O país que ainda não sabe quanto deve à Amazônia — Parte II

“Da borracha à Zona Franca, da biodiversidade ao clima, a modernidade amazônica mostra que o maior prejuízo brasileiro talvez esteja na demora em integrar floresta, indústria, ciência e soberania dentro de um mesmo projeto nacional“

A história econômica da Amazônia oferece numerosos exemplos de riqueza extraída sem retenção equivalente de valor. A borracha é o caso clássico.

Durante décadas, o látex amazônico ocupou posição estratégica na economia mundial. Manaus e Belém conheceram prosperidade, integração comercial e transformações urbanas profundas. O controle tecnológico da cadeia, entretanto, permaneceu longe dali.

Quando a produção asiática ganhou escala, a vantagem regional se desfez rapidamente. A Amazônia descobriu os limites de uma economia cuja força estava concentrada na oferta de uma matéria-prima valiosa e cuja capacidade de inovação permanecia em outros centros.

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A borracha era produzida por meio do látex, extraído das seringueiras

A história continua atual porque ajuda a iluminar a discussão sobre biodiversidade.

A floresta reúne moléculas, microrganismos, princípios ativos, fibras, alimentos e conhecimentos tradicionais com potencial para alimentar novas cadeias farmacêuticas, cosméticas, químicas e biotecnológicas. A diferença entre transformar essa riqueza numa economia amazônica ou apenas em mais um ciclo de extração será definida pelo domínio do conhecimento.

Quem pesquisa, registra, patenteia, transforma e industrializa ocupa posição diferente daquela reservada a quem apenas fornece o recurso original.

É nesse ponto que a Zona Franca de Manaus adquire um significado histórico que muitas vezes se perde no debate fiscal.

O modelo criado no século passado rompeu, em parte, com a antiga condenação da Amazônia ao fornecimento de produtos primários. A partir de Manaus, formou-se uma economia industrial conectada a cadeias produtivas internacionais, capaz de operar segmentos tecnológicos complexos e sustentar centenas de empresas, além de uma ampla rede de empregos, fornecedores e serviços.

O Polo Industrial de Manaus encerrou 2025 com faturamento superior a R$ 227 bilhões e manteve mais de 130 mil empregos diretos. No primeiro semestre de 2026, a escala produtiva permaneceu elevada.

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Trabalhadores no Polo Indsutrial de Manaus 

O significado está menos na grandeza das cifras do que na experiência acumulada.

Durante décadas, enquanto parte do Brasil continuava imaginando a Amazônia como economia essencialmente extrativista, uma das maiores concentrações industriais do país funcionava dentro dela. Esse paradoxo merece atenção porque ajuda a definir o próximo passo.

A infraestrutura industrial acumulada em Manaus e a biodiversidade existente ao seu redor ainda caminham com conexões menores do que poderiam ter. De um lado estão engenharia, logística, empresas, trabalhadores especializados, universidades e institutos de pesquisa. De outro, uma floresta cuja complexidade biológica começa a ser compreendida como uma das grandes plataformas de inovação do século XXI.

A aproximação dessas duas economias pode abrir uma etapa distinta da história regional, desde que biodiversidade deixe de ser tratada apenas como matéria-prima.

Bioeconomia exige ciência, propriedade intelectual, capital, pesquisadores, infraestrutura, capacidade industrial e mercados.

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Sem essa estrutura, o vocabulário muda e o mecanismo econômico permanece conhecido. A borracha dá lugar à molécula, o extrativismo passa a se apresentar como inovação e a parcela mais valiosa da cadeia continua sendo realizada em outro lugar.

A ciência tornou mais objetiva outra contribuição amazônica que durante muito tempo permaneceu fora das contas nacionais.

A floresta participa ativamente do sistema climático sul-americano. A evapotranspiração devolve enormes volumes de água à atmosfera e contribui para fluxos de umidade que influenciam regimes de chuva em regiões situadas muito além da própria bacia amazônica.

