanecerá nos territórios amazônicos. 

A Amazônia em uma era de extremos

Desmatamento e degradação não afetam somente a área derrubada. A perda de árvores reduz a evapotranspiração, pela qual a floresta transfere água à atmosfera, eleva a temperatura e deixa a vegetação mais vulnerável ao fogo. Mesmo com menos alertas, áreas convertidas em pastagens ou degradadas ainda comprometem o clima e a recuperação do bioma.

Esse cenário já está em curso. Em agosto de 2026, Manaus registrou apenas 2,4 milímetros de chuva, o segundo menor volume para o mês em 40 anos. Segundo o pesquisador do Inpa, Renato Senna, o Rio Negro apresenta desde julho uma descida semelhante à observada na seca histórica de 2023. O El Niño também pode acelerar as vazantes dos rios Tapajós, Xingu e Abacaxis.

A previsão é que o fenômeno alcance seu ápice entre outubro e dezembro. Dentre os efeitos do El Niño esperados para a Amazônia estão o atraso da estação chuvosa, o favorecimento da ocorrência de ondas de calor e a manutenção da vegetação seca por mais tempo, um cenário de alto risco de incêndios.

Em 2024, a redução dos rios prejudicou transporte, abastecimento, pesca e acesso de comunidades ribeirinhas à saúde, enquanto a fumaça das queimadas piorou a qualidade do ar. Cheias e secas fazem parte do ciclo amazônico, mas a maior intensidade atual dificulta a recuperação das populações e dos ecossistemas.

Pesquisa publicada na Revista Nature mostra que as “secas quentes”, combinação de falta de chuva e temperaturas elevadas, intensificaram a mortalidade de árvores. Eventos de 2015–2016 e 2023 ultrapassaram limiares críticos em partes da Amazônia. O processo pode reduzir a diversidade e transformar áreas degradadas de sumidouros em fontes de carbono. Nesse cenário, combater o desmatamento precisa caminhar com a adaptação climática

Adaptação climática é urgente na Amazônia

O Ipam estima que desastres climáticos causaram perdas de R$ 10,6 bilhões entre 1991 e 2023. Caso a floresta ultrapasse seu ponto de inflexão, os prejuízos acumulados nos 30 anos seguintes podem alcançar R$ 19,1 trilhões, além de ameaçar a biodiversidade e os modos de vida ligados à floresta.

Apesar do risco, políticas públicas ainda privilegiam respostas emergenciais. De acordo com o Ipam, somente 2 municípios da Amazônia têm leis específicas de mitigação e/ou adaptação às mudanças climáticas: Palmas (TO) e Rio Branco (AC). Brigadas comunitárias operam com recursos limitados, alertas nem sempre chegam a áreas sem conectividade e comunidades isoladas enfrentam dificuldades de acesso à água e à saúde. 

Para o Ipam, parte dessas vulnerabilidades pode ser reduzida com soluções de custo menor do que as perdas provocadas pelos desastres. Entre as alternativas estão sistemas descentralizados de energia solar, segurança hídrica, fortalecimento da bioeconomia, infraestrutura urbana resiliente, brigadas permanentes, monitoramento comunitário e proteção dos territórios tradicionais.

A participação das comunidades é essencial nesse processo. A geógrafa Paula dos Santos Silva, pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, afirma que povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais precisam participar diretamente do planejamento porque conhecem as particularidades dos rios, da floresta e das áreas mais vulneráveis.

Adaptar a Amazônia, portanto, significa reconhecer que os impactos já estão em curso e é preciso promover planejamento estruturado e contínuo antes que os danos se transformem em novas crises humanitárias. 

Crime organizado amplia a pressão sobre os territórios

Grilagem de terras, lavagem de gado, extração clandestina de madeira e garimpo ilegal formam cadeias econômicas capazes de movimentar grandes volumes de recursos e inserir produtos de origem irregular nos mercados formais. Nos últimos anos, essas atividades também passaram a se conectar de forma mais evidente às redes do crime organizado.

