Economia verde no Brasil pode impulsionar indústria e empregos, diz estudo

Relatório da London School of Economics afirma que a economia verde no Brasil depende de transformar recursos naturais em indústria, tecnologia e empregos. 

A economia verde no Brasil pode se tornar uma importante estratégia de desenvolvimento, desde que o país converta seus recursos naturais em produtos industriais, inovação tecnológica e empregos qualificados. A conclusão está em um relatório do Centre for Economic Transition Expertise (CETEx), da London School of Economics (LSE), elaborado com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS). O documento avalia que as políticas climáticas não devem ser tratadas apenas como despesas necessárias para reduzir emissões, mas como parte de um projeto econômico de longo prazo.

Enquanto Estados Unidos, China e países europeus precisarão mobilizar trilhões de dólares para descarbonizar suas economias, o Brasil já conta com vantagens relevantes. A lista inclui ampla disponibilidade de terras agricultáveis, biodiversidade, reservas de minerais críticos, experiência com biocombustíveis e capacidade de produzir hidrogênio verde e outros combustíveis renováveis. Outro diferencial é a matriz elétrica: aproximadamente 90% da eletricidade gerada no país vem de fontes renováveis, segundo o relatório. Essa oferta pode reduzir as emissões associadas à fabricação de produtos brasileiros e atrair empresas interessadas em cumprir metas climáticas.

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Risco de repetir ciclos de exportação

O estudo adverte que possuir recursos naturais não assegura crescimento econômico nem melhoria das condições sociais. A história brasileira é marcada por ciclos baseados na exportação de produtos como pau-brasil, açúcar, ouro e café, enquanto a maior parcela do valor era gerada nos países responsáveis pelo processamento e pela industrialização.

Esse padrão pode se repetir caso o país participe da transição energética apenas como fornecedor de minerais, energia renovável e outras matérias-primas. Nesse cenário, os processos industriais mais sofisticados, as tecnologias e os empregos de maior remuneração permaneceriam concentrados no exterior.

Para consolidar a economia verde no Brasil, será necessário ampliar a presença nacional nas etapas mais valiosas das novas cadeias produtivas. O objetivo é utilizar a disponibilidade de energia limpa e recursos naturais como base para fabricar produtos competitivos no mercado internacional.

Estratégia reúne três frentes

O CETEx propõe uma política de industrialização verde organizada em três eixos. O primeiro é transformar os ativos naturais brasileiros em bens industriais de baixa emissão, como aço verde, combustíveis sustentáveis de aviação, hidrogênio renovável e fertilizantes com menor pegada de carbono. A adoção de mecanismos internacionais que encarecem mercadorias intensivas em emissões pode favorecer essa estratégia. Entre eles está a taxação de carbono sobre determinados produtos importados pela União Europeia, que tende a aumentar a competitividade de alternativas produzidas com fontes energéticas mais limpas.

O segundo eixo envolve atrair investimentos estrangeiros acompanhados de transferência de tecnologia, conhecimento especializado e acesso a mercados. O relatório destaca a cooperação entre o Porto do Pecém, no Ceará, e o Porto de Roterdã, nos Países Baixos, para estruturar uma cadeia de produção e distribuição de hidrogênio verde. A instalação de indústrias em regiões com energia renovável abundante e competitiva pode acelerar a criação de polos produtivos.

Para o estudo, os aportes internacionais anunciados no setor indicam uma possível transferência de atividades industriais para locais capazes de oferecer eletricidade limpa a preços vantajosos. A terceira frente atribui ao poder público a coordenação da política industrial. Isso inclui garantir estabilidade regulatória, financiamento de longo prazo, infraestrutura, capacitação profissional e instrumentos comerciais destinados a setores estratégicos.

Como exemplo, o documento cita a chegada da fabricante chinesa BYD ao complexo industrial de Camaçari, na Bahia, anteriormente ocupado pela Ford. A combinação entre mercado consumidor, incentivos e disponibilidade de energia renovável teria contribuído para a decisão de investimento.

Transição climática exige escolha econômica

Para os autores, crescimento econômico e proteção climática podem avançar de forma conjunta. A descarbonização está alterando as cadeias globais de produção e criando novos mercados, mas os benefícios dependerão das decisões industriais e tecnológicas tomadas pelo país. O avanço da economia verde no Brasil dependerá da escolha entre manter o foco na exportação de matérias-primas ou utilizar os ativos nacionais para produzir bens de maior valor agregado. Segundo o relatório, a segunda alternativa permitiria diversificar a indústria e gerar empregos ligados às tecnologias de baixo carbono.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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