A expansão industrial continua a movimentar investimentos e empregos no Amazonas. Ao mesmo tempo, experiências surgidas no interior do Estado sugerem novos caminhos para aproximar conhecimento, inovação e oportunidades dos municípios amazônicos.
Coluna Follow-Up
Nesta semana, o CODAM – Conselho de Desenvolvimento do Amazonas – volta a cumprir um ritual que se repete há décadas. Novos projetos industriais chegam à mesa dos conselheiros. Empresas anunciam ampliações. Linhas de produção são diversificadas. Investimentos renovam a confiança no Polo Industrial de Manaus e ajudam a sustentar uma das mais bem-sucedidas experiências brasileiras de desenvolvimento regional.
Os números impressionam pela consistência. Mais uma reunião de 2026 onde o CODAM analisou dezenas de projetos com previsão de centenas de milhões de reais em investimentos privados e milhares de empregos. Trata-se de uma rotina que, vista em perspectiva histórica, ajuda a transformar Manaus em um dos principais centros industriais da América Latina.
Poucas vezes, entretanto, a pauta econômica se resume aos números que aparecem nas planilhas. Cada reunião do CODAM também permite revisitar uma pergunta que acompanha a história do Amazonas desde os anos 1960.
O que fazemos com a riqueza que conseguimos produzir?
A pergunta não diminui a importância da Zona Franca de Manaus. Pelo contrário. Ela nasce justamente da dimensão alcançada pelo modelo.
Ao longo de quase seis décadas, a indústria incentivada ajudou a preservar a floresta, gerou empregos, ampliou a arrecadação pública, financiou universidades, fortaleceu centros de pesquisa e criou uma infraestrutura institucional que poucos estados brasileiros conseguiram construir.
A Universidade do Estado do Amazonas nasceu desse esforço e tornou-se a maior universidade multicampi do país, presente em todos os municípios amazonenses. A Universidade Federal do Amazonas expandiu sua presença para diversas regiões do interior. Recursos destinados à pesquisa, desenvolvimento e inovação passaram a alimentar laboratórios, bolsas, incubadoras, centros tecnológicos e programas de capacitação. Podemos mencionar ainda o INPA, as unidades do IFAM e a Embrapa.
Fundos voltados às micro e pequenas empresas, ao turismo e à interiorização econômica foram sendo incorporados à arquitetura do desenvolvimento regional.
Vista de longe, a estrutura impressiona. Mas basta percorrer o mapa do Amazonas para perceber que a construção continua em andamento.
Os indicadores sociais de muitos municípios permanecem entre os mais modestos do país. A oferta de oportunidades econômicas continua concentrada. Jovens ainda deixam suas cidades em busca de formação e trabalho. Comunidades convivem com dificuldades que persistem apesar da existência de instrumentos concebidos justamente para enfrentá-las.
Não se trata de ausência de recursos. Nem de ausência de instituições. Talvez a questão esteja na forma como esses ativos se encontram — ou deixam de se encontrar — dentro do território. Foi pensando nisso que chamou atenção uma notícia vinda do Alto Solimões.
Enquanto os projetos industriais ocupavam o centro da agenda econômica, a incubadora INPACTAS, vinculada à Universidade Federal do Amazonas em Benjamin Constant, apresentava um portfólio com 24 startups distribuídas em diferentes estágios de maturidade tecnológica. Juntas, essas iniciativas já alcançam centenas de famílias da região.
À primeira vista, os números parecem modestos diante dos bilhões movimentados pela indústria. Mas o aspecto mais interessante talvez esteja em outro lugar. Benjamin Constant não é um polo financeiro. Não é um centro industrial. Não é uma capital estadual.
É um município localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, onde a logística continua desafiadora e onde os problemas amazônicos aparecem em sua forma mais concreta.
Foi ali que pesquisadores, estudantes, empreendedores e comunidades locais começaram a experimentar formas de transformar biodiversidade, conhecimento tradicional, ciência aplicada e inovação em oportunidades econômicas.
Durante muito tempo, o interior participou da economia regional principalmente como fornecedor de recursos naturais. Madeira, pescado, borracha, castanha, guaraná, óleos vegetais e tantos outros produtos seguiram rios abaixo em direção aos centros de transformação econômica.
Agora começam a surgir experiências diferentes. Além de matéria-prima, o interior passa a produzir conhecimento. Além de recursos naturais, passa a produzir soluções. Além de mercadorias, passa a produzir propriedade intelectual.
Pode parecer uma mudança discreta. Mas ela dialoga diretamente com uma das agendas mais antigas do Amazonas. A interiorização do desenvolvimento.
Durante décadas, essa expressão esteve associada à expansão da presença do Estado. Escolas, hospitais, universidades, energia, conectividade e infraestrutura permanecem indispensáveis e continuam sendo desafios centrais. Entretanto, uma nova dimensão começa a se incorporar ao debate.
A interiorização do conhecimento. A interiorização da inovação. A interiorização da capacidade de criar negócios capazes de permanecer nos territórios onde nasceram. Nesse ponto, a experiência das startups encontra a trajetória da Zona Franca de Manaus.
A indústria acumulou competências em engenharia, gestão, certificações, logística internacional e acesso a mercados. As universidades formaram pesquisadores. Os recursos de pesquisa e desenvolvimento continuam sendo gerados. A biodiversidade permanece disponível como ativo estratégico de alcance global.
Talvez o desafio dos próximos anos esteja menos na criação de novos instrumentos e mais na articulação dos instrumentos que já existem.
O Amazonas dispõe de floresta, universidades, indústria, centros de pesquisa, recursos de inovação e uma das maiores biodiversidades do planeta. A combinação desses elementos ainda parece longe de ter esgotado seu potencial.
Por isso, a pauta do CODAM desta semana pode ser lida de duas maneiras. A primeira aparece nos investimentos anunciados e nos empregos projetados.
A segunda surge quando se observa o que começa a acontecer em lugares como Benjamin Constant, Parintins, Tefé, Humaitá, Coari e tantos outros municípios que abrigam universidades, pesquisadores, empreendedores e jovens em busca de oportunidades.
A história da Zona Franca de Manaus foi construída para reduzir as desigualdades entre a Amazônia e o restante do Brasil.
Talvez os movimentos que começam a surgir no interior indiquem que chegou o momento de enfrentar, com a mesma determinação, as desigualdades que ainda persistem dentro da própria Amazônia.
Follow-up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor geral do portal brasilamazoniaagora.com.br.