Crise climática exige compromisso do setor imobiliário

Medidas pioneiras como carbono zero na fase de construção são uma luz no fim do túnel, mas é preciso iluminar o caminho inteiro

Por Gabriel Falavina*

A indústria da construção civil está no centro das expectativas pelo incremento de medidas de mitigação dos danos ambientais que sejam capazes de contribuir com a meta de frear as mudanças climáticas. Por estar entre os segmentos que mais produzem gases de efeito estufa, o setor também é apontado como de importância estratégica para retardar o aquecimento global, conforme preveem os objetivos estabelecidos no Acordo de Paris. Algumas mudanças no mercado imobiliário são luz no fim do túnel, mas é o caminho todo que precisa ser iluminado com velocidade e comprometimento.

O segmento da construção civil colheu grandes resultados nos últimos anos, na contramão do recuo econômico provocado pela pandemia de Covid-19. Mas em termos ambientais, não há muito a comemorar. 

Em 2019, as emissões da operação de edifícios atingiram seu nível histórico mais alto, de acordo com o Relatório de Situação Global 2020 para Edifícios e Construção, da Aliança Global para Edifícios e Construção (em inglês, Global Alliance for Buildings and Construction – GlobalABC). Naquele ano, as emissões aumentaram para 9,95 GtCO2, o que confere à indústria da construção civil a responsabilidade por 38% de todas as emissões de CO2 relacionadas à energia.

O documento, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, é uma referência mundial e orienta ações que têm como objetivo zerar as emissões de carbono na construção civil. A edição mais recente do relatório, divulgada no fim do ano passado, indica um recuo no impacto ambiental produzido pelo setor, chegando em 2020 a números que não eram vistos desde 2007. O nível de emissões de CO2 foi 10% inferior ao registrado em 2019. A má notícia é que esse resultado pouco se deve a esforços para descarbonizar as atividades da construção civil, mas à crise econômica e restrições impostas pela pandemia de Covid-19.

Setores que praticam atividades de alto impacto ambiental serão cada vez mais cobrados a adotar medidas de redução das emissões de gases de efeito estufa. No mercado imobiliário, os produtos que investem em sustentabilidade ganham importância. O movimento tem origem em um posicionamento mais consciente dos consumidores e também na postura de empresas do segmento atentas às práticas ambientalmente inovadoras.

O recente anúncio da criação do primeiro empreendimento multirresidencial do Brasil a zerar o carbono emitido na fase de construção é uma dessas iniciativas que tendem a inspirar os playersdo setor. Um estudo contratado pela RAC Engenharia, HIEX Empreendimentos e Altma Incorporadora identificou que o Árten, edifício em construção em Curitiba, produzirá, desde a fundação até a fase de acabamento, 2.640 toneladas de CO2. O cálculo permitiu a escolha de uma forma de compensação de 100% das emissões.

A mitigação do impacto ambiental será feita por meio de investimentos para a manutenção dos estoques de carbono presentes na Reserva Natural das Águas, localizada em Antonina, no litoral norte do Paraná, onde fica o maior remanescente contínuo do bioma Mata Atlântica, a Grande Reserva Mata Atlântica. A área é de propriedade da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), organização que, há quase quatro décadas, atua no Paraná e no Brasil na defesa da conservação da biodiversidade.

Há quem adote medidas sustentáveis para responder à pressão ambiental global e do setor, e, obviamente, para buscar resultados em marketing e vendas. Mas o empresário que tem um compromisso genuíno com o futuro da vida no planeta certamente almeja que boas práticas ambientais se tornem referência e diretriz para muitas outras construtoras e incorporadoras lançarem produtos ambientalmente conscientes. É hora de assumir essa responsabilidade, pelo bem das cidades, das suas populações e das próximas gerações.

Segundo especialistas, metade das emissões de uma obra costuma ser gerada na fase da construção e a outra metade, ao longo do tempo de uso da edificação. Mas a avaliação do impacto ambiental da primeira ainda é incomum no Brasil.

A maioria dos empreendimentos procura compensar o operacional, ou seja, a segunda metade. Dessa forma, o impacto da construção gera um passivo que ninguém assume. Ao investir no cálculo e compensação de um tipo de emissão que promove uma ação ambiental mais relevante, o empreendimento ganha valor agregado do ponto de vista ambiental.

Avaliação de Ciclo de Vida

Uma das metodologias que podem dar suporte às ações ambientais de construtoras e incorporadoras é a usada na Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) de edificações. A partir desse tipo de estudo, é possível definir de forma precisa qual é a melhor estratégia para compensar e equilibrar o nível de emissões de gases. Esse foi o instrumento escolhido para orientar as estratégias do projeto Carbono Zero do edifício residencial Árten.

Além de fornecer os cálculos para compensação do footprint, a ACV propõe uma série de medidas que podem ajudar a reduzir ainda mais o impacto ambiental da edificação. A substituição de matéria prima por produtos mais sustentáveis, o reaproveitamento de água e energia, o uso de eletrodomésticos mais econômicos e menos nocivos ao ambiente estão entre as soluções possíveis.

Para quem venha a morar em um imóvel verdadeiramente sustentável, a sensação será a de se transformar em um agente de conservação do meio ambiente. Os empresários que firmarem o compromisso de iluminar todo o túnel com urgentes medidas de mitigação do impacto ambiental deixarão um enorme legado social. Mas o planeta tem pressa. O compromisso com o meio ambiente precisa sair logo do papel e do discurso para entrar nos poros das paredes erguidas pela construção civil.

*Gabriel Falavina é diretor de desenvolvimento imobiliário da Altma Incorporadora

Texto publicado originalmente por Página 22

Redação BAA
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Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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