“A digitalização amplia a produtividade, integra cadeias produtivas e abre novas possibilidades para a indústria. Ao mesmo tempo, transforma sistemas, equipamentos e dados em ativos que precisam ser protegidos. No processo evolutivo do Polo Industrial de Manaus, a segurança cibernética passou a integrar a própria estratégia industrial”
A anunciada união entre a Vision Cybersecurity, controlada pela SPX Capital, e a Tempest Security, pertencente à Embraer, oferece uma medida bastante clara da importância econômica que a segurança cibernética adquiriu no Brasil. A operação deverá criar uma empresa com receita anual superior a R$ 700 milhões, cerca de 900 profissionais e mais de 600 clientes corporativos.
Os números chamam atenção, mas o aspecto mais importante está na natureza do negócio. A nova companhia pretende atuar ao longo de toda a cadeia de segurança, reunindo desenvolvimento tecnológico, monitoramento permanente, detecção de ameaças, contenção de ataques e recuperação de ambientes atingidos. SPX e Embraer perceberam que a cibersegurança deixou de ocupar uma área periférica das empresas e passou a influenciar sua capacidade de operar, inovar e competir.
Para o Polo Industrial de Manaus, essa mudança tem especial relevância. As fábricas instaladas no Distrito Industrial avançam rapidamente na incorporação de automação, inteligência artificial, internet das coisas, computação em nuvem, robótica, análise de dados e sistemas integrados de gestão. Máquinas, fornecedores, centros de distribuição, equipes administrativas e linhas de produção formam redes cada vez mais conectadas.
Essa conectividade aumenta a eficiência, reduz desperdícios, melhora o controle de qualidade e permite decisões mais rápidas. Também amplia a superfície exposta a ataques. Cada equipamento conectado, acesso remoto, fornecedor integrado ou sistema sem atualização pode se converter em uma porta de entrada.
Na indústria, um incidente cibernético não se limita ao vazamento de informações. Pode interromper uma linha de montagem, alterar parâmetros de produção, comprometer sistemas de controle, inutilizar estoques, paralisar a emissão de documentos fiscais ou impedir a comunicação com fornecedores e transportadores. Em situações mais graves, pode alcançar equipamentos operacionais e produzir riscos físicos para trabalhadores, instalações e comunidades próximas.
Esse problema se torna ainda mais sensível em Manaus. A distância dos grandes centros fornecedores, os longos ciclos logísticos e a dependência de modais sujeitos às condições dos rios elevam o custo de qualquer paralisação. Uma fábrica instalada no Sudeste pode encontrar peças, especialistas e estruturas alternativas a poucas horas de distância. No Amazonas, uma interrupção prolongada pode repercutir sobre estoques, embarques, prazos contratuais e toda a cadeia nacional de distribuição.
Segurança cibernética, nesse contexto, representa continuidade operacional. Seu benefício aparece quando a produção resiste a um ataque, quando os dados técnicos permanecem íntegros, quando uma falha é identificada antes de alcançar a linha de montagem e quando a empresa consegue recuperar seus sistemas sem semanas de inatividade.
A dimensão econômica dessa proteção é crescente. Segundo a IBM, o custo médio de uma violação de dados no Brasil chegou a R$ 7,19 milhões em 2025. Para uma indústria, entretanto, a conta pode incluir valores difíceis de mensurar previamente, como produção perdida, contratos descumpridos, desgaste com clientes, exposição de projetos, investigações regulatórias e perda de confiança dentro da cadeia de fornecedores.
Há também um patrimônio tecnológico a preservar. O PIM reúne processos industriais, projetos de engenharia, informações comerciais, desenhos de produtos, rotinas de testes e conhecimentos acumulados ao longo de décadas. Esse acervo possui valor econômico e estratégico. Proteger dados industriais significa conservar parte da inteligência construída pelas empresas e pelos profissionais que trabalham em Manaus.
A própria evolução da indústria aproxima sistemas administrativos e ambientes operacionais. Tecnologias da informação, tradicionalmente associadas a computadores, bancos de dados e redes corporativas, passam a se comunicar com tecnologias de operação responsáveis por máquinas, sensores, controladores e processos fabris. Essa convergência sustenta a indústria contemporânea, embora também permita que uma invasão iniciada em um e-mail ou credencial comprometida avance até áreas essenciais da produção.
