O El Niño e a hora de rever nossa relação com a Amazônia

Coluna Follow-Up

O El Niño que se fortalece no Pacífico chega à Amazônia antes que a região tenha conseguido absorver completamente as consequências da grande seca de 2023 e 2024.

Em 13 de agosto, a NOAA informou que o fenômeno estava em rápida intensificação e estimou probabilidade superior a 90% de que se tornasse muito forte no final de 2026 e início de 2027. Há, segundo o órgão norte-americano, 69% de possibilidade de que alcance intensidade superior à dos demais episódios registrados desde 1950. A Organização Meteorológica Mundial também identifica um El Niño forte em desenvolvimento. (Centro de Previsão do Tempo)

É uma informação suficientemente grave para mobilizar governos, empresas, universidades e comunidades. E suficientemente conhecida para que ninguém alegue surpresa caso rios voltem a desaparecer em extensos bancos de areia, municípios fiquem isolados, alimentos encareçam, peixes morram por falta de oxigênio e incêndios avancem sobre uma floresta submetida a sucessivas temporadas de estresse.

Carlos Nobre chamou atenção nesta semana para a dimensão humana dessa ameaça. Cerca de 48 milhões de pessoas vivem na região amazônica e milhões delas dependem diretamente da regularidade dos rios, das chuvas e da floresta para transporte, alimentação, renda e acesso a serviços públicos. Na Amazônia brasileira, aproximadamente 8,5 milhões vivem em áreas nas quais a infraestrutura e os serviços são insuficientes para enfrentar eventos climáticos extremos dessa magnitude. (UOL⁠) A questão, portanto, começa muito antes de medir a cota do Rio Negro.

Uma seca que atravessa toda a economia

Na Amazônia, rio baixo significa estrada interrompida. A redução da lâmina d’água impede embarcações de alcançar comunidades, aumenta o tempo de viagem e reduz a quantidade de carga transportada. Combustível encarece. Alimento encarece. Medicamentos demoram a chegar. A produção local perde acesso aos mercados. Escolas e postos de saúde passam a funcionar precariamente.

A Reuters observa que as condições mais secas previstas para o Norte do Brasil ameaçam justamente a vasta rede fluvial da Bacia Amazônica, ao mesmo tempo que elevam os riscos de incêndios, perdas agrícolas e dificuldades para o transporte. (InfoMoney⁠)

É uma vulnerabilidade conhecida, mas ainda tratada como excepcionalidade. O problema está na estrutura econômica e territorial de uma região na qual distâncias continentais convivem com baixa densidade de infraestrutura. Quando a água desaparece, desaparece junto uma parte da logística.

Por isso, preparar-se para o próximo El Niño exige mais do que dragagem emergencial, distribuição de água potável, contratação de brigadistas ou estoque de alimentos. Tudo isso será necessário. Mas estamos diante de algo maior. Precisamos começar a redesenhar a infraestrutura da Amazônia para um clima que já mudou.

Água deixou de ser uma certeza

Durante muito tempo, tratamos a Amazônia como sinônimo de abundância hídrica inesgotável. A realidade dos últimos anos tornou essa imagem perigosamente confortável.

Ter a maior bacia hidrográfica do planeta não significa dispor de água potável em qualquer lugar, em qualquer época do ano e sob qualquer circunstância climática.

A gestão hídrica amazônica precisa entrar definitivamente no planejamento estratégico dos estados e municípios. Isso envolve armazenamento, abastecimento, monitoramento das bacias, proteção de nascentes e cabeceiras, saneamento, sistemas descentralizados de tratamento de água e planejamento específico para localidades isoladas. Também exige compreender a floresta como parte da infraestrutura hídrica.

A evapotranspiração das árvores, a reciclagem da umidade e a circulação atmosférica que transporta vapor d’água fazem parte do funcionamento do sistema amazônico. Retirar vegetação, degradar grandes áreas e multiplicar incêndios afeta o próprio mecanismo que ajuda a produzir e distribuir chuvas. Há, portanto, uma relação física entre proteger a floresta e proteger a água.

