Análise de eventos registrados desde 2002 indica que as temporadas mais destrutivas de fogo ocorreram no ano seguinte aos episódios intensos do fenômeno climático.
Os efeitos do atual El Niño podem levar a Amazônia a enfrentar uma temporada crítica de incêndios florestais em 2027. O alerta é de uma análise do Programa de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP), da organização Amazon Conservation, que examinou oito episódios do fenômeno registrados desde 2002.
O levantamento identificou que os maiores danos provocados pelo fogo em florestas primárias ocorreram no ano posterior aos eventos mais fortes de El Niño. Esses ecossistemas estão entre os mais preservados da região, abrigam elevada biodiversidade e armazenam grandes volumes de carbono.
Em 2015, por exemplo, a temperatura da superfície do Oceano Pacífico ficou 2,34 °C acima do padrão, caracterizando um El Niño muito forte. No ano seguinte, os incêndios causaram a perda de 1,76 milhão de hectares de floresta primária amazônica.
O padrão voltou a aparecer após o fenômeno de 2023, quando a anomalia chegou a 1,49 °C. Em 2024, a destruição provocada pelo fogo alcançou 2,79 milhões de hectares, o maior resultado já registrado na região.
Segundo Matt Finer, pesquisador sênior da Amazon Conservation e diretor do MAAP, o agravamento dos incêndios não costuma ocorrer durante o pico do evento climático, mas nos meses seguintes, quando a floresta acumula os efeitos do calor e da redução das chuvas.
Como o El Niño deixa a vegetação mais inflamável
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial e altera a circulação atmosférica e os regimes de precipitação em diferentes partes do planeta. Sobre a Amazônia, favorece a formação de correntes de ar descendentes, que dificultam a criação de nuvens e reduzem as chuvas.
Com menos água disponível, o solo perde umidade e as árvores diminuem a transpiração. Esse processo enfraquece a reciclagem hídrica responsável pelos rios voadores, alimentando um ciclo de calor e seca.
As temperaturas elevadas também aumentam a queda de folhas, formando sobre o solo uma camada de material seco que pode funcionar como combustível. Para Caio Mattos, coordenador científico do Nexo Água-Alimento-Energia do Instituto Relva, as condições que poderão intensificar as queimadas em 2027 estão sendo construídas ao longo de 2026.
O aquecimento do Pacífico, entretanto, não provoca diretamente os incêndios. A floresta amazônica preservada é úmida e não possui um regime natural de fogo. A maioria das ocorrências tem origem humana, especialmente em áreas abertas por desmatamento, próximas a estradas ou destinadas à expansão agropecuária.
Quando a vegetação está ressecada, as chamas usadas na limpeza de terrenos podem escapar do controle e alcançar florestas primárias. Assim, a alteração climática amplia a vulnerabilidade do bioma, enquanto a ação humana fornece a fonte de ignição.
Países precisam antecipar ações
A experiência de 2024 mostrou, segundo o MAAP, que os países amazônicos ainda respondem de maneira tardia às emergências. A Bolívia, apontada como uma das áreas mais vulneráveis para 2027, enfrentou naquele ano sua pior temporada de incêndios, com 779.960 hectares atingidos. Tensões entre autoridades nacionais e locais prejudicaram a coordenação das ações.
No Brasil, a resposta foi mais ampla, mas também começou com atraso. O estado de emergência em 45 municípios e o alerta máximo em outras 48 cidades foram decretados somente em agosto, quase três meses depois do início das ocorrências. Ao final da temporada, cerca de 1,9 milhão de hectares haviam sido destruídos pelo fogo no país.
Colômbia, Peru, Bolívia e Equador ampliaram estruturas locais de detecção e combate e passaram a incentivar práticas agrícolas alternativas ao uso do fogo. Ainda assim, as lacunas na fiscalização continuam. Na Bolívia, as multas por queimadas ilegais correspondem a menos de 2% dos valores aplicados no Brasil e não chegam a US$ 20 por hectare.
A diminuição dos incêndios observada em 2025 também não pode ser atribuída somente à melhora institucional. O MAAP destaca que a atuação do La Niña elevou a umidade em partes do bioma e reduziu as condições favoráveis à propagação das chamas.
Para os pesquisadores, a principal medida preventiva agora é conter o desmatamento em 2026. Quanto menor a abertura de novas áreas, menor será a quantidade de vegetação disponível para ser queimada durante os meses secos de 2027.
A urgência também está relacionada ao risco de a Amazônia se aproximar de um ponto de não retorno, no qual a perda de cobertura florestal comprometeria sua capacidade de produzir umidade e regular o clima. As consequências poderiam ultrapassar os limites do bioma, afetando o abastecimento de água e o regime de chuvas em outras regiões da América do Sul.