Agricultura, geração de energia e disponibilidade hídrica passam, assim, a fazer parte da mesma equação.

Durante muito tempo, preservar a Amazônia foi apresentado como um custo que o Brasil assumiria em benefício do patrimônio natural ou da estabilidade climática mundial. A ciência permite ampliar essa conta.

A degradação da floresta produz efeitos que podem alcançar lavouras, reservatórios hidrelétricos, cidades e sistemas produtivos instalados a milhares de quilômetros.

A discussão sobre o valor da Amazônia precisa incluir serviços que nunca apareceram adequadamente nos balanços econômicos. Água reciclada pela floresta, armazenamento de carbono, biodiversidade, informação genética e regulação climática sustentam atividades que geram riqueza muito longe dali.

Também existe uma dimensão cultural e política nessa incompreensão.

A imaginação brasileira aprendeu a reconhecer a Amazônia por meio de símbolos verdadeiros, mas insuficientes. Rios, floresta, povos indígenas e fauna extraordinária constituem elementos essenciais da região. Quando passam a representá-la inteiramente, deixam do lado de fora uma experiência social muito mais ampla.

A Amazônia também é urbana, industrial e científica. Produz literatura, música, jornalismo, pensamento político e tecnologia. Abriga sociedades marcadas por séculos de encontros, conflitos e mestiçagens entre povos indígenas, africanos, europeus, nordestinos e migrantes de numerosas partes do mundo.

Márcio Souza chamou atenção para essa complexidade porque a caricatura possui consequências. Quanto mais simples parecer uma sociedade, mais fácil será decidir por ela.

A dimensão geopolítica amplia o problema.

A Amazônia posiciona o Brasil no centro de uma região que reúne fronteiras internacionais extensas, recursos hídricos, reservas minerais, biodiversidade e rotas que conectam o Atlântico ao interior sul-americano. As disputas globais por minerais estratégicos, alimentos, energia, carbono e recursos biológicos aumentam o valor dessas características.

Soberania, nesse ambiente, depende de população com perspectivas econômicas, instituições presentes, ciência, comunicação, infraestrutura, empresas e capacidade de produzir riqueza de maneira compatível com a conservação dos recursos que sustentam essa economia.

O desconhecimento da história empobrece a memória nacional. A leitura da Amazônia apenas como fornecedora de recursos reduz sua capacidade econômica. A insuficiência científica deixa escapar oportunidades ligadas à biodiversidade. A distância entre a indústria de Manaus e as possibilidades da floresta limita a diversificação produtiva. A precariedade de infraestrutura em extensas áreas do interior compromete desenvolvimento e presença do Estado. A degradação ambiental começa a cobrar uma conta que já ultrapassa os limites regionais.

A região participa da definição territorial do Brasil, de sua disponibilidade de água, de sua segurança climática, de sua credibilidade ambiental, de sua relação com os vizinhos sul-americanos e de algumas das oportunidades científicas mais promissoras deste século.

Márcio Souza escreveu, há quase um quarto de século, que a Amazônia continuava sendo “um conveniente mistério para os brasileiros”.

A frase permanece atual porque o país ainda reúne com dificuldade as muitas dimensões de uma região que costuma conhecer por partes.

Conhece a floresta sem conhecer suficientemente sua economia. Conhece suas riquezas sem dominar plenamente as tecnologias capazes de transformá-las. Conhece seus problemas ambientais sem incorporar na mesma proporção os serviços que ela presta. Conhece a extensão do território e dedica atenção insuficiente à história pela qual esse território se tornou brasileiro.

A elevação do Amazonas a província, em 1850, deu forma política a uma antiga reivindicação de pertencimento e autonomia. O desafio contemporâneo é fazer com que essa presença territorial, econômica e institucional seja acompanhada por uma presença equivalente na imaginação brasileira.

Quando essa compreensão se completar, a Amazônia deixará de ser o conveniente mistério de Márcio Souza e ocupará, com sua complexidade e suas contradições, o lugar que sempre teve na formação do Brasil.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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