21mar2022 BaciaAmazonica AlexanderGerst CreativeCommons

A vulnerabilidade energética que a seca revela

Outra contradição amazônica aparece quando os rios baixam. Em uma das regiões de maior potencial energético renovável do planeta, milhares de localidades ainda dependem de sistemas caros, frágeis e poluentes, muitas vezes alimentados por diesel transportado durante centenas ou milhares de quilômetros.

Quando a navegação é comprometida, o combustível não chega ou chega mais caro.

Ao mesmo tempo, sistemas elétricos dependentes de geração hidrelétrica também podem sentir os efeitos da redução dos reservatórios. Carlos Nobre recorda que situações desse tipo já provocaram interrupções severas no fornecimento de eletricidade na própria Amazônia. (UOL⁠)

A transição energética, nesse contexto, deixa de ser apenas uma agenda internacional de redução de emissões. Ela passa a integrar a política regional de adaptação climática.

Energia solar distribuída, armazenamento por baterias, microrredes, biomassa sustentável e sistemas híbridos podem reduzir a dependência logística de combustíveis fósseis e aumentar a autonomia de comunidades isoladas. Poucas regiões possuem uma justificativa social tão evidente para acelerar essa transformação.

A economia da floresta também precisa se adaptar

Outro equívoco seria imaginar que atividades identificadas com a bioeconomia estarão automaticamente protegidas das mudanças climáticas. Não estarão.

Açaí, cacau, mandioca, castanha, pescado e inúmeras cadeias extrativistas dependem da estabilidade dos ciclos ecológicos. Secas prolongadas, temperaturas extremas, incêndios e alterações hidrológicas atingem exatamente a base biológica dessas atividades.

A adaptação da economia amazônica precisará incluir pesquisa genética, manejo sustentável, sistemas agroflorestais, irrigação eficiente onde for tecnicamente recomendável, armazenamento, processamento local, cadeias de frio, logística resiliente e diversificação produtiva. Bioeconomia sem ciência climática corre o risco de reproduzir vulnerabilidades antigas utilizando um vocabulário novo.

Os incêndios não começam com o El Niño

Há também uma distinção fundamental. El Niño favorece condições para que o fogo se espalhe. A floresta torna-se mais seca, a temperatura aumenta e a vegetação perde umidade. Mas a ignição geralmente tem origem humana.

Segundo o levantamento citado por Carlos Nobre, mais de 95% dos incêndios florestais registrados na Amazônia em 2023 e 2024 tiveram origem em atividades humanas insustentáveis ou ilegais. (UOL⁠) Isso muda a natureza da resposta necessária.

Prevenção de incêndios não pode ser reduzida à contratação de brigadistas durante a emergência. Envolve fiscalização permanente, inteligência territorial, combate ao desmatamento ilegal, responsabilização criminal, monitoramento por satélite e presença pública nas áreas onde degradação ambiental e crime organizado frequentemente se encontram. O El Niño fornece o combustível climático. A ação humana continua fornecendo boa parte das faíscas.

O padrão de consumo também faz parte da equação

A discussão mais incômoda, porém, seja aquela que ultrapassa a Amazônia. O planeta tornou-se extraordinariamente eficiente em retirar recursos naturais, transformá-los rapidamente em mercadorias e descartá-los em intervalos cada vez menores. Água, minerais, madeira, petróleo, solo e biodiversidade entram nesse sistema como se sua disponibilidade fosse ilimitada. A Amazônia está no centro dessa tensão.

O desafio contemporâneo passa por aumentar a circularidade da economia, reduzir desperdícios, prolongar a vida útil de produtos, ampliar reciclagem e reaproveitamento, recuperar materiais e aumentar dramaticamente a eficiência energética e hídrica dos processos industriais. Isso vale também para o Polo Industrial de Manaus.

A indústria instalada no coração da Amazônia pode transformar sua localização geográfica em vantagem tecnológica, ampliando economia circular, logística reversa, eficiência energética, redução de resíduos, descarbonização e reaproveitamento de materiais. Há uma agenda industrial considerável a desenvolver precisamente porque estamos na Amazônia.

O custo de continuar improvisando

Todos os anos de seca extrema produzem cenas semelhantes. Água sendo distribuída às pressas. Dragagem emergencial. Comunidades isoladas. Embarcações encalhadas. Produção agrícola comprometida. Peixes mortos. Escolas fechadas. Hospitais pressionados. Incêndios avançando.

