Amazonas: a hora de somar esforços


O Amazonas entra em mais um daqueles períodos em que a realidade cobra capacidade de articulação, serenidade e senso de responsabilidade coletiva. A reforma tributária avança para sua etapa de implementação, a infraestrutura logística continua impondo custos elevados à produção regional e uma nova estiagem severa volta a ameaçar a navegação dos rios, o abastecimento das cidades, o funcionamento das fábricas e a circulação de mercadorias.

São problemas diferentes, mas todos convergem para uma mesma constatação

Nenhum deles será enfrentado adequadamente por instituições isoladas, setores econômicos divididos ou disputas políticas que consumam a energia necessária para resolver questões concretas.

A reunião do Conselho de Administração da Suframa, realizada em Manaus, trouxe novamente ao centro do debate a preocupação com a logística diante da possibilidade de uma vazante crítica. A experiência recente recomenda prudência. Empresas antecipam estoques, operadores logísticos reorganizam rotas, governos acompanham os níveis dos rios e a indústria procura reduzir riscos de interrupção da produção.

Essa preparação é indispensável. Mas o Amazonas precisa ir além da administração das emergências.

Nos últimos anos, a estiagem deixou de ser uma ocorrência excepcional para se transformar em variável permanente do planejamento econômico regional. Quando o nível dos rios cai, aumenta o custo do transporte, cresce a dificuldade de abastecimento e toda a cadeia produtiva sente os efeitos. O mesmo ocorre com comunidades do interior, comércio, serviços e população.

A geografia sempre condicionou a economia amazônica. As mudanças climáticas tornam essa relação ainda mais sensível.

Por isso, o debate sobre logística precisa alcançar um patamar mais amplo. Portos adequados às oscilações dos rios, dragagem tecnicamente planejada, melhoria das hidrovias, recuperação e manutenção das rodovias existentes, integração multimodal e segurança jurídica para investimentos precisam fazer parte de uma agenda permanente.

A BR-319 é uma peça importante dessa discussão. Trata-se de uma infraestrutura estratégica para a integração do Amazonas ao restante do país e que precisa ser tratada com responsabilidade ambiental, segurança técnica e previsibilidade institucional. O prolongamento indefinido das incertezas também produz impactos econômicos e sociais.

Ao mesmo tempo, outro desafio se aproxima rapidamente.

A reforma tributária modifica profundamente a estrutura fiscal brasileira e exigirá atenção permanente de todos aqueles que compreendem a importância da Zona Franca de Manaus para a economia regional.

Ao longo das últimas décadas, o Polo Industrial de Manaus consolidou uma plataforma produtiva que emprega trabalhadores, movimenta serviços, sustenta cadeias de fornecedores, gera arrecadação e contribui decisivamente para a formação econômica do Amazonas.

Paisagem da vazante na Amazônia com bancos de areia expostos às margens do rio, ambiente associado à ocorrência de panapaná
Foto: Tapiri Anavilhanas

Preservar sua competitividade durante a transição tributária será tarefa permanente.

A legislação já reconheceu as peculiaridades da Zona Franca. Agora será necessário acompanhar cada etapa de regulamentação, cada procedimento administrativo e cada interpretação que possa afetar a competitividade das empresas instaladas em Manaus.

Nesse terreno, descuidos aparentemente pequenos podem produzir consequências relevantes.

A defesa do modelo exige acompanhamento técnico, articulação política e diálogo permanente entre setor produtivo, governos, bancada parlamentar, universidades, trabalhadores e instituições da sociedade civil.

Ninguém duvida que está aí a questão mais importante deste momento.

O Amazonas precisa reconstruir uma agenda comum.

Diferenças políticas são legítimas. Divergências empresariais fazem parte da vida econômica. Instituições possuem interesses e responsabilidades distintas. Nenhuma dessas diferenças, entretanto, deveria impedir a formação de consensos sobre questões essenciais ao desenvolvimento regional.

Existem temas capazes de reunir praticamente toda a sociedade amazonense.

A defesa da competitividade da Zona Franca de Manaus é um deles.

A melhoria da infraestrutura logística é outro. A preparação para eventos climáticos extremos também.

Podemos acrescentar a diversificação econômica, a formação profissional, a inovação tecnológica, a bioeconomia, a segurança energética e a interiorização das oportunidades de desenvolvimento.

São agendas que atravessam governos e mandatos.

Uma economia regional submetida a enormes desafios geográficos e fiscais não pode desperdiçar energia com fragmentações permanentes. Cada instituição continuará defendendo suas posições, naturalmente, mas precisamos preservar espaços onde o interesse coletivo esteja acima das disputas circunstanciais.

Há uma frase antiga segundo a qual uma casa dividida dificilmente permanece de pé. A ideia continua válida para sociedades que enfrentam períodos de transformação.

O Amazonas vive exatamente um desses períodos.

Estamos diante de mudanças tributárias profundas, transformações climáticas aceleradas, novas exigências ambientais, mudanças tecnológicas e uma reorganização internacional das cadeias produtivas.

Tudo isso ocorre enquanto permanecem desafios históricos de infraestrutura, desigualdade social e integração territorial.

Nenhuma liderança possui isoladamente todas as respostas.

Por isso, precisamos ampliar o diálogo entre aqueles que produzem, governam, pesquisam, trabalham e conhecem a realidade amazônica.

Há décadas defendemos que o desenvolvimento do Amazonas depende da capacidade de transformar suas particularidades em oportunidades. A Zona Franca de Manaus nasceu dessa compreensão. Agora precisamos novamente aplicar a mesma inteligência diante de uma nova geração de desafios.

O momento recomenda menos dispersão e mais convergência.

Empresários, trabalhadores, governos, parlamentares, universidades e instituições precisam identificar aquilo que pode ser construído conjuntamente.

A estiagem chegará independentemente das nossas diferenças políticas.

A reforma tributária produzirá efeitos independentemente das nossas disputas institucionais.

Os gargalos logísticos continuarão cobrando seu preço enquanto não forem enfrentados.

A realidade costuma ser bastante objetiva. E é justamente por isso que este é o momento adequado para recuperar uma palavra que, de tanto ser usada, algumas vezes perdeu força no debate público: unidade.

Unidade não exige pensamento uniforme. Exige apenas maturidade suficiente para reconhecer que certos desafios são maiores do que qualquer grupo, governo ou instituição.

O Amazonas conhece muito bem a dificuldade de construir desenvolvimento no coração da maior floresta tropical do planeta.

Conhece também sua capacidade de superar obstáculos quando consegue reunir esforços.

É essa capacidade que novamente precisamos colocar em movimento.

Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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