Estudo revela que fumaça das queimadas gera custo anual de R$ 17,6 milhões ao SUS

Pesquisa calcula o impacto da fumaça das queimadas nas internações do SUS e reforça o alerta para Amazônia e Cerrado diante do risco de novo El Niño.

A poluição gerada por queimadas e incêndios florestais na Amazônia Legal e no Cerrado setentrional provoca um custo médio anual de cerca de R$ 17,6 milhões ao Sistema Único de Saúde (SUS). O valor corresponde às internações por doenças cardiorrespiratórias associadas à fumaça das queimadas entre 2010 e 2021, segundo estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat).

A pesquisa foi conduzida por Maria Gabrielle Cerqueira Correa, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA) da Unemat, sob orientação da professora Eliane Ignotti. O trabalho também contou com a participação de pesquisadores da Fiocruz, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para chegar ao resultado, os cientistas cruzaram dados de internações do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/DataSUS) com informações sobre exposição ao material particulado fino, conhecido como PM2,5, obtidas pelo Copernicus Atmosphere Monitoring Service (CAMS). A metodologia seguiu diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para estimar a parcela de hospitalizações atribuída especificamente à fumaça da queima de vegetação.

Arco do Desmatamento concentra maiores impactos

O estudo aponta que os custos mais elevados estão concentrados em municípios do Arco do Desmatamento, área marcada pelo avanço da fronteira agropecuária, pela pressão sobre a floresta e pela maior incidência de queimadas de origem humana.

Na série histórica analisada, 2010 foi o ano mais crítico. Naquele período, 18,5% dos 1.134 municípios avaliados registraram frações atribuíveis superiores a 10%, ou seja, mais de um décimo das internações cardiorrespiratórias nesses locais esteve associado à exposição à fumaça.

Entre os municípios com maior proporção de internações atribuídas à poluição por queimadas estão Vila Rica (35%), Confresa (33,5%), Porto Alegre do Norte (32,9%) e Canabrava do Norte (32%), em Mato Grosso. Santana do Araguaia, no Pará, também aparece entre os mais afetados, com 34,9%.

Custo social das queimadas

Na avaliação econômica apresentada pelo estudo, os gastos hospitalares representam uma externalidade negativa do desmatamento e das queimadas. Isso significa que os custos sociais e sanitários da degradação ambiental acabam sendo assumidos pelo poder público e pelas populações expostas, enquanto os benefícios econômicos ficam concentrados entre os agentes que promovem os danos ao território.

O PM2,5 é formado por partículas ultrafinas capazes de penetrar profundamente no sistema respiratório e alcançar a corrente sanguínea. A exposição a esse poluente presente na fumaça das queimadas está associada ao agravamento de doenças como asma, bronquite, pneumonia e problemas cardiovasculares, além de aumentar a pressão sobre a rede pública de saúde em períodos de seca e fogo intenso.

El Niño aumenta alerta para 2026

Os resultados ganham relevância diante da possibilidade de retorno do El Niño no segundo semestre de 2026. Segundo nota técnica conjunta do Inpe, Inmet, Censipam e Funceme, há probabilidade superior a 80% de estabelecimento da fase positiva do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS) no período.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. No Brasil, o fenômeno costuma alterar o regime de chuvas e pode reduzir a umidade nas regiões Norte e Centro-Oeste, criando condições favoráveis para estiagens prolongadas e incêndios florestais.

Mato Grosso, um dos estados mais atingidos pelas queimadas, já enfrentou extremos recentes. Em 2020, o Pantanal teve cerca de 30% de sua área consumida pelo fogo. Em 2024, o estado registrou a maior seca de sua história recente e liderou o ranking nacional de focos de incêndio em agosto, com mais de 13,6 mil registros em 30 dias.

Embora 2025 tenha apresentado redução expressiva dos focos, favorecida por chuvas e pelo reforço na fiscalização ambiental, a possível chegada do El Niño reacende o alerta para os impactos combinados entre crise climática, desmatamento, fogo e saúde pública.

Para os autores, quantificar o custo da fumaça das queimadas em valores monetários ajuda a dimensionar o peso dos incêndios florestais sobre o SUS e pode orientar políticas públicas de prevenção. A pesquisa indica que combater o desmatamento e reduzir incêndios florestais também é uma estratégia de proteção à saúde e de redução de gastos hospitalares nos municípios da Amazônia e do Cerrado.

O artigo “Custos das hospitalizações como impacto da poluição atmosférica por queimadas e incêndios florestais na Amazônia Legal e Cerrado setentrional no Brasil (2010-2021)” está disponível na revista Saúde em Debate.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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