O narcotráfico e os crimes ambientais podem compartilhar embarcações, pistas clandestinas, rotas fluviais, sistemas de comunicação e mecanismos financeiros. Essa integração transforma a floresta simultaneamente em rota para o transporte de drogas, território para exploração de recursos e fonte de dinheiro a ser incorporado à economia legal.

A dimensão dessa presença aparece na quarta edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Em 2025, foram identificados indícios de atuação de facções em 344 dos 772 municípios da Amazônia Legal, o equivalente a cerca de 45% das cidades da região. A taxa cresceu 32% em apenas um ano.

O avanço alcança municípios como Humaitá, Lábrea e Manicoré, no Amazonas. Em áreas de fronteira, rios que conectam Brasil, Colômbia e Peru funcionam como corredores de circulação, enquanto portos ocupam posições estratégicas no escoamento das cargas.

Esse modelo intensifica a pressão sobre Terras Indígenas, Unidades de Conservação e florestas públicas ainda não destinadas. Além da derrubada da vegetação, o garimpo contamina rios com mercúrio, afeta a pesca e o abastecimento de água e amplia a violência contra comunidades. A grilagem e a pecuária ilegal provocam expulsões e conflitos fundiários, enquanto a exploração madeireira abre caminhos que podem facilitar novas invasões e o avanço de outras atividades predatórias.

Um diagnóstico lançado em agosto de 2026 pela Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), com apoio técnico do Ipam, mostra como as fragilidades na rastreabilidade permitem que produtos ilegais entrem nas cadeias do gado, da madeira e do ouro. 

O relatório mostra que o maior desafio é combinar fiscalização ambiental e segurança pública com inteligência financeira, rastreamento patrimonial e cooperação entre órgãos federais, estaduais e de países vizinhos. Segundo o estudo, as maiores urgências atuais são a integração das bases agropecuárias, ambientais e minerárias, a ampliação da transparência e o bloqueio de crédito para atividades vinculadas ao desmatamento e à grilagem.

Amazônia além dos recursos: quem decide e quem se beneficia?

Carbono, petróleo, minerais e infraestrutura digital são apresentados como caminhos para atrair investimentos e desenvolver a Amazônia. Mas essas iniciativas também retomam uma disputa histórica: se a região continuará fornecendo recursos e suportando impactos enquanto decisões e lucros se concentram fora dos territórios. Mais do que calcular o valor econômico da floresta, é preciso perguntar quem define os projetos, quem recebe os benefícios e quem assume seus custos ambientais e sociais.

O Brasil prepara para o final de 2026 o maior leilão de créditos de carbono já realizado no país. A segunda etapa do ProFloresta+, organizada pelo BNDES, pretende mobilizar até R$ 6 bilhões, restaurar 60 mil hectares e remover cerca de 19 milhões de toneladas de dióxido de carbono. O mecanismo pode financiar restauração e gerar renda, mas seus resultados dependem da integridade dos créditos e da transparência na distribuição dos recursos. Também importa saber se comunidades que conservam a floresta participarão das decisões.

O Pará exemplifica as oportunidades e os conflitos desse modelo. O acordo firmado com a Emergent, coordenadora da Coalizão LEAF, prevê a venda de até 12 milhões de créditos por US$ 15 cada, com potencial de alcançar US$ 180 milhões. O Ministério Público Federal, entretanto, questiona se houve consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, além de apontar riscos de dupla contagem. Em abril de 2026, o órgão recomendou a suspensão da certificação e das vendas enquanto a ação judicial estiver em andamento. O caso mostra que remunerar a floresta em pé não basta se os povos responsáveis por sua conservação não participarem da definição e da repartição dos benefícios.

Na Bacia da Foz do Amazonas, a identificação de hidrocarbonetos no poço Morpho abriu outra frente dessa disputa. Perfurado pela Petrobras em águas profundas do Amapá após licença concedida pelo Ibama em outubro de 2025, o poço revelou a presença de petróleo ou gás, embora a viabilidade comercial ainda não tenha sido comprovada. 