Por isso, instalar programas de proteção e equipamentos de rede cobre apenas uma parcela do desafio. Uma política industrial de segurança cibernética exige conhecer os ativos conectados, separar redes administrativas e operacionais, controlar identidades e acessos, atualizar sistemas, proteger cópias de segurança e monitorar anomalias continuamente. Exige também planos de resposta testados periodicamente, para que cada profissional saiba o que fazer quando surgir um incidente.
A cadeia de fornecedores merece atenção equivalente. Grandes companhias podem realizar investimentos robustos em proteção e continuar expostas por meio de prestadores de serviços, integradores, transportadoras ou pequenas empresas que acessam seus sistemas. A segurança de uma cadeia produtiva acaba sendo condicionada pelo elo mais vulnerável. O desenvolvimento de padrões comuns para fornecedores ajudaria o PIM a reduzir essa exposição de maneira coordenada.
O fator humano continua central. Muitos ataques exploram senhas frágeis, mensagens fraudulentas, permissões excessivas e procedimentos cotidianos executados sem o devido cuidado. Programas permanentes de capacitação precisam alcançar dirigentes, técnicos, engenheiros, equipes administrativas e operadores das fábricas. A segurança deve acompanhar o trabalhador desde sua formação inicial e seguir presente durante toda a vida profissional.
Manaus possui condições para transformar essa necessidade em uma oportunidade econômica. Universidades, institutos de pesquisa, centros de formação profissional, empresas de tecnologia e indústrias podem constituir um ambiente de experimentação e desenvolvimento voltado à proteção de sistemas industriais. Laboratórios de simulação, centros compartilhados de monitoramento, exercícios de resposta e programas de formação poderiam atender às fábricas e, gradualmente, oferecer serviços para outras regiões do país.
Essa perspectiva coincide com a Estratégia Nacional de Cibersegurança, atualizada pelo governo federal em 2025. Entre seus objetivos estão a proteção de serviços essenciais, a gestão de riscos, a formação profissional, a cooperação entre empresas e instituições públicas e o estímulo ao desenvolvimento nacional de produtos e tecnologias de segurança.
O PIM pode dar expressão regional a essa estratégia. A experiência acumulada em eletroeletrônicos, informática, automação e produção em escala fornece uma base valiosa para desenvolver soluções adaptadas aos ambientes industriais. Além de proteger as fábricas existentes, esse movimento pode gerar empresas especializadas, empregos qualificados, pesquisa aplicada e novos serviços tecnológicos produzidos na Amazônia.
A articulação entre Vision, SPX, Tempest e Embraer mostra que o mercado já atribui elevado valor a essa competência. Empresas capazes de oferecer proteção abrangente, inteligência sobre ameaças e resposta rápida começam a ocupar posições estratégicas na economia. Para o Polo Industrial de Manaus, acompanhar esse movimento significa preparar sua infraestrutura produtiva para um período em que máquinas, dados e decisões estarão ainda mais interligados.
A evolução do PIM dependerá de produtividade, inovação, eficiência energética, formação profissional e maior integração tecnológica. A segurança cibernética atravessa todos esses objetivos. Quando incorporada desde o projeto de uma máquina, de uma fábrica ou de um novo processo, ela reduz riscos, melhora a governança e amplia a confiança de clientes, investidores e parceiros comerciais.
O polo que Manaus está construindo para as próximas décadas será mais automatizado, conectado e orientado por dados. Sua capacidade de crescer dependerá também da proteção dessas conexões. A cibersegurança passa, assim, a fazer parte da infraestrutura que mantém a produção funcionando e permite que a indústria avance com confiança.
Rildo Silva é empresário, presidente do Sindicato da Indústria de Aparelhos e Componentes Elétricos e Eletrônicos do Estado do Amazonas (SINAEES-AM), membro da Comissão ESG do CIEAM e Conselheiro da Indústria.
Referências
- • NeoFeed — SPX e Embraer articulam fusão no mercado de cibersegurança
- • GSI — Estratégia Nacional de Cibersegurança
- • IBM — Custo médio de uma violação de dados no Brasil