A Amazônia tem água. Mas por quanto tempo haverá água segura?

Talvez nenhuma imagem traduza melhor a mudança em curso na Amazônia do que a régua do Porto de Manaus.

Em outubro de 2024, o Rio Negro chegou a 12,17 metros, estabelecendo naquele momento a menor marca de uma série de monitoramento iniciada em 1902. O recorde anterior havia sido registrado apenas um ano antes, em 2023. Na mesma estiagem de 2024, rios como Solimões, Madeira, Purus e Amazonas também alcançaram mínimas históricas em diferentes estações da região. (SGB⁠)

Dois recordes consecutivos em uma bacia conhecida mundialmente pela abundância hídrica dizem mais do que a simples oscilação das águas.

Eles sugerem que a relação da Amazônia com seus rios entrou numa fase de maior instabilidade.

A Amazônia tem água.
Pexels – Gustavo Denuncio

Foi esse o pano de fundo do alerta lançado em Macapá pela Academia Brasileira de Ciências durante o debate “COP30 – Balanço crítico e lições da ciência brasileira rumo à COP31”. O encontro reuniu pesquisadores para discutir uma questão que durante muito tempo pareceria quase contraditória: segurança hídrica na maior bacia hidrográfica do planeta. (ABC⁠)

O Brasil concentra aproximadamente 12% da água doce superficial disponível no planeta, e a maior parcela desse patrimônio encontra-se na Amazônia. A abundância física, porém, oferece cada vez menos garantia de disponibilidade permanente, qualidade da água ou acesso seguro para a população. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Água existe. O problema está naquilo que começa a acontecer com ela. Quando o extraordinário começa a se repetir. A seca amazônica de 2023 foi um dos eventos mais extremos já documentados na região.

Uma análise de atribuição climática realizada por pesquisadores de vários países concluiu que o aquecimento provocado pelas atividades humanas tornou aquele episódio aproximadamente 30 vezes mais provável. Os níveis de vários rios caíram para patamares inéditos em mais de 120 anos de observação, enquanto temperaturas permaneceram entre 2°C e 3°C acima da média em grandes áreas da Amazônia durante parte do período analisado. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

O que poderia ser interpretado inicialmente como uma excepcionalidade ganhou outro significado quando, em 2024, novos recordes foram quebrados.

No Rio Negro, em Manaus, a mínima de 2024 superou a de 2023. Em Tabatinga, Fonte Boa, Manacapuru, Beruri, Porto Velho, Itacoatiara, Parintins e outras estações da Bacia Amazônica também foram registradas cotas historicamente baixas. O próprio Serviço Geológico do Brasil chamou atenção para uma sequência recente em que 2021 e 2022 registraram grandes cheias, seguidas pelas secas extremas de 2023 e 2024. (SGB⁠)

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O problema amazônico tende a envolver cada vez mais os dois extremos: água demais em determinados momentos, água de menos em outros.

Segurança hídrica significa justamente capacidade de atravessar essa oscilação sem colapso social, econômico ou ambiental.

A Amazônia está perdendo superfície de água. As imagens de satélite confirmam aquilo que moradores das margens dos rios já percebem.

O MapBiomas Água identificou que a Amazônia foi, em extensão absoluta, o bioma brasileiro que mais perdeu superfície de água em 2023. Naquele ano, o bioma possuía quase 12 milhões de hectares cobertos por água, correspondentes a cerca de 62% da superfície hídrica registrada no país, mas apresentava retração em relação à sua própria série histórica. (MapBiomas Brasil⁠)

A plataforma mantém hoje uma série histórica que remonta a 1985 e permite observar tendências de ganho e perda de superfície hídrica ao longo de quatro décadas. (MapBiomas⁠)

Essa redução importa porque os rios amazônicos funcionam muito além do abastecimento humano.

Eles organizam a circulação de pessoas e mercadorias, definem calendários agrícolas, sustentam a pesca, alimentam lagos de várzea, transportam sedimentos, conectam ecossistemas e estruturam parte significativa da economia regional.

Quando o nível dos rios muda, uma cadeia inteira muda junto. O peixe funciona como um termômetro. Há ainda uma dimensão biológica particularmente preocupante.

Durante o encontro da Academia Brasileira de Ciências, o pesquisador Adalberto Luis Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, chamou atenção para a vulnerabilidade térmica dos peixes amazônicos. Segundo ele, várias espécies vivem próximas de seus limites máximos toleráveis de temperatura, em alguns casos com margem da ordem de apenas 1,2°C. (ABC⁠)

Esse dado ajuda a compreender por que a segurança hídrica amazônica também é uma questão alimentar.

Em milhares de comunidades, o pescado permanece como uma das principais fontes de proteína animal. Alterações na temperatura da água, concentração de oxigênio, qualidade ambiental e conectividade entre rios, lagos e áreas de várzea podem produzir impactos diretamente sobre os estoques pesqueiros e, por consequência, sobre alimentação e renda.

A seca de 2023 já ofereceu uma amostra dessa vulnerabilidade. O Cemaden registrou mortalidade de peixes e mamíferos aquáticos, escassez de água potável e alimentos, interrupções do transporte fluvial e aumento do risco de doenças transmitidas pela água. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

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Milhares de peixes mortos no lago da Piranha, Amazonas. Foto: Edmar Barros/AP

Aquilo que parece inicialmente um problema hidrológico rapidamente se transforma em problema sanitário, econômico e social.

Uma floresta que fabrica sua própria chuva. A equação fica ainda mais delicada porque a floresta participa ativamente da circulação da água.