O Estado então mobiliza recursos extraordinários para administrar consequências que a ciência vinha anunciando havia meses, algumas vezes anos. A repetição desse ciclo começa a ficar economicamente irracional. Prevenção climática deve entrar no orçamento público como infraestrutura.

Precisamos conhecer antecipadamente quais comunidades podem ficar isoladas, onde haverá gargalos logísticos, quais hospitais estarão vulneráveis, onde haverá risco de desabastecimento, quais municípios precisarão de reservas de combustível e alimentos e onde deverão estar posicionadas brigadas contra incêndios.

Temos satélites, modelagem climática, universidades, institutos de pesquisa, Defesa Civil, Forças Armadas, empresas e organizações comunitárias capazes de construir essa inteligência. Falta conectá-los.

A floresta ainda se recuperava

E qual seria o aspecto mais inquietante do novo episódio. A Amazônia ainda sofre os efeitos das secas recentes. Pesquisas divulgadas em 2026 indicam que parte considerável das áreas atingidas pelos eventos extremos de 2023 e 2024 pode levar anos para recuperar suas condições anteriores. Há áreas preservadas cuja recuperação poderá permanecer incompleta mesmo depois de sete anos. 

Isso significa que uma nova seca severa poderá atingir uma floresta que entra no próximo evento climático já enfraquecida. Árvores submetidas repetidamente ao déficit hídrico tornam-se mais vulneráveis à mortalidade e ao fogo. E os efeitos não terminam quando a chuva retorna. A mortalidade vegetal pode continuar nos anos seguintes.

É nesse contexto que ganha relevância a discussão científica sobre a aproximação de partes da Amazônia de limiares ecológicos capazes de alterar profundamente o funcionamento da floresta. Convém tratar o tema com a cautela exigida pela ciência, mas a cautela não pode jamais ser confundida com imobilidade.

O El Niño passará. A mudança climática ficará.

E esta distinção é muito importante. El Niño é um fenômeno natural e recorrente. O aquecimento global produzido pelas emissões humanas está alterando o ambiente no qual esses fenômenos ocorrem. 

Ondas de calor, secas, incêndios e extremos hidrológicos passam a encontrar temperaturas médias mais elevadas e ecossistemas frequentemente mais degradados.

O próximo El Niño terminará. O problema estrutural permanecerá. Por isso, a resposta amazônica precisa incluir simultaneamente adaptação e mitigação, infraestrutura e conservação, ciência e planejamento econômico.

É preciso acelerar a transição energética, reformular a gestão dos recursos hídricos, adaptar sistemas de transporte, diversificar fontes de energia, proteger a produção de alimentos, combater o fogo ilegal, fortalecer a Defesa Civil, ampliar sistemas de monitoramento e rever processos econômicos intensivos em água, energia e matérias-primas.

Também precisaremos discutir seriamente padrões de produção e consumo. Não há política amazônica consistente enquanto água, floresta, energia, mineração, indústria, agricultura, transporte e urbanização continuarem sendo planejados em compartimentos administrativos separados.

O bioma funciona como um sistema. Nossa governança ainda não. A seca que se aproxima pode produzir sofrimento considerável, especialmente entre aqueles que possuem menos renda, menor infraestrutura e maior dependência direta dos recursos naturais.

Temos, porém, uma vantagem que não existia diante de muitas tragédias do passado. O aviso chegou antes. A NOAA, a Organização Meteorológica Mundial, universidades, institutos de pesquisa e cientistas amazônicos estão dizendo o que pode acontecer. A questão agora é o que faremos com essa informação.

Porque preparar hospitais, estoques, portos, comunidades e brigadas para os próximos meses será indispensável. Mas será insuficiente se, passada a emergência, retornarmos ao mesmo padrão de ocupação, consumo de recursos, produção de energia e gestão territorial que amplifica nossa vulnerabilidade.

O próximo El Niño é também uma oportunidade pouco confortável de enxergar a Amazônia como ela realmente funciona: uma trama de água, floresta, clima, biodiversidade, cidades, indústria, comunidades e rios da qual depende a vida econômica e social de milhões de pessoas.

Se continuarmos administrando cada pedaço isoladamente, continuaremos surpreendidos por fenômenos que a ciência já aprendeu a antecipar.


Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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