Tornados no Brasil: por que o país é o segundo mais propenso do mundo 

Com 81 ocorrências até julho, tornados no Brasil podem superar o recorde de 2025, impulsionados por tempestades severas e pelos efeitos de um El Niño forte.

O número de tornados no Brasil chegou a 81 entre janeiro e julho de 2026 e poderá superar, ainda neste ano, a marca de 92 ocorrências documentadas em 2025. Os dados são da Plataforma de Registro e Observadores de Tempestades Severas (Prevots). O total pode crescer porque o país ainda não atravessou o período mais favorável à ocorrência desses eventos, que ocorre entre o fim do inverno e da primavera. A expectativa de um El Niño forte também aumenta o risco de tempestades severas, principalmente na região Sul.

O tornado que atingiu Giruá, no Rio Grande do Sul, na terça-feira (28), integra esse cenário. O fenômeno provocou danos em imóveis, derrubou árvores e postes e deixou moradores feridos. Uma pesquisa de doutorado apresentada em 2012 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) classificou o Brasil como o segundo país com condições mais favoráveis à formação de tornados, atrás apenas dos Estados Unidos. Especialistas ressaltam, entretanto, que ainda faltam radares e um banco de dados mais completo sobre esses eventos na América do Sul.

Encontro de massas de ar favorece tempestades

Tornados são colunas de ar em intensa rotação que se estendem da base de uma nuvem de tempestade até o solo. A formação depende de correntes ascendentes fortes e de mudanças rápidas na velocidade e na direção dos ventos nas camadas mais baixas da atmosfera. A maior incidência de tornados no Brasil ocorre principalmente no oeste dos três estados do Sul e no sul de Mato Grosso. Entretanto, isso não impede registros em outros locais, como São Paulo, que também já enfrentou episódios de grande intensidade.

Segundo o meteorologista Ernani de Lima Nascimento, pesquisador do Inpe e voluntário da Prevots, o chamado jato de baixos níveis transporta ar quente e úmido da Amazônia em direção ao Sul. O encontro desse fluxo com o ar frio vindo da Patagônia amplia o contraste térmico e fortalece os ventos em diferentes altitudes, criando condições para tempestades rotativas.

Apesar dos avanços no monitoramento, não é possível determinar com horas de antecedência o local e o momento exatos de um tornado. Os modelos meteorológicos identificam ambientes favoráveis à formação de tempestades severas, mas os alertas específicos costumam ser emitidos somente após a confirmação de uma supercélula. Nesses casos, o aviso pode chegar entre 15 e 30 minutos antes da passagem do fenômeno.

Mudanças climáticas dividem especialistas

Pesquisadores concordam que a popularização dos celulares ampliou a documentação dos tornados no Brasil. Por serem fenômenos pequenos, rápidos e difíceis de identificar por satélites e até por radares, muitas ocorrências antigas podem ter passado sem registro. Não há consenso, porém, sobre a influência das mudanças climáticas.

Parte dos meteorologistas considera que o crescimento das estatísticas está relacionado sobretudo à maior capacidade de observação. Outros avaliam que o aquecimento do planeta favorece temporais mais frequentes e intensos. Ernani Nascimento considera que os dois fatores podem atuar em conjunto. Conforme o pesquisador, o deslocamento das massas de ar quente para latitudes mais ao sul estaria fortalecendo condições atmosféricas associadas às tempestades severas.

A possibilidade de novos tornados no Brasil deverá permanecer elevada nos próximos meses. Além do avanço do El Niño, uma frente fria mais intensa é esperada entre o Sul do país e a Argentina no início de agosto, aumentando o risco de temporais na região.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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