A evapotranspiração das árvores devolve grandes volumes de umidade à atmosfera, contribuindo para a formação das chuvas dentro e fora da Amazônia. Desmatamento, degradação e fogo interferem nesse mecanismo justamente quando o aquecimento global aumenta a pressão sobre o sistema.

O IPCC considera que as florestas tropicais já sofrem impactos das mudanças climáticas e projeta aumento das temperaturas, maior variabilidade das chuvas e crescimento da ocorrência de extremos como secas e incêndios. Esses efeitos se somam ao desmatamento, mineração, abertura de estradas e demais formas de degradação. (IPCC⁠)

Menos floresta pode significar menor reciclagem regional de umidade. Temperaturas maiores elevam a evaporação e o estresse hídrico. Florestas mais secas tornam-se mais vulneráveis ao fogo. Incêndios e degradação reduzem novamente a capacidade da vegetação de regular o ciclo da água.

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Foto divulgação

A pesquisadora Ima Vieira, do Museu Paraense Emílio Goeldi, alertou em outro encontro recente da ABC que partes da Amazônia, especialmente no leste da região, já apresentam alteração importante de seu balanço de carbono. Segundo ela, o risco aumenta quando aquecimento global e desmatamento regional avançam simultaneamente. (ABC⁠)

Cercados de água e ainda sem água segura. Existe um segundo paradoxo, mais cotidiano. Milhões de pessoas vivem cercadas por rios e continuam sem saneamento adequado.

Dados apresentados pela Funasa mostram que, entre 2000 e 2022, a cobertura de abastecimento de água na Amazônia Legal avançou de 50,8% para 68,4%. No mesmo período, a coleta de esgoto passou de apenas 10,2% para 23,2%. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

O avanço existe, mas a distância até a universalização permanece enorme.

O próprio Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional reconhece cobertura insuficiente dos serviços de água na Amazônia Legal, com desigualdades particularmente acentuadas entre áreas urbanas e rurais e entre municípios de diferentes portes. O governo também reconhece que modelos convencionais de saneamento frequentemente não se adaptam às condições territoriais amazônicas, marcadas por grandes distâncias e população dispersa. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Aqui surge uma agenda de inovação tipicamente amazônica.

Sistemas descentralizados de tratamento, captação de chuva, soluções comunitárias, tecnologias sociais, saneamento rural adaptado à várzea e sistemas de monitoramento de qualidade da água podem ser tão estratégicos quanto grandes obras convencionais.

Existe também uma dimensão econômica.

Estimativa apresentada pela Funasa, a partir de estudo do Instituto Trata Brasil, calcula que a expansão do saneamento na Amazônia Legal produziu cerca de R$ 90 bilhões em benefícios econômicos e sociais entre 2000 e 2022. A universalização dos serviços até 2040 poderia gerar aproximadamente R$ 330 bilhões adicionais em benefícios. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Saneamento, nesse contexto, passa a integrar a própria agenda de desenvolvimento regional.

Existe uma tendência histórica de tratar a água amazônica como assunto amazônico. Essa fronteira é artificial.

A circulação de umidade produzida e reciclada pela floresta influencia precipitações em outras regiões da América do Sul. O Cemaden já advertiu que secas severas na Amazônia podem reduzir o transporte atmosférico de umidade para áreas ao sul do continente, com consequências potenciais para disponibilidade hídrica, agricultura e geração de energia. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

A segurança hídrica da Amazônia participa, portanto, de uma equação econômica nacional.

Se o regime de chuvas se altera, os impactos podem percorrer cadeias agrícolas, sistemas hidrelétricos, preços de alimentos, logística e abastecimento urbano muito além da floresta.

A água que corre no Amazonas também circula, de outras maneiras, pela economia brasileira.

O debate promovido pela Academia Brasileira de Ciências ocorre num momento particularmente oportuno.

Depois da COP30, realizada em Belém, a comunidade científica brasileira começou a organizar um balanço das lacunas deixadas pela conferência e das prioridades que deverão chegar à COP31. A própria ABC tem defendido maior integração entre ciência, território e formulação de políticas públicas. (ABC⁠)

A segurança hídrica merece ocupar posição central nessa agenda.

Isso envolve monitoramento hidrológico permanente, proteção das cabeceiras e matas ciliares, combate ao desmatamento e às queimadas, controle da mineração e do mercúrio, expansão do saneamento, recuperação de áreas degradadas, pesquisas sobre biodiversidade aquática e planejamento específico para secas e enchentes.

Também exige um princípio ainda pouco incorporado ao planejamento brasileiro: preparar a Amazônia para extremos.

A região que durante séculos aprendeu a organizar sua vida segundo a subida e a descida das águas enfrenta agora um regime em transformação.

A pergunta que a Amazônia começa a fazer

Durante muito tempo, a dimensão dos rios produziu uma sensação de infinitude. O Amazonas continuará sendo gigantesco. O Negro continuará impressionando quem chega a Manaus. O Solimões continuará carregando água e sedimentos por milhares de quilômetros.

Mas segurança hídrica nunca dependeu apenas do tamanho de um rio. Depende de regularidade, qualidade, acesso, floresta, clima, saneamento, biodiversidade e capacidade institucional.

Os recordes recentes oferecem uma advertência difícil de ignorar.

Uma região pode possuir uma quantidade extraordinária de água e, ainda assim, tornar-se progressivamente vulnerável à falta dela no lugar certo, no momento certo e em condições adequadas para a vida.

É provavelmente essa a questão que precisa atravessar o caminho entre a COP30 e a COP31. A Amazônia possui a maior reserva hídrica superficial do planeta. Agora precisa aprender, com urgência crescente, a protegê-la como recurso finito.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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