Defensores citam arrecadação, empregos e segurança energética; críticos alertam para vazamentos e impactos sobre manguezais, pesca e comunidades costeiras. Além da contradição entre ampliar a exploração fóssil e reduzir emissões, permanece a questão sobre quanto da riqueza gerada ficaria no Norte e quem arcaria com os danos em caso de acidente.

A transição energética cria pressão semelhante sobre os minerais estratégicos. Os processos minerários relacionados a esses materiais somam cerca de 23 milhões de hectares na Amazônia Legal, enquanto requerimentos aparecem no entorno de 278 Terras Indígenas, equivalentes a 44% desses territórios no país. Os pedidos revelam uma geografia de interesses que corre o risco de reproduzir o modelo de extração primária, no qual os recursos deixam a Amazônia sem processamento local, enquanto desmatamento, rejeitos, conflitos e pressão territorial permanecem na região. 

A infraestrutura digital também passou a disputar energia, água e espaço no território. Anunciado para Belém, o BEL1 será o primeiro data center da Amazônia voltado a aplicações de inteligência artificial. O empreendimento começará com capacidade de 7,5 megawatts e poderá chegar a 100 megawatts, consumo equivalente à média de aproximadamente 410 mil residências paraenses. 

O Ministério Público do Pará abriu investigação e, até 20 de agosto, os órgãos ambientais informavam que não havia pedido de licenciamento protocolado. Antes que o projeto avance, ainda precisam ser dimensionados a demanda de água, o sistema de resfriamento, a geração de calor e ruído e os benefícios concretos para a população local.

Essas frentes atribuem valores diferentes à Amazônia, mas compartilham o risco de enxergá-la principalmente pelo que pode fornecer ao restante do país e do mundo. A região não pode ser reduzida a estoque de carbono, reserva mineral, fronteira petrolífera ou suporte físico para servidores. Seu futuro precisa considerar a água, a biodiversidade, as culturas, os modos de vida e a autonomia dos povos que habitam o território. 

Bioeconomia: como manter o valor na Amazônia?

A bioeconomia oferece um contraponto ao modelo baseado na retirada de recursos brutos. No documento “Nova Economia da Amazônia”, elaborado pelo WRI Brasil e instituições parceiras, uma transição com desmatamento zero, restauração e investimentos de baixo carbono poderia adicionar pelo menos R$ 40 bilhões anuais ao PIB da Amazônia Legal a partir de 2050. Além de gerar 833 mil novos empregos.

Parte dessa economia já existe, mas permanece invisível. Relatório coordenado pela Fapespa estimou que as cadeias da sociobiodiversidade movimentaram R$ 13,5 bilhões no Pará em 2021. A mandioca respondeu por cerca de R$ 7 bilhões, mas somente R$ 10 milhões apareceram nos registros fiscais analisados. A distribuição também é desigual: na cadeia da castanha-do-pará, apenas 2,94% do valor final permanecia com os extrativistas.

A Estratégia Nacional de Bioeconomia, o programa federal Prospera e planos estaduais como o PlanBio, do Pará, ampliaram o espaço institucional do setor. O desafio agora é fazer com que financiamento, tecnologia e inovação cheguem aos territórios. Longas distâncias fluviais, falta de energia, refrigeração e armazenamento e dificuldades sanitárias ainda obrigam muitos produtores a vender matéria-prima com pouco valor agregado.

Uma sociobioeconomia sustentável precisa fortalecer cadeias diversificadas e agregar valor dentro dos próprios territórios, com transparência e distribuição justa da renda. Nesse modelo, povos e comunidades tradicionais não podem ser tratados apenas como fornecedores. Eles devem participar das decisões, manter o controle sobre seus conhecimentos e receber uma parcela justa da riqueza gerada. No Dia da Amazônia, o desafio é garantir que a floresta permaneça viva e que seu valor fortaleça a autonomia e a qualidade de vida de quem a protege